A lua cheia ilumina as sombras da negra noite e mergulha no reflexo de um lago sujo e cristalino. Este lago pertence à casa que habita por entre as árvores, por entre a escuridão, atrás do portão enferrujado que os miúdos passam a vida a saltar desafiados por amigos a passar uma hora na assombrosa mansão.
Essa noite Cristina e Filipe, amigos desde sempre, crianças de dez anos, saltaram o portão.
Filipa agarra a mão de Cristina e avança com a missão de ser o protector, o herói desse supostamente ingénuo, no entanto aterrador desafio.
Caminham por entre a escuridão com destino ao seu fim. Pisam as folhas, a terra, respiram daquele ar, arrepiam-se naquele frio, temem a ausência de olhos e a presença de olhares.
A escuridão sente-os, a mansão sorri para eles e abre passagem.
Invadem a mansão. Cristina solta-se de Filipe e encantada corre para os primeiros degraus da escada, olha o tecto e sorri.
- É bonito.
- Acho que devíamos ficar aqui, junto à porta. – Aconselhou Filipe em súplica.
- Estás com medo? – Sorriu e subiu mais uns degraus. – Anda.
- Eu não tenho medo.
- Então vem.
O vento empurrou a porta e Filipe precipitou-se para junto de Cristina.
- Então vamos. – Mandou subindo.
Um corredor iluminado de negro os aguarda com um sorriso maléfico nas sombras da sombra que é a própria mansão.
Eles saltaram o portão.
Eles entraram na mansão.
Filipe põe-se à frente de Cristina sendo-lhe escudo, protegendo-a de nada e pondo-se no maior dos riscos.
Algo chama-os, o som do próprio silêncio, sussurra por eles, desafio-os a entrar no quarto ao fundo. Passam por portas e portas e todas elas parecem dizer o mesmo. Todas parecem tocar-lhes e seduzi-los a entrar. Porém, o som da última porta, a cor viva que se perdeu no tempo, chama-os, lança-lhes um feitiço delicioso, um convite a entrar irrecusável.
Filipe hesita. Pondera. Cristina antecipou-se a alguma conclusão e abriu a porta, empurrou-a devagar, resistindo ao Não de Filipe e caindo na tentação da sua curiosidade.
A porta range ao ser abrir, acorda passados tantos anos a dormir na sua doce e negra missão de ser aberta. Mas nem tudo o que pode ser aberto foi feito para esse propósito, talvez o propósito de uma porta seja manter algo dentro e não entrar algo.
Cristina avança, Filipe passa-lhe á frente como um salvador e põe-se à frente da donzela em perigo.
Observam.
Paira um cheiro a pó, um cheiro a inexplicável que os deixa alerta.
Observam.
De que adianta observar se só se vê negro?
Negro coberto de pó.
Uma cama velha, brinquedos, uma alcatifa oval. Uma mesa-de-cabeceira em madeira, um candeeiro caído no chão por cima da bainha do lençol que caia da cama e permanecia estático por anos. Tudo estava parada à anos.
Eles saltaram o portão.
Eles entraram na mansão.
Eles abriram a porta.
Filipe vira-se.
Cristina!
Onde está Cristina?
Desapareceu…
Filipe grita por ela em pânico. Corre pelo corredor, desce a escada, agarra a porta da mansão e puxa. Tem a oportunidade de fugir, toca a liberdade e algo o agarra.
Filipe grita desesperado, esperneia. É levado para baixo, para bem baixo, para debaixo da mansão. Mais escuro que a escuridão. Uma escuridão tão forte e tão pesada que parecia ofuscar a tremula luz da vela.
Atado a uma cadeira, amordaçado e em pânico. O coração a saltar no peito, numa última tentativa de se salvar daquele corpo condenado.
Cristina!
Ao vê-la, viu o seu destino.
Eles saltarão o portão.
Eles entraram na mansão.
Eles abriram a porta.
Talvez o propósito de uma porta seja manter algo dentro e não entrar algo. Um facto é que quem entrou, não saiu.
A porta está novamente fechada.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Boneca Erica
Uma casa de campo, velha e sombria, escondida por ervas e enterrada em mistério. Era esta a casa que Andreia havia comprado.
Ao entrar na casa ela ficou encantada, era realmente antiga e estava desfeita. Uma árvore crescia na sala iluminada pela luz do tecto aberto. Móveis desfeitos pelo tempo e uma moldura partida com uma fotografia de uma família. Havia algo de errado. Toda a família tinha um sorriso ligeiro, mas uma menina de cabelo negro e olhos pretos e pele muito branca estava com um ar zangado.
Andreia estranhou, mas ao ver um gato sorriu e pousou a foto. Continuou a ver a casa e para além do mau estado do quarto de jantar onde a árvore reinava, o resto da casa não estava assim tão mal.
Iria precisar de muito trabalho, mas Andreia sonhava com a ideia de ter uma casa em estilo antigo remendada por si. Ainda para mais uma casa de campo, longe do barulho, da cidade e do mundo.
Demorou longos meses ate a casa ficar pronta. No entanto, ela conseguiu com que tudo fosse feito muito mais depressa do que se esperava e ainda mais depressa instalou-se na casa.
A sua determinação era louvável e o seu recente esposo não podia estar mais orgulhoso.
Por meses foram muito felizes. A casa estava linda, sossegada. Uma calma de morte embalada em suspiros do vento deliciavam Andreia quando esta estendia a roupa.
O casal estava feliz e um bebe vinha a caminho.
Andreia passava todo o seu tempo em casa a preparar as coisas para a vinda da nova vida e acreditava que esta gravidez era a causa dos seus medos e preocupações.
Do nada ela sentia a presença de alguém ou um toque de algo. Coisas de grávida, certo?
Era terça e Andreia voltou da consulta, tinha visto o sexo do bebe pela primeira vez. Uma menina. Estava felicíssima e decidiu fazer um bolo. Mexia a massa a cantarolar com um sorriso deslumbrado quando deu um salto de susto ao ouvir algo a quebrar-se vindo da sala de jantar.
Sem hesitar foi ver o que o raio do gato tinha feito dessa vez.
A moldura de família dela e do esposo caída no chão. Levantou-a toda partida e pegou na foto. Limpou os vidros da foto e deu um grito de susto. Não podia acreditar. Não podia ser verdade. A miúda de cabelo preto estava na foto entre eles e estava zangada. A foto saltou-lhe das mãos com o susto e ela levou uma mão ao peito a outra `a barriga.
Ouviu a porta a bater e soltou mais um grito inevitável precipitou-se para as escadas e ouviu uma voz chamar o seu nome:
- Andreia. – Chamou uma voz que ela conhecia bem.
- Nuno! – Suspirou de alivio e correu ate os seus braços.
- Que se passa? – Perguntou-lhe apertando-a no abraço.
- Apanhei um susto tão grande. – Soltou um soluço e umas lágrimas.
- Que se passou? – Afastou-a olhando-a.
- A nossa foto caiu e há uma rapariga entre nos.
Claro que quando ele foi ver a foto já não havia rapariga alguma.
- Essa rapariga és tu. – Nuno segurou-lhe a face entre as mãos depois de ela voltar a olhar para a foto perplexa. – Tu não mudaste. Essa criança não vai mudar o que sinto por ti ou quem és.
- Sim. – Simulou um sorriso. – Tens toda a razão.
Andreia duvidava de si mesma. Era tão impossível que ela preferiu acreditar que tinha sido apenas a sua insegurança, uma insegurança que ela desconhecia e que lhe parecia ilógica, mas que ela preferia acreditar ser verdade.
Ao comerem o bolo ela contou as novidades sobre a bebe e ficaram ali deitados por séculos, abraçados ao presente com a mente no futuro idílico.
Andreia acordou nos braços de Nuno, ele dormia profundamente e Andreia sentiu-se atraída para o quarto de jantar. Entrou e viu a árvore a rasgar o tecto, a árvore que já não existia. A árvore estava morta e sombria, escurecida pelas trevas. A rapariga de cabelo preto saiu de trás da árvore. Andreia queria afastar-se, mas algo a prendia.
A miúda de cabelos pretos aproximou-se e Andreia não se conseguia afastar. Chegou bem perto dela e depois desviou o olhar para o tecto a um canto e aponto com o dedo. Andreia olhou, mas não via nada. Voltou a baixar o olhar e tudo estava de volta ao normal.
Foi ate ao quarto que ficava para lá da parede que pareceu que a rapariga estava a olhar e estava tudo normal. Um quarto pacífico. O quarto que seria para a sua filha brincar.
Toda essa agitação era má para a criança e a futura mãe sabia.
Apesar disso, Andreia sentiu-se intrigada. Já não estava assustada, mas intrigada com o olhar docemente cruel e ingénuo daquela estranha, daquela alucinação ou assombração.
No dia seguinte Andreia passou horas a olhar o tecto sem perceber do que estava `a procura.
Finalmente desistiu e foi alimentar a criança dentro de si. Ao afastar-se ouviu um voz a sussurrar: «Elisa» A voz continuava a chamar e Andreia procurou de onde vinha. Ouviu um riso a vir do quarto de brincar da bebe e ao entrar encontrou as paredes arranhadas ate ao cimento. «ELISA» era o que se via lá escrito.
- O que queres? – Perguntou Andreia.
Sentiu-se ridícula e ao não obter resposta virou as costas para se ir embora.
-Espera! Não me deixes. – Chamou a miúda atrás de si.
- O que queres de mim? – Exigiu saber.
A miúda olhou para a parede e repetiu.
- Elisa.
- Quem ´e essa Elisa?
- Elisa. – Apontou para a barriga de Andreia.
Andreia levou as mãos `a barriga num sobressalto e a rapariga desapareceu, tal como o nome na parede.
Nessa noite Andreia esperou que Nuno adormecesse, acedeu velas, sentou-se na sala de jantar e sussurrou «Elisa» várias vezes.
A miúda não aparecia mas as coisas estavam a cair dos sítios e as velas apagaram-se e toda a sala parecia saída de um filme de terror.
- Não podes ficar com a minha filha. Não a vais ter. – Tudo tremia e se agitava. – Não sei porque estás presa a esse mundo, mas o teu lugar não ´e aqui.
- O meu lugar ´e lá em cima. – Apontou a miúda fantasma para o canto.
- Sim. O teu lugar ´e lá em cima. – Andreia suspirou de alívio. – Podes ir para lá ter com a tua família.
- Eles não estão ali.
-Onde estão?
- Eu não sei. Eles deixaram-me ali em cima. – Voltou a apontar; aproximou-se de súbito de Andreia e sussurrou. – Tira-me dali.
Tudo voltou ao normal.
- Que se passa? – Perguntou Nuno rasgando o espaço.
- Nada, meu amor. Vamos dormir.
- Ouvi-te gritar.
- Um rato. – Mentiu.
- Um rato chamado Elisa?!
- Meu amor, deves ter tido um sonho.
Nuno não sabia no que acreditar, mas preferiu acreditar que se tratava de um sonho.
- Elisa vai ser o nome da nossa filha. – Disse Nuno na manha seguinte.
- Porque lhe queres dar um nome tão horrível? – Protestou Andreia.
- Porque sonhei com esse nome. Deve ter algum significado.
-Significa que sonhas-te com ele. Apenas isso.
- A menos que arranjes nome melhor fica esse.
Andreia não contestou. Tinha mais em que pensar no momento.
Estava a pensar no que a miúda tinha dito. “lá em cima.”
Andreia voltou para a sala de jantar com um escadote e uma serra. Serrou toda a madeira daquele canto no tecto e ficou espantada ao ver uma porta. Não conseguia alcançar a maçaneta, por isso voltou a descer, foi buscar uma vassoura e voltou a tentar. Conseguiu abrir a porta e rastejou para aquele sótão.
Que lugar sinistro. Pó, pó e mais pó. Umas quantas caixas fechadas, brinquedos velhos e assustadores espalhados e uma arca iluminada pela telha de vidro.
- Olá. – Disse a menina de cabelos pretos que brincava com uma boneca.
- Olá. – Retribuiu Andreia. – Os teus pais deixaram-te aqui?
- Sim. – A miúda continuava cabisbaixa, com o cabelo a esconder-lhe a face e a brincar com a boneca.
- Porque eles te deixaram aqui?
- Por isso. – Levantou a cabeça e a sua face estava toda cortada e ensanguentada. – Eu fiquei feia. E eles deixaram de gostar de mim.
Andreia sentou-se perto da menina fitando-a com compaixão.
- Quem te fez isso?
- Eu fiz.
- Porque o fizeste?
A menina entregou-lhe a boneca. Andreia olhou a boneca e viu que ela estava toda desfigurada.
- Alguém fez isso `a minha boneca. Quando mostrei `a minha mãe ela disse que não tinha importância, porque ela continuava a ser amada por mim. Mas a boneca sempre foi igual a mim, não queria que ela se sentisse diferente, quis que ela soubesse que eu a amava.
- Então puseste-te igual a ela?!
- Sim. Mas a minha mãe deixou de me amar.
- Isso não pode ser verdade.
- A minha mãe disse que não tinha importância quando lhe mostrei a boneca, mas quando ela me viu ela gritou e chorou. Assustou-se porque eu estava feia. Ela não me amou. Depois disso ela chorava sempre que me via. O meu pai olhava para mim com tristeza e os meus irmãos deixaram de brincar comigo. Quando havia visitas pediam-me para ficar aqui.
- Eles estavam apenas a proteger-te.
- Não. Eles deixaram de me amar. Por isso escondi-me para sempre.
- Aqui no sótão?!
- Fechei-me na arca. Comecei a ficar agoniada e custava-me a respirar. Tentei sair, mas não consegui. Adormeci abraçada `a Erica. – Abraçou a boneca.
- Erica e´ a tua boneca? – Os olhos de Andreia denunciavam emoção.
- Sim. E eu quero que fique com ela. Eu quero que ela volte a ser bonita, porque se ela for bonita eu voltarei a ser e os meus pais voltaram a me amar.
- Eu fico com ela. – Andreia segurou a boneca. – Vou tomar conta dela.
- Eu quero que a Erica brinque com ela, promete?!
- Prometo, que a Erica – Tocou a sua barriga. – Brincar `a com a Erica. – Olhou a boneca.
A menina levantou-se.
- Sofia e Erica. Eu e a minha boneca. Sempre seremos iguais.
Sofia desapareceu.
- Vou ficar por perto. – Sussurrou uma voz.
O corpo de Sofia estava dentro da Arca. A policia tratou dos restos da menina, e Andreia pus a bonita boneca junto aos outros brinquedos destinados `a sua filha, Erica.
Ao entrar na casa ela ficou encantada, era realmente antiga e estava desfeita. Uma árvore crescia na sala iluminada pela luz do tecto aberto. Móveis desfeitos pelo tempo e uma moldura partida com uma fotografia de uma família. Havia algo de errado. Toda a família tinha um sorriso ligeiro, mas uma menina de cabelo negro e olhos pretos e pele muito branca estava com um ar zangado.
Andreia estranhou, mas ao ver um gato sorriu e pousou a foto. Continuou a ver a casa e para além do mau estado do quarto de jantar onde a árvore reinava, o resto da casa não estava assim tão mal.
Iria precisar de muito trabalho, mas Andreia sonhava com a ideia de ter uma casa em estilo antigo remendada por si. Ainda para mais uma casa de campo, longe do barulho, da cidade e do mundo.
Demorou longos meses ate a casa ficar pronta. No entanto, ela conseguiu com que tudo fosse feito muito mais depressa do que se esperava e ainda mais depressa instalou-se na casa.
A sua determinação era louvável e o seu recente esposo não podia estar mais orgulhoso.
Por meses foram muito felizes. A casa estava linda, sossegada. Uma calma de morte embalada em suspiros do vento deliciavam Andreia quando esta estendia a roupa.
O casal estava feliz e um bebe vinha a caminho.
Andreia passava todo o seu tempo em casa a preparar as coisas para a vinda da nova vida e acreditava que esta gravidez era a causa dos seus medos e preocupações.
Do nada ela sentia a presença de alguém ou um toque de algo. Coisas de grávida, certo?
Era terça e Andreia voltou da consulta, tinha visto o sexo do bebe pela primeira vez. Uma menina. Estava felicíssima e decidiu fazer um bolo. Mexia a massa a cantarolar com um sorriso deslumbrado quando deu um salto de susto ao ouvir algo a quebrar-se vindo da sala de jantar.
Sem hesitar foi ver o que o raio do gato tinha feito dessa vez.
A moldura de família dela e do esposo caída no chão. Levantou-a toda partida e pegou na foto. Limpou os vidros da foto e deu um grito de susto. Não podia acreditar. Não podia ser verdade. A miúda de cabelo preto estava na foto entre eles e estava zangada. A foto saltou-lhe das mãos com o susto e ela levou uma mão ao peito a outra `a barriga.
Ouviu a porta a bater e soltou mais um grito inevitável precipitou-se para as escadas e ouviu uma voz chamar o seu nome:
- Andreia. – Chamou uma voz que ela conhecia bem.
- Nuno! – Suspirou de alivio e correu ate os seus braços.
- Que se passa? – Perguntou-lhe apertando-a no abraço.
- Apanhei um susto tão grande. – Soltou um soluço e umas lágrimas.
- Que se passou? – Afastou-a olhando-a.
- A nossa foto caiu e há uma rapariga entre nos.
Claro que quando ele foi ver a foto já não havia rapariga alguma.
- Essa rapariga és tu. – Nuno segurou-lhe a face entre as mãos depois de ela voltar a olhar para a foto perplexa. – Tu não mudaste. Essa criança não vai mudar o que sinto por ti ou quem és.
- Sim. – Simulou um sorriso. – Tens toda a razão.
Andreia duvidava de si mesma. Era tão impossível que ela preferiu acreditar que tinha sido apenas a sua insegurança, uma insegurança que ela desconhecia e que lhe parecia ilógica, mas que ela preferia acreditar ser verdade.
Ao comerem o bolo ela contou as novidades sobre a bebe e ficaram ali deitados por séculos, abraçados ao presente com a mente no futuro idílico.
Andreia acordou nos braços de Nuno, ele dormia profundamente e Andreia sentiu-se atraída para o quarto de jantar. Entrou e viu a árvore a rasgar o tecto, a árvore que já não existia. A árvore estava morta e sombria, escurecida pelas trevas. A rapariga de cabelo preto saiu de trás da árvore. Andreia queria afastar-se, mas algo a prendia.
A miúda de cabelos pretos aproximou-se e Andreia não se conseguia afastar. Chegou bem perto dela e depois desviou o olhar para o tecto a um canto e aponto com o dedo. Andreia olhou, mas não via nada. Voltou a baixar o olhar e tudo estava de volta ao normal.
Foi ate ao quarto que ficava para lá da parede que pareceu que a rapariga estava a olhar e estava tudo normal. Um quarto pacífico. O quarto que seria para a sua filha brincar.
Toda essa agitação era má para a criança e a futura mãe sabia.
Apesar disso, Andreia sentiu-se intrigada. Já não estava assustada, mas intrigada com o olhar docemente cruel e ingénuo daquela estranha, daquela alucinação ou assombração.
No dia seguinte Andreia passou horas a olhar o tecto sem perceber do que estava `a procura.
Finalmente desistiu e foi alimentar a criança dentro de si. Ao afastar-se ouviu um voz a sussurrar: «Elisa» A voz continuava a chamar e Andreia procurou de onde vinha. Ouviu um riso a vir do quarto de brincar da bebe e ao entrar encontrou as paredes arranhadas ate ao cimento. «ELISA» era o que se via lá escrito.
- O que queres? – Perguntou Andreia.
Sentiu-se ridícula e ao não obter resposta virou as costas para se ir embora.
-Espera! Não me deixes. – Chamou a miúda atrás de si.
- O que queres de mim? – Exigiu saber.
A miúda olhou para a parede e repetiu.
- Elisa.
- Quem ´e essa Elisa?
- Elisa. – Apontou para a barriga de Andreia.
Andreia levou as mãos `a barriga num sobressalto e a rapariga desapareceu, tal como o nome na parede.
Nessa noite Andreia esperou que Nuno adormecesse, acedeu velas, sentou-se na sala de jantar e sussurrou «Elisa» várias vezes.
A miúda não aparecia mas as coisas estavam a cair dos sítios e as velas apagaram-se e toda a sala parecia saída de um filme de terror.
- Não podes ficar com a minha filha. Não a vais ter. – Tudo tremia e se agitava. – Não sei porque estás presa a esse mundo, mas o teu lugar não ´e aqui.
- O meu lugar ´e lá em cima. – Apontou a miúda fantasma para o canto.
- Sim. O teu lugar ´e lá em cima. – Andreia suspirou de alívio. – Podes ir para lá ter com a tua família.
- Eles não estão ali.
-Onde estão?
- Eu não sei. Eles deixaram-me ali em cima. – Voltou a apontar; aproximou-se de súbito de Andreia e sussurrou. – Tira-me dali.
Tudo voltou ao normal.
- Que se passa? – Perguntou Nuno rasgando o espaço.
- Nada, meu amor. Vamos dormir.
- Ouvi-te gritar.
- Um rato. – Mentiu.
- Um rato chamado Elisa?!
- Meu amor, deves ter tido um sonho.
Nuno não sabia no que acreditar, mas preferiu acreditar que se tratava de um sonho.
- Elisa vai ser o nome da nossa filha. – Disse Nuno na manha seguinte.
- Porque lhe queres dar um nome tão horrível? – Protestou Andreia.
- Porque sonhei com esse nome. Deve ter algum significado.
-Significa que sonhas-te com ele. Apenas isso.
- A menos que arranjes nome melhor fica esse.
Andreia não contestou. Tinha mais em que pensar no momento.
Estava a pensar no que a miúda tinha dito. “lá em cima.”
Andreia voltou para a sala de jantar com um escadote e uma serra. Serrou toda a madeira daquele canto no tecto e ficou espantada ao ver uma porta. Não conseguia alcançar a maçaneta, por isso voltou a descer, foi buscar uma vassoura e voltou a tentar. Conseguiu abrir a porta e rastejou para aquele sótão.
Que lugar sinistro. Pó, pó e mais pó. Umas quantas caixas fechadas, brinquedos velhos e assustadores espalhados e uma arca iluminada pela telha de vidro.
- Olá. – Disse a menina de cabelos pretos que brincava com uma boneca.
- Olá. – Retribuiu Andreia. – Os teus pais deixaram-te aqui?
- Sim. – A miúda continuava cabisbaixa, com o cabelo a esconder-lhe a face e a brincar com a boneca.
- Porque eles te deixaram aqui?
- Por isso. – Levantou a cabeça e a sua face estava toda cortada e ensanguentada. – Eu fiquei feia. E eles deixaram de gostar de mim.
Andreia sentou-se perto da menina fitando-a com compaixão.
- Quem te fez isso?
- Eu fiz.
- Porque o fizeste?
A menina entregou-lhe a boneca. Andreia olhou a boneca e viu que ela estava toda desfigurada.
- Alguém fez isso `a minha boneca. Quando mostrei `a minha mãe ela disse que não tinha importância, porque ela continuava a ser amada por mim. Mas a boneca sempre foi igual a mim, não queria que ela se sentisse diferente, quis que ela soubesse que eu a amava.
- Então puseste-te igual a ela?!
- Sim. Mas a minha mãe deixou de me amar.
- Isso não pode ser verdade.
- A minha mãe disse que não tinha importância quando lhe mostrei a boneca, mas quando ela me viu ela gritou e chorou. Assustou-se porque eu estava feia. Ela não me amou. Depois disso ela chorava sempre que me via. O meu pai olhava para mim com tristeza e os meus irmãos deixaram de brincar comigo. Quando havia visitas pediam-me para ficar aqui.
- Eles estavam apenas a proteger-te.
- Não. Eles deixaram de me amar. Por isso escondi-me para sempre.
- Aqui no sótão?!
- Fechei-me na arca. Comecei a ficar agoniada e custava-me a respirar. Tentei sair, mas não consegui. Adormeci abraçada `a Erica. – Abraçou a boneca.
- Erica e´ a tua boneca? – Os olhos de Andreia denunciavam emoção.
- Sim. E eu quero que fique com ela. Eu quero que ela volte a ser bonita, porque se ela for bonita eu voltarei a ser e os meus pais voltaram a me amar.
- Eu fico com ela. – Andreia segurou a boneca. – Vou tomar conta dela.
- Eu quero que a Erica brinque com ela, promete?!
- Prometo, que a Erica – Tocou a sua barriga. – Brincar `a com a Erica. – Olhou a boneca.
A menina levantou-se.
- Sofia e Erica. Eu e a minha boneca. Sempre seremos iguais.
Sofia desapareceu.
- Vou ficar por perto. – Sussurrou uma voz.
O corpo de Sofia estava dentro da Arca. A policia tratou dos restos da menina, e Andreia pus a bonita boneca junto aos outros brinquedos destinados `a sua filha, Erica.
sábado, 7 de agosto de 2010
Bordel de Freiras

Senhoras que abdicam da família, do lar, de filhos, de prazer. O único prazer que têm na vida é servir o seu Senhor, o Deus das suas preces. Abdicam de tudo pela sua fé. Vivem em conventos, em refúgios, em prisões a que se entregam.
No entanto, a história que te vou contar, não fala de uma prisão, mas de algo mais horrível. Jovens mulheres que se entregam ao convento para uma vida casta e pura em que possam rezar e fazer o bem, mas nesse convento as coisas são bem diferentes.
Vou contar a história de uma jovem em especial, mas na história dela poderás ver a história de todas elas.
Ana perdeu o pai, vi-o morrer. Ele morreu-lhe diante dos olhos dia a pós dia morrendo um pouco mais. Agarrou-se à fé para que ele vivesse tempo suficiente para a ver crescer e ele viveu. Viveu até ela fazer dezoito anos, nesse exacto dia ele faleceu e Ana decidiu se entregar aos cuidados do convento em homenagem ao pai.
A mãe mostrou-se relutante à ideia de não poder estar com a sua filha todos os dias de sua vida, mas a decisão estava tomada e Ana foi para o convento.
O dia em que entrou para o convento o céu chorava entre um riso esboçado pela freira que a recebia. Os pássaros voavam para longe e as árvores escolheram a morte. Quando entrou não sentiu a paz que esperava sentir, sentiu estranheza e um arrepio súbito na espinha. A luz fraca tornava a freira que a recebia uma estranha figura de horror.
Andou-se o corredor passando portas fechadas, andou-se na escuridão hesitando cada passo. Ouvia-se rezas, súplicas aos céus, choros dissimulados pelo murmúrio das preces.
Nos aposentos de Ana, em que ela se sentiu uma estranha para aquelas paredes e aquela cama, a freira saiu deitando um último olhar àquele bocado de carne que trouxera para dentro do convento. A Cruz pendurada em cima da cama incentivou-a a uma reza.
Suores frios acompanhavam cada conta do rosário, o Cristo permanecia preso, triste, frio e morto, pendurado.
A noite, Ana passou-a agarrada ao cobertor, arregalada e apoquentada. Ela sentia que algo estava errado e não podia estar mais certa.
No dia seguinte, depois do pequeno-almoço insuficiente, Ana foi rezar junto das outras freiras e reparou que elas não rezavam mas falavam entre si, em desabafos pavorosos. Uma das freiras contava que lhe doía a alma de tanto mal em que nadava. Outra disse que nenhuma reza as lavaria a alma. A mais séria disse que “A culpa não é só de quem consente sem ter mais opção e Deus nos irá perdoar, pois nosso arrependimento é genuíno.”
- Arrependimento?! Que atormenta vossas almas, irmãs? – Perguntou inocentemente Ana.
- Oh! Pobre alma sem salvação, porque se entregou a essa vida? – Disse a Ana e prosseguiu para os céus. – Quantas mais terão de sofrer, Senhor? Quantas mais?
- Irmã! Contenha-se que a pobre veio ao mesmo que todas nós. Servir ao senhor. – Protestou a freira mais séria. – Somos almas salvas pelas nossas intenções.
- De que falam, irmãs? – Ana assustava-se cada vez mais com aquele local.
- Falamos do que se passa dentro desse convento maldito. – A terceira freira apertou as mãos seladas de Ana fitando seus olhos. – Irmã… Fuja antes do anoitecer.
- Adele! Como esperas que ela o faça? – Interrompeu a segunda.
- Irmã Teresa, sabe que temos de a salvar. Olhe os olhos da moça… - Com a mão no queijo de Ana manipulou a sua cabeça para a freira Teresa. - … Tão pura como a virgem.
- Oh! Meu Deus! – Elevou as mãos ao rosto. – Que fazemos?
- Estão a assustar-me irmãs. – Confessou Ana.
- Fazemos a única coisa que podemos, - Falou a mais séria. – rezamos.
- Irmã… Que Deus perdoe a sua hipocrisia. Não vê que ainda há esperança para ela. – Disse Adele.
Ana escutava assustada e sem reacção.
- Que esperança? – Perguntou a freira mais séria elevando a voz. – Tem ela a mesma esperança que nós. Ou dentro de uma semana terá a mesma esperança que todas nós. Nenhuma.
- Oh! – Chorou a freira Teresa. – Oremos.
Ana acatou o conselho como ordem e rezaram todas. As freiras por misericórdia, Ana pelo seu medo ainda lhe desconhecido.
A noite não tardou. Cada uma para seus aposentos por ordem da freira que acompanhou Ana quando chegou.
O gelo dos corredores era perceptível. O terror em cada uma era oculto pela falta de luz. As cruzes estavam na sombra da vela fraca de luz, mas cheia de fogo que havia no altar de reza vã de cada quarto.
A vela de Ana ainda brilhava esperança, ainda se via luz, mas a luz se apagou ao rasgar pela porta. A freira obscura do sorriso banhado de chuva irrompeu a paz.. A vela apagou-se com o vento e Ana foi arrastada para fora do quarto, arrastada pelos corredores, arrastada pelas escadas, arrastada. Foi então que Ana viu as freiras com quem tinha estado naquele dia. Elas estavam sentadas, sentadas com um ar triste e miserável, cabisbaixo e compreensível, pois não estavam sentadas em cima de bancos, mas em cima de homens.
O ar faltou a Ana.
- Veste isso. – Ordenou a malvada da freira que lhe sorriu quando entrou, sorriu porque sentia prazer em enganar e mandar em todas as suas escravas.
Ela tentou fugir, mas foi em vão. Em mais uma tentativa de ganhar tempo, de fugir perguntou onde se podia trocar.
- Aqui mesmo. Esses senhores mal podem esperar por te ver despir esse hábito.
O ar insistia em não entrar nos pulmões de Ana.
Apavorado e em choque forçada a trocar de roupa à frente de estranhos que a comiam com os olhos. Ana finalmente reagiu. O ar entrou em seus pulmões em um soluço que acabou em lágrimas que correram cara abaixo no seu rosto estático.
Um homem a agarrou pela mão e a levou.
Ela tentou fugir, tentou se soltar, tentou se salvar.
O seu desespero, a sua luta.
O brilho dos seus olhos enterrado ao mesmo tempo que um estranho se enterrava em seu corpo.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Letícia Elisabete Rodrigues Castro
Mãe de dois filhos: António Castro Amaral e Sofia Castro Amaral
Acusada do homicídio do marido
Confissão assinada:
Eu assassinei o meu marido.
Ele era um monstro e merecia morrer.
Fui forçada a casar com ele aos dezassete anos pelos meus pais. Eles queriam o melhor para mim e casar-me com um homem velho de muitas posses era uma garantia do meu futuro, sendo a minha família pobre.
Na idade ele disse a verdade, quanto a posses, só possui-me a mim.
Em tão tenra idade já estava cansada com um homem que me metia nojo e que me levou para longe da minha família.
Tinha de escrever cartas á minha mãe a mentir-lhe para ela não sentir culpa da minha má sorte.
Enquanto a minha mãe acendia velas ao céu a agradecer a sorte que eu tinha tido na vida, a sorte que lhe dizia que tinha. Em casa, o meu marido, o meu carrasco, ele tratava-me mal.
Eu era tão nova e tinha de ser desposada por ele. Parecia que ele se divertia com a minha ingenuidade, com o meu desejo de castidade. Chegava do trabalho mal pago e que ele odiava e agarrava-me pelo braço, atirava-me para a cama e com brutalidade e contra a minha vontade me desposava como todos os dias desde o dia em que me casei.
Todos os dias eu tentava pará-lo, tentava acabar com aquilo. Lutava pela minha dignidade.
Depois do António ter nascido parei de lutar. Mesmo durante a gravidez, já deixava que ele fizesse o que quisesse comigo. Lutar contra ele só seria um risco para o meu filho. E depois de nascido não queria que o meu filho visse alguma cena, soubesse como tinha sido feito ou simplesmente soubesse o sofrimento em que a mãe se encontrava.
Muito meu filho me viu chorar e eu dizia-lhe que eram magoas do passado, quando eram magoas tão vivas, um ódio que se me alimentava todos os dias.
Sofia nasceu e era uma bonequinha. Linda e sorridente. Tinha uma felicidade que eu invejava ter. Uma felicidade que eu em tempos tivera.
António às vezes até tinha ciúmes da irmã, mas ele sabia que eu o amava, e ficava feliz só por me ver a sorrir mais vezes. Sofia foi uma alegria muito grande na minha vida. Os meus dois filhos brincavam enquanto eu cozinhava para eles. Dava gosto cozinha para eles. Até arrumar o que eles desarrumavam tinha outro gosto. Os meus filhos são tudo para mim, a única coisa boa no meu casamento.
Foi quando a meio da noite ouvi gritos. Os gritos dos meus filhos em desespero e notei a ausência do traste a meu lado que o meu coração sufocou-me a garganta e precipitei-me até eles para os acudir.
Os meus olhos gritaram desespero e horror em lágrimas que não correram mas se suicidaram.
Ele estava a fazer a Sofia o que tantas vezes fez-me a mim. No choque fiquei parada a olhar incrédulo para o espectáculo de terror que não via. Tudo me parecia pesadelo. Não podia ser real. Ele não podia estar a fazer aquilo á minha filha.
António viu-me e correu até mim. Puxou-me pela blusa e deixei cair a cabeça caindo os meus olhos sobre ele.
- Mamã – chorava em soluços. – Ajuda! Por favor, mamã.
Os seus gritos de desespero acordaram-me. Caminhei até á cozinha, agarrei na faca que usei tantas para cozinhar para os meus filhos, voltei ao quarto e o pesadelo tornou-se realidade.
- António, sai!
Esfaqueio-o vezes sem conta. Mesmo depois de morto continuei a esfaqueá-lo. Tirei o seu cadáver de cima de Sofia e abracei-a com toda a força. O aperto do seu abraço, o tremer de suas mãos e de sua voz a chamar-me, o seu choro de menina. Tudo tão horrível, mas ela estava bem.
António ao fazer-se silêncio veio a abraço-nos também.
A preocupação dele com Sofia tocou-me. Ele acarinhou o cabelo da irmã e como se fosse seu guardião disse que estava tudo bem, que a amava e que a íamos proteger para sempre. Eles são quase da mesma idade, mas cresceu tanto o meu menino naquela noite.
Enquanto eu escavava o quintal, António cuidava de Sofia. Estava com ela deitada no seu peito a dar-lhe mimos. Ao vê-los assim só me apetecia abraçá-los, mas tinha de continuar a escavar.
Escavei bem fundo e o meu menino e a minha bonequinha ao verem-me arrastar o corpo morto em vez de se afastarem como pedi vieram ter comigo e ajudaram-me a puxar o corpo. Caiu-me uma lágrima pesada ao ver o que tinha feito, como estava a dar tanto peso nas almas das minhas crianças.
Depois de enterrado, António com uma sabedoria que eu desconhecia disse a Sofia que o que tínhamos feito tinha sido uma coisa má e que nunca na vida poderiam fazer coisa igual.
Já era de manhã e estávamos todos enfiados na banheira. Eu abraçada aos meus dois filhos. A lavar-lhes o sangue, a vergonha e a velha vida. Com as mãos que os salvei, os amava. Não guardo o mínimo arrependimento por o ter morto. Só lamento que os meus filhos tenham assistido. Limitei-me a salvar tudo o que tinha. O mundo agradece o meu acto de loucura, pois na minha loucura tomei o acto mais louvável da minha vida, pus fim á vida do meu carrasco.
Se é meu destino passar os dias na prisão agora que o seu corpo foi descoberto, então que seja, mas que prendam os meus filhos comigo, pois eles são cúmplices da minha dor.
Letícia Castro
Acusada do homicídio do marido
Confissão assinada:
Eu assassinei o meu marido.
Ele era um monstro e merecia morrer.
Fui forçada a casar com ele aos dezassete anos pelos meus pais. Eles queriam o melhor para mim e casar-me com um homem velho de muitas posses era uma garantia do meu futuro, sendo a minha família pobre.
Na idade ele disse a verdade, quanto a posses, só possui-me a mim.
Em tão tenra idade já estava cansada com um homem que me metia nojo e que me levou para longe da minha família.
Tinha de escrever cartas á minha mãe a mentir-lhe para ela não sentir culpa da minha má sorte.
Enquanto a minha mãe acendia velas ao céu a agradecer a sorte que eu tinha tido na vida, a sorte que lhe dizia que tinha. Em casa, o meu marido, o meu carrasco, ele tratava-me mal.
Eu era tão nova e tinha de ser desposada por ele. Parecia que ele se divertia com a minha ingenuidade, com o meu desejo de castidade. Chegava do trabalho mal pago e que ele odiava e agarrava-me pelo braço, atirava-me para a cama e com brutalidade e contra a minha vontade me desposava como todos os dias desde o dia em que me casei.
Todos os dias eu tentava pará-lo, tentava acabar com aquilo. Lutava pela minha dignidade.
Depois do António ter nascido parei de lutar. Mesmo durante a gravidez, já deixava que ele fizesse o que quisesse comigo. Lutar contra ele só seria um risco para o meu filho. E depois de nascido não queria que o meu filho visse alguma cena, soubesse como tinha sido feito ou simplesmente soubesse o sofrimento em que a mãe se encontrava.
Muito meu filho me viu chorar e eu dizia-lhe que eram magoas do passado, quando eram magoas tão vivas, um ódio que se me alimentava todos os dias.
Sofia nasceu e era uma bonequinha. Linda e sorridente. Tinha uma felicidade que eu invejava ter. Uma felicidade que eu em tempos tivera.
António às vezes até tinha ciúmes da irmã, mas ele sabia que eu o amava, e ficava feliz só por me ver a sorrir mais vezes. Sofia foi uma alegria muito grande na minha vida. Os meus dois filhos brincavam enquanto eu cozinhava para eles. Dava gosto cozinha para eles. Até arrumar o que eles desarrumavam tinha outro gosto. Os meus filhos são tudo para mim, a única coisa boa no meu casamento.
Foi quando a meio da noite ouvi gritos. Os gritos dos meus filhos em desespero e notei a ausência do traste a meu lado que o meu coração sufocou-me a garganta e precipitei-me até eles para os acudir.
Os meus olhos gritaram desespero e horror em lágrimas que não correram mas se suicidaram.
Ele estava a fazer a Sofia o que tantas vezes fez-me a mim. No choque fiquei parada a olhar incrédulo para o espectáculo de terror que não via. Tudo me parecia pesadelo. Não podia ser real. Ele não podia estar a fazer aquilo á minha filha.
António viu-me e correu até mim. Puxou-me pela blusa e deixei cair a cabeça caindo os meus olhos sobre ele.
- Mamã – chorava em soluços. – Ajuda! Por favor, mamã.
Os seus gritos de desespero acordaram-me. Caminhei até á cozinha, agarrei na faca que usei tantas para cozinhar para os meus filhos, voltei ao quarto e o pesadelo tornou-se realidade.
- António, sai!
Esfaqueio-o vezes sem conta. Mesmo depois de morto continuei a esfaqueá-lo. Tirei o seu cadáver de cima de Sofia e abracei-a com toda a força. O aperto do seu abraço, o tremer de suas mãos e de sua voz a chamar-me, o seu choro de menina. Tudo tão horrível, mas ela estava bem.
António ao fazer-se silêncio veio a abraço-nos também.
A preocupação dele com Sofia tocou-me. Ele acarinhou o cabelo da irmã e como se fosse seu guardião disse que estava tudo bem, que a amava e que a íamos proteger para sempre. Eles são quase da mesma idade, mas cresceu tanto o meu menino naquela noite.
Enquanto eu escavava o quintal, António cuidava de Sofia. Estava com ela deitada no seu peito a dar-lhe mimos. Ao vê-los assim só me apetecia abraçá-los, mas tinha de continuar a escavar.
Escavei bem fundo e o meu menino e a minha bonequinha ao verem-me arrastar o corpo morto em vez de se afastarem como pedi vieram ter comigo e ajudaram-me a puxar o corpo. Caiu-me uma lágrima pesada ao ver o que tinha feito, como estava a dar tanto peso nas almas das minhas crianças.
Depois de enterrado, António com uma sabedoria que eu desconhecia disse a Sofia que o que tínhamos feito tinha sido uma coisa má e que nunca na vida poderiam fazer coisa igual.
Já era de manhã e estávamos todos enfiados na banheira. Eu abraçada aos meus dois filhos. A lavar-lhes o sangue, a vergonha e a velha vida. Com as mãos que os salvei, os amava. Não guardo o mínimo arrependimento por o ter morto. Só lamento que os meus filhos tenham assistido. Limitei-me a salvar tudo o que tinha. O mundo agradece o meu acto de loucura, pois na minha loucura tomei o acto mais louvável da minha vida, pus fim á vida do meu carrasco.
Se é meu destino passar os dias na prisão agora que o seu corpo foi descoberto, então que seja, mas que prendam os meus filhos comigo, pois eles são cúmplices da minha dor.
Letícia Castro
sábado, 12 de junho de 2010
Abri os Braços e Saltei
Uma tristeza se apoderou de mim. Uma tristeza se apoderou de meus pés e me fez arrastar-me. Arrastei-me seguindo melancolicamente a minha tristeza. Seguindo a minha dor, a minha angústia.
Quando acordei dessa angústia cegante e condutora, estava num penhasco.
Que bela visão…
Ali de cima, vi minha paz, vi o mar me seduzindo pela beleza, pela tranquilidade tempestiva e infinita, profunda e condutora. Foi até ali que a minha frustração me levou. Estava de pé a olhar o poder que se apoderava de mim. A olhar para baixo com os olhos presos ao céu. Abri os barços e me banhei no vento de olhos cerrados e cabeça tombada para trás, para trás,” tudo o que está para trás não importa”, só vi o poder a apoderar-se de mim, vi-o de olhos fechados, vi-o pelo meu corpo. Meu corpo não sentiu mais nada. Só sentiu o poder do vento. A liberdade da força da gravidade foi-me insinuada pelo vento.
Sento-me…
Ali sentada, já nada tinha a gritar, já nada tinha a chorar, já nada tinha a lembrar, já não tinha nada que me prendesse a esse mundo a não ser o vento, o vento que me insinuava o poder da liberdade na força da gravidade.
Abro os meus olhos…
Minhas pernas já se encontravam fora da área de terra, de rocha, de ligação com a vida, ligação com o mal, ligação com o passado. Passado que terminava ali. Passado que já não importava. Minhas pernas já não gritavam, já não choravam, já não me culpavam pelas feridas que transportavam ou pelas cicatrizes que me levavam. Minhas pernas me diziam que para lá, para lá da rocha, da terra, se encontra paz.
Uma sensação incrível e apoderam-te que começou a tomar conta de mim, tal criança encantada com um abraço de pai e mãe. E eu queria sentir esse abraço. Queria ser abraçada pelo ar, lançada ao encontro do chão e ali morrer no frio e carinhoso abraço de morte com a terra depois de atravessar toda a liberdade e paz do ar. Últimos momentos agarrados á vida. “Momento em que serei livre, serei ar, serei leve, serei paz, serei livre de dor e serei apenas um corpo morto a cair para a vida, morrendo logo em seguida, ao menos saberei o que é estar viva quando estiver a morrer. Pois viver não é isso. Estou vazia e morta antes sequer de morrer. E morrerei sabendo o que é estar viva, nem que seja por um segundo. Morrerei vivendo na queda. Morrerei depois do salto.”
Fecho os olhos, engulo em seco, encho o peito de ar, salto…
Sorrio e choro na queda.
Não me arrependo.
Não posso voltar atrás e repetir a experiência.
Minhas lágrimas são deixadas para trás ao longo do percurso.
Minha magoa me abandona.
Estou viva.
Expiro em mais uma lágrima e mais um sorriso.
Embato o chão…
Estive vive na queda e morri nela…
Ao embater o chão tudo terminou.
Não lembro de nada.
Não lembro sequer de dor ou medo.
Não lembro se havia algo bonito do outro lado.
Lembro que antes de me entregar ao ar, tudo era mau e doloroso e ali sim, ali antes de estar no ar, ali sentia medo, ali sentia dor, ali sentia-me morta e agora estou viva.
O meu salto para a morte, foi o meu salto para a vida.
Acordei desse salto para a vida do outro lado da linha da morte.
Acordei com dores, acordei confusa e sem noção do tempo ou espaço. Acordei no céu. Um quarto vazio e branco. Acordei numa cama. Acordei no hospital. Estava viva… Estou viva. Uma lágrima que não sei se de alivio ou de dor escorreu-me pelo canto do olho. Chorei no silêncio até o ponteiro atingir a hora seguinte e alguém entrar a ver como estava eu. Sim! Alguém queria saber como eu estava. Uma enfermeira de branco e sorriso triste. Mais triste que a minha vida e fez-me tão feliz a ver. Ver alguém que respirava e que não era Deus.
Perguntou-me como me sentia e o meu sorriso banhado em lágrimas respondeu-lhe: “Sinto-me viva…”
E de facto estava. Viva como nunca estivera. Sozinha como sempre, mas sem sentir a solidão. Grata por estar viva. Grata por uma oportunidade de começar de novo. Os meus problemas continuavam a existir, mas já não importavam, porque não era suposto eu existir e, no entanto, ali estava eu, a gastar oxigénio e a ocupar uma cama e a usar gesso, apanhando o frio do ar condicionado e a ouvir o paciente do lado a tossir.
Tudo tão real e tão mais bonito que a minha antiga vida antes de saltar para a morte.
Saltar foi o que fez estar viva agora e saltaria novamente se voltasse atrás e estivesse de volta ao ante-salto, se estivesse novamente morta, saltaria para a vida saltando de encontro da morte.
Meus amigos me visitaram naquele hospital. Todos estupefactos com a minha súbdita mudança. Eu ria, eu ria e sorria e abraçava toda a gente. Ignorava a dor física e mostrava o quanto me sentia bem por eles estarem ali e por eu estar ali e poder vê-los e senti-los e falar com eles.
Meus pais choraram ao me ver. De alegria, de culpa, de incompreensão e alivio por eu estar bem, tão bem. Abri os braços para os receber, mais um abraço aos que aqui iam ficar, que iam chorar a minha morte e culpar-se pelo que eu é que fiz, eu é que quis, eu é que deveria me sentir culpada por faze-los passar por tal coisa.
Compensei o meu acto de loucura com a minha felicidade súbita e a minha vida interior renascida em mim pelo tubo na garganta que me arranhava a faringe.
Na queda, uma costela perfurou-me um pulmão, parti alguns ossos e fiz umas feridas. Uma das quais tiveram de remover uma pedra com cirurgia. Remover a pedra que eu tinha na nuca, pouco a cima da testa e que felizmente não me causou nem morte, nem danos.
Sai do hospital como outra. Recusei a cadeira de rodas, pelo menos até ao carro. Queria voltar a andar, mostrar a todos que estava bem, viva e feliz. Caminhei até ao carro, com dores por todo o lado e o meu peito a arder numa dor maior, não só pelo meu coração acelerado em alegria como pelo pulmão ainda magoado.
Agora não imagino como seria não estar aqui. Faltar a tantos aniversários, tantos natais, tantas festas e tantas idas á praia ou ao centro-comercial. Não ir aos saldos é impensável. E como poderia o mundo ser o mesmo se eu não tivesse comprado aquele carro que é lindo como tudo ou se não tivesse abraçado os meus pais todos os dias desde aquele dia e dito a todos os meus amigos como os adoro?
De certo que o meu mundo seria muito diferente. De certo que todos os que adoro não seriam tão felizes como são com todo o amor e felicidade que tenho em mim e que lhes dedico. Ganhei uma força e uma vida no lugar vazio enorme que estava em mim quando me atirei. Penso que todo o ar que se atravessou no meu caminho na queda entrou em mim e me encheu de paz, de liberdade e de amor.
Quando acordei dessa angústia cegante e condutora, estava num penhasco.
Que bela visão…
Ali de cima, vi minha paz, vi o mar me seduzindo pela beleza, pela tranquilidade tempestiva e infinita, profunda e condutora. Foi até ali que a minha frustração me levou. Estava de pé a olhar o poder que se apoderava de mim. A olhar para baixo com os olhos presos ao céu. Abri os barços e me banhei no vento de olhos cerrados e cabeça tombada para trás, para trás,” tudo o que está para trás não importa”, só vi o poder a apoderar-se de mim, vi-o de olhos fechados, vi-o pelo meu corpo. Meu corpo não sentiu mais nada. Só sentiu o poder do vento. A liberdade da força da gravidade foi-me insinuada pelo vento.
Sento-me…
Ali sentada, já nada tinha a gritar, já nada tinha a chorar, já nada tinha a lembrar, já não tinha nada que me prendesse a esse mundo a não ser o vento, o vento que me insinuava o poder da liberdade na força da gravidade.
Abro os meus olhos…
Minhas pernas já se encontravam fora da área de terra, de rocha, de ligação com a vida, ligação com o mal, ligação com o passado. Passado que terminava ali. Passado que já não importava. Minhas pernas já não gritavam, já não choravam, já não me culpavam pelas feridas que transportavam ou pelas cicatrizes que me levavam. Minhas pernas me diziam que para lá, para lá da rocha, da terra, se encontra paz.
Uma sensação incrível e apoderam-te que começou a tomar conta de mim, tal criança encantada com um abraço de pai e mãe. E eu queria sentir esse abraço. Queria ser abraçada pelo ar, lançada ao encontro do chão e ali morrer no frio e carinhoso abraço de morte com a terra depois de atravessar toda a liberdade e paz do ar. Últimos momentos agarrados á vida. “Momento em que serei livre, serei ar, serei leve, serei paz, serei livre de dor e serei apenas um corpo morto a cair para a vida, morrendo logo em seguida, ao menos saberei o que é estar viva quando estiver a morrer. Pois viver não é isso. Estou vazia e morta antes sequer de morrer. E morrerei sabendo o que é estar viva, nem que seja por um segundo. Morrerei vivendo na queda. Morrerei depois do salto.”
Fecho os olhos, engulo em seco, encho o peito de ar, salto…
Sorrio e choro na queda.
Não me arrependo.
Não posso voltar atrás e repetir a experiência.
Minhas lágrimas são deixadas para trás ao longo do percurso.
Minha magoa me abandona.
Estou viva.
Expiro em mais uma lágrima e mais um sorriso.
Embato o chão…
Estive vive na queda e morri nela…
Ao embater o chão tudo terminou.
Não lembro de nada.
Não lembro sequer de dor ou medo.
Não lembro se havia algo bonito do outro lado.
Lembro que antes de me entregar ao ar, tudo era mau e doloroso e ali sim, ali antes de estar no ar, ali sentia medo, ali sentia dor, ali sentia-me morta e agora estou viva.
O meu salto para a morte, foi o meu salto para a vida.
Acordei desse salto para a vida do outro lado da linha da morte.
Acordei com dores, acordei confusa e sem noção do tempo ou espaço. Acordei no céu. Um quarto vazio e branco. Acordei numa cama. Acordei no hospital. Estava viva… Estou viva. Uma lágrima que não sei se de alivio ou de dor escorreu-me pelo canto do olho. Chorei no silêncio até o ponteiro atingir a hora seguinte e alguém entrar a ver como estava eu. Sim! Alguém queria saber como eu estava. Uma enfermeira de branco e sorriso triste. Mais triste que a minha vida e fez-me tão feliz a ver. Ver alguém que respirava e que não era Deus.
Perguntou-me como me sentia e o meu sorriso banhado em lágrimas respondeu-lhe: “Sinto-me viva…”
E de facto estava. Viva como nunca estivera. Sozinha como sempre, mas sem sentir a solidão. Grata por estar viva. Grata por uma oportunidade de começar de novo. Os meus problemas continuavam a existir, mas já não importavam, porque não era suposto eu existir e, no entanto, ali estava eu, a gastar oxigénio e a ocupar uma cama e a usar gesso, apanhando o frio do ar condicionado e a ouvir o paciente do lado a tossir.
Tudo tão real e tão mais bonito que a minha antiga vida antes de saltar para a morte.
Saltar foi o que fez estar viva agora e saltaria novamente se voltasse atrás e estivesse de volta ao ante-salto, se estivesse novamente morta, saltaria para a vida saltando de encontro da morte.
Meus amigos me visitaram naquele hospital. Todos estupefactos com a minha súbdita mudança. Eu ria, eu ria e sorria e abraçava toda a gente. Ignorava a dor física e mostrava o quanto me sentia bem por eles estarem ali e por eu estar ali e poder vê-los e senti-los e falar com eles.
Meus pais choraram ao me ver. De alegria, de culpa, de incompreensão e alivio por eu estar bem, tão bem. Abri os braços para os receber, mais um abraço aos que aqui iam ficar, que iam chorar a minha morte e culpar-se pelo que eu é que fiz, eu é que quis, eu é que deveria me sentir culpada por faze-los passar por tal coisa.
Compensei o meu acto de loucura com a minha felicidade súbita e a minha vida interior renascida em mim pelo tubo na garganta que me arranhava a faringe.
Na queda, uma costela perfurou-me um pulmão, parti alguns ossos e fiz umas feridas. Uma das quais tiveram de remover uma pedra com cirurgia. Remover a pedra que eu tinha na nuca, pouco a cima da testa e que felizmente não me causou nem morte, nem danos.
Sai do hospital como outra. Recusei a cadeira de rodas, pelo menos até ao carro. Queria voltar a andar, mostrar a todos que estava bem, viva e feliz. Caminhei até ao carro, com dores por todo o lado e o meu peito a arder numa dor maior, não só pelo meu coração acelerado em alegria como pelo pulmão ainda magoado.
Agora não imagino como seria não estar aqui. Faltar a tantos aniversários, tantos natais, tantas festas e tantas idas á praia ou ao centro-comercial. Não ir aos saldos é impensável. E como poderia o mundo ser o mesmo se eu não tivesse comprado aquele carro que é lindo como tudo ou se não tivesse abraçado os meus pais todos os dias desde aquele dia e dito a todos os meus amigos como os adoro?
De certo que o meu mundo seria muito diferente. De certo que todos os que adoro não seriam tão felizes como são com todo o amor e felicidade que tenho em mim e que lhes dedico. Ganhei uma força e uma vida no lugar vazio enorme que estava em mim quando me atirei. Penso que todo o ar que se atravessou no meu caminho na queda entrou em mim e me encheu de paz, de liberdade e de amor.
sábado, 5 de junho de 2010
O Salvador de Helena
...................
Salvador, um homem de quarenta anos, trabalhava numa loja de brinquedos e adorava crianças. Bom pai, bom marido, boa pessoa. No entanto, um destruidor.
Salvador nunca perde um aniversário dos filhos.
Salvador destrói sonhos de criança. Alimentava-se de sonhos e da inocência.
Uma menina que olha uma boneca na prateleira. A mãe puxa a menina, afinal ela já tem tantas bonecas. Mas Salvador não resiste a oferecer-lhe aquela boneca, sorrindo à mãe depois, como se tivesse feito uma boa acção e como que esperasse a sua aprovação. A mãe sorri de volta, estranhando o gesto, mas admirando a bondade que ainda resta no mundo. Logo se vê de onde a inocência da menina vem.
A menina feliz sai da loja e mete-se no carro.
Dai a três dias, a menina vê Salvador num banco distante da árvore em que passava os recreios de escola. Salvador está triste e isso deixa a menina triste… e curiosa. Ela aproxima-se e pergunta o que se passa com toda a ternura de criança que pode existir num beicinho triste e num olhar doce.
As mãos de salvador esfregam-se uma na outra. Tal como fazemos antes de comer a última fatia de bolo que está guardada no armário e que era para a nossa avó. Maldade? Sim! Mas a avó vive bem sem esse pedaço de bolo. Mas a menina não. A menina nunca se poderá esquecer daquela fatia de bolo. A menina não se pode esquecer da maldade. Mas a menina só quer fazer Salvador rir…
Salvador faz uma concha segura onde guarda as mãos da menina. A menina Helena. Que doce criança de porcelana. Que linda criança feita do mais delicioso bolo. Que delicadeza nas mãos indefesas.
Enfim… Já é tarde, e Helena, que ouvia o som das lágrimas de Salvador a cair na sua pele de louça abraçada em suas mãos, está agora a um passo do som de lágrimas a cair sobre pedra.
Salvador oferece-se para a levar a casa. Ele seria incapaz de deixar a indefesa Helena voltar para o infantário agora que todas as crianças estão ao molhe a correr para os braços dos pais. Pobre mãe que iria ver a filha a correr para os seus braços com o vestido rosa de folhos tal qual boneca para lhe sujar a camisa branca de trabalho. Não! Salvador não que aconteça tal triste cena. Diz à menina que sua mãe a espera em casa dele. Com leite e bolachas e quem sabe se mais uma boneca? Pois… Quem sabe?
Helena, menina esperta para a idade, larga um grande sorriso de entusiasmo e pergunta se a mãe a espera. Mas é claro que espera. A mãe dela está a sua espera. E nisso Salvador não iria mentir. Sua mãe a espera.
Por fim, chegam a sua casa. Realmente, que bonita boneca a esperava. Uma boneca bem grande, de caracóis loiros como os seus e bochechas rosada. Até os vestidos são parecidos. Helena fica encantada com tanta beleza e semelhança numa boneca. Foi como encontrar a sua gémea. Parte da sua família. Feita na mesma louça que a sua pele.
Sempre carinhoso, Salvador pergunta-lhe se ela quer brincar. Entusiasmada como só ela, grita logo que sim. Que miúda tão viva. E de vivacidade percebe Salvador. Que sempre gostou de crianças. Tão bom pai, tão bom marido…
Salvador propõe um jogo. Um jogo em que ela não pode perder. Um jogo para ganhar aquela boneca. Salvador garante que não tem mal nenhum jogar aquele jogo. Helena sabe que não. Ia lá o homem com quem a mãe tanto simpatizou e que com tanto carinho a trata jogar um jogo mau com ela? Claro que não! Helena estava segura com o seu amigo Salvador.
Salvador disse-lhe o que fazer e Helena não quis. Helena não achou piada ao jogo. Não queria jogar. Então Salvador irritou-se. E Helena chorando obedeceu e jogou.
Salvador pus a menina no colo e tocou-lhe. Tocou-lhe onde não se deve tocar numa menina e penetrou um dedo onde uma menina não deveria saber ser possível enfiar seja o que for. Helena chorava. Mas Salvador sussurrou-lhe que estava tudo bem. Para ela relaxar e perguntou-lhe se não sabia bem o que ele estava a fazer. Helena disse que não. Mas Salvador explicou-lhe que essa era a resposta errada e continuou a dar-lhe carinho. Voltou a perguntar e Helena acenou com a cabeça afirmativamente limpando uma lágrima num amuo de menina.
Com o mesmo carinho, Salvador, que sempre foi bom pai e todos na vila o sabiam e o admiravam por tal, Salvador pediu à menina que lhe abrisse a braguilha. Sorriu ao ver a delicadeza da menina a obedecer e a esforçar-se por abrir aquele pesado fecho. Claro que Salvador ajudou. Salvador sempre adorou ajudar. Especialmente as crianças. E quem não o admirava por tanto carinho para com as crianças?
Mas ali estava ele. A ensinar coisas que não devem ser ensinadas e a fazer coisas que não devem ser feitas e apesar de parecer tudo tão errado a Helena, aquele era o homem que a mãe tanto simpatizava e não podia ser mau.
Depois de aberta a braguilha, foi exposto o brinquedo que ele queria oferecer a Helena. Ela não queria brincar mais. Aquele brinquedo era feio e não queria brincar. Salvador, sempre paciente, admirado pela paciência, sempre lhe disseram que devia ser professor. Lá Salvador esteve a explicar a Helena que não havia maldade no que eles estavam a fazer. Mas que para ela voltar a ver a mãe tinha de brincar.
Helena ficou triste, mas decidiu obedecer. Fez o que Salvador pediu e fingiu que aquele brinquedo era um gelado. Um gelado com um sabor horrível, mas que ela tinha de fingir gostar. Teve de lamber o gelado de cima a baixo. Depois salvador enfiou-o goela abaixo, afinal as crianças têm de comer tudo até ao fim, e ainda bateu-lhe na cabeça para a comida não ficar entalada na garganta.
Claro que Helena não gostou. Habituais birra de criança a que Salvador já estava habituado. Gritou com ela para que parasse de chorar e continua-se senão nunca mais iria ver a sua mãe.
Entre lágrimas e soluços, Helena continuou. Só pensava em abraçar a mãe e poder chorar no seu colo. Em vez disso estava a jogar um jogo contra a sua vontade.
Salvador gemia, seus aplausos por ela jogar tal qual como ele queria. Não julguemos Salvador como mau. Ele perguntou a Helena se estava cansada desse jogo. Ela acenou que sim. Ele pegou nela ao colo e deu-lhe um carinho no cabelo. Perguntou-lhe se ela gostava de carinho. Ela enroscou a sua cabeça no colo dele, como que pedindo que ele não a obrigasse a fazer mais nada. E ele deixou-a descansada.
Helena, eu estou aqui para cuidar de ti. Eu gosto muito de ti, minha linda. Vou dar-te muito carinho e estás segura aqui.
Helena que se sentia tão desprotegida abraçou-o ao sentir que já estava tudo bem.
Salvador ficou encantado com a ternura dela e deu-lhe mais carinho. Voltou a descer a mão para sítios que não devia e enquanto lhe dizia coisas com amor e carinho ao ouvido tocava-lhe como se de um mimo vulgar se trata-se.
A menina já estava mais calma apesar de assustada. Com as palavras carinhosas e com os mimos que ele fazia parecerem normais ele avançou um pouco mais. Despiu o vestido da menina, dizendo-lhe que era para a boneca, pois a boneca ia ficar tão linda com aquele vestido. Helena não se atreveu a negar. E ainda lhe despiu as cuecas, claro que Helena não ousou contrariar.
Posteriormente a estar despida, salvador cuspiu para a sua mão e esfregou-a na pureza da menina. Esfregou e até lambeu. Tudo como carinho normal. Depois levou a menina a sentar-se de pernas abertas sobre si. Ela chorou um bocadinho. No entanto, Salvador a abraçou e cuidou dela. Sossegou a menina e fê-la mover-se para seu próprio prazer.
Uma menina de cinco anos a mover-se para prazer de um homem de quarenta. Ele a tocar onde bem entendia e ela a chorar pela mãe. Como queria ela agora a mãe. Como aquela boneca lhe parecia insignificante. Tudo o que Helena queria era sentir-se segura no colo da mãe e poder chorar sem que se zangassem.
O terror ainda não tinha terminado, o inocente jogo ainda estava a decorrer. Terminando dentro da menina e rasgando-se o falso silêncio com um gemido final do grande homem que tanta admiração merecia.
Claro que foi Salvador que encontrou a menina na ribeira a morrer afogada. Salvador a salvou de morrer afogada e a levou ao hospital com sinais de abuso apagados os vestígios do seu abusador na água. Que canalha teria feita tal maldade a uma criança tão linda? Ainda bem que Salvador apareceu para a salvar. Que grande homem. Que homem bom.
A mãe de Helena abraçou-a com tanta força quanto pôde, chorando as mesmas lágrimas que a filha. Mas a filha sabia porque chorava e a mãe chorava na alegria de a ter de volta. Julgava-a morta. Levada por algum pedófilo para nunca mais voltar. Aquela mãe agradecida abraçou o salvador de sua filha. Abraçou-o com enorme gratidão.
Aquele grande homem, aquele herói que sempre foi bom pai e bom marido estava na sua presença e ela não podia estar mais agradecida.
Salvador negou qualquer louro por ter salvo tão inocente criança saindo depois de um carinhoso beijo na cabeça da menina que estava muda do trauma entre lágrimas e soluços interrompidos por dor física e magoa de violência calada em gritos de dor na sua mente.
Helena nunca contou nada á mãe. Pois se conta-se Salvador iria buscá-la e matá-la. Foi o que ele lhe disse, e ela só podia acreditar. Nunca Helena quis ir outra vez comprar brinquedos. Chorava só pela mãe mencionar o nome de Salvador. A agradecida mãe julgava a filha traumatizada pelo ocorrido, não queria nem ver seu Salvador para não se lembrar o que o padeiro lhe fizera. Pois só podia ter sido o padeiro. Aquele homem horrível. Nunca gostou de crianças. Gritava com toda a gente. Um arrogante, um mal-educado. Um cobarde que desapareceu depois desse dia.
Ai… Como se lamentava na vila que não houvessem mais bons homens como o Salvador da loja de brinquedos.

Salvador, um homem de quarenta anos, trabalhava numa loja de brinquedos e adorava crianças. Bom pai, bom marido, boa pessoa. No entanto, um destruidor.
Salvador nunca perde um aniversário dos filhos.
Salvador destrói sonhos de criança. Alimentava-se de sonhos e da inocência.
Uma menina que olha uma boneca na prateleira. A mãe puxa a menina, afinal ela já tem tantas bonecas. Mas Salvador não resiste a oferecer-lhe aquela boneca, sorrindo à mãe depois, como se tivesse feito uma boa acção e como que esperasse a sua aprovação. A mãe sorri de volta, estranhando o gesto, mas admirando a bondade que ainda resta no mundo. Logo se vê de onde a inocência da menina vem.
A menina feliz sai da loja e mete-se no carro.
Dai a três dias, a menina vê Salvador num banco distante da árvore em que passava os recreios de escola. Salvador está triste e isso deixa a menina triste… e curiosa. Ela aproxima-se e pergunta o que se passa com toda a ternura de criança que pode existir num beicinho triste e num olhar doce.
As mãos de salvador esfregam-se uma na outra. Tal como fazemos antes de comer a última fatia de bolo que está guardada no armário e que era para a nossa avó. Maldade? Sim! Mas a avó vive bem sem esse pedaço de bolo. Mas a menina não. A menina nunca se poderá esquecer daquela fatia de bolo. A menina não se pode esquecer da maldade. Mas a menina só quer fazer Salvador rir…
Salvador faz uma concha segura onde guarda as mãos da menina. A menina Helena. Que doce criança de porcelana. Que linda criança feita do mais delicioso bolo. Que delicadeza nas mãos indefesas.
Enfim… Já é tarde, e Helena, que ouvia o som das lágrimas de Salvador a cair na sua pele de louça abraçada em suas mãos, está agora a um passo do som de lágrimas a cair sobre pedra.
Salvador oferece-se para a levar a casa. Ele seria incapaz de deixar a indefesa Helena voltar para o infantário agora que todas as crianças estão ao molhe a correr para os braços dos pais. Pobre mãe que iria ver a filha a correr para os seus braços com o vestido rosa de folhos tal qual boneca para lhe sujar a camisa branca de trabalho. Não! Salvador não que aconteça tal triste cena. Diz à menina que sua mãe a espera em casa dele. Com leite e bolachas e quem sabe se mais uma boneca? Pois… Quem sabe?
Helena, menina esperta para a idade, larga um grande sorriso de entusiasmo e pergunta se a mãe a espera. Mas é claro que espera. A mãe dela está a sua espera. E nisso Salvador não iria mentir. Sua mãe a espera.
Por fim, chegam a sua casa. Realmente, que bonita boneca a esperava. Uma boneca bem grande, de caracóis loiros como os seus e bochechas rosada. Até os vestidos são parecidos. Helena fica encantada com tanta beleza e semelhança numa boneca. Foi como encontrar a sua gémea. Parte da sua família. Feita na mesma louça que a sua pele.
Sempre carinhoso, Salvador pergunta-lhe se ela quer brincar. Entusiasmada como só ela, grita logo que sim. Que miúda tão viva. E de vivacidade percebe Salvador. Que sempre gostou de crianças. Tão bom pai, tão bom marido…
Salvador propõe um jogo. Um jogo em que ela não pode perder. Um jogo para ganhar aquela boneca. Salvador garante que não tem mal nenhum jogar aquele jogo. Helena sabe que não. Ia lá o homem com quem a mãe tanto simpatizou e que com tanto carinho a trata jogar um jogo mau com ela? Claro que não! Helena estava segura com o seu amigo Salvador.
Salvador disse-lhe o que fazer e Helena não quis. Helena não achou piada ao jogo. Não queria jogar. Então Salvador irritou-se. E Helena chorando obedeceu e jogou.
Salvador pus a menina no colo e tocou-lhe. Tocou-lhe onde não se deve tocar numa menina e penetrou um dedo onde uma menina não deveria saber ser possível enfiar seja o que for. Helena chorava. Mas Salvador sussurrou-lhe que estava tudo bem. Para ela relaxar e perguntou-lhe se não sabia bem o que ele estava a fazer. Helena disse que não. Mas Salvador explicou-lhe que essa era a resposta errada e continuou a dar-lhe carinho. Voltou a perguntar e Helena acenou com a cabeça afirmativamente limpando uma lágrima num amuo de menina.
Com o mesmo carinho, Salvador, que sempre foi bom pai e todos na vila o sabiam e o admiravam por tal, Salvador pediu à menina que lhe abrisse a braguilha. Sorriu ao ver a delicadeza da menina a obedecer e a esforçar-se por abrir aquele pesado fecho. Claro que Salvador ajudou. Salvador sempre adorou ajudar. Especialmente as crianças. E quem não o admirava por tanto carinho para com as crianças?
Mas ali estava ele. A ensinar coisas que não devem ser ensinadas e a fazer coisas que não devem ser feitas e apesar de parecer tudo tão errado a Helena, aquele era o homem que a mãe tanto simpatizava e não podia ser mau.
Depois de aberta a braguilha, foi exposto o brinquedo que ele queria oferecer a Helena. Ela não queria brincar mais. Aquele brinquedo era feio e não queria brincar. Salvador, sempre paciente, admirado pela paciência, sempre lhe disseram que devia ser professor. Lá Salvador esteve a explicar a Helena que não havia maldade no que eles estavam a fazer. Mas que para ela voltar a ver a mãe tinha de brincar.
Helena ficou triste, mas decidiu obedecer. Fez o que Salvador pediu e fingiu que aquele brinquedo era um gelado. Um gelado com um sabor horrível, mas que ela tinha de fingir gostar. Teve de lamber o gelado de cima a baixo. Depois salvador enfiou-o goela abaixo, afinal as crianças têm de comer tudo até ao fim, e ainda bateu-lhe na cabeça para a comida não ficar entalada na garganta.
Claro que Helena não gostou. Habituais birra de criança a que Salvador já estava habituado. Gritou com ela para que parasse de chorar e continua-se senão nunca mais iria ver a sua mãe.
Entre lágrimas e soluços, Helena continuou. Só pensava em abraçar a mãe e poder chorar no seu colo. Em vez disso estava a jogar um jogo contra a sua vontade.
Salvador gemia, seus aplausos por ela jogar tal qual como ele queria. Não julguemos Salvador como mau. Ele perguntou a Helena se estava cansada desse jogo. Ela acenou que sim. Ele pegou nela ao colo e deu-lhe um carinho no cabelo. Perguntou-lhe se ela gostava de carinho. Ela enroscou a sua cabeça no colo dele, como que pedindo que ele não a obrigasse a fazer mais nada. E ele deixou-a descansada.
Helena, eu estou aqui para cuidar de ti. Eu gosto muito de ti, minha linda. Vou dar-te muito carinho e estás segura aqui.
Helena que se sentia tão desprotegida abraçou-o ao sentir que já estava tudo bem.
Salvador ficou encantado com a ternura dela e deu-lhe mais carinho. Voltou a descer a mão para sítios que não devia e enquanto lhe dizia coisas com amor e carinho ao ouvido tocava-lhe como se de um mimo vulgar se trata-se.
A menina já estava mais calma apesar de assustada. Com as palavras carinhosas e com os mimos que ele fazia parecerem normais ele avançou um pouco mais. Despiu o vestido da menina, dizendo-lhe que era para a boneca, pois a boneca ia ficar tão linda com aquele vestido. Helena não se atreveu a negar. E ainda lhe despiu as cuecas, claro que Helena não ousou contrariar.
Posteriormente a estar despida, salvador cuspiu para a sua mão e esfregou-a na pureza da menina. Esfregou e até lambeu. Tudo como carinho normal. Depois levou a menina a sentar-se de pernas abertas sobre si. Ela chorou um bocadinho. No entanto, Salvador a abraçou e cuidou dela. Sossegou a menina e fê-la mover-se para seu próprio prazer.
Uma menina de cinco anos a mover-se para prazer de um homem de quarenta. Ele a tocar onde bem entendia e ela a chorar pela mãe. Como queria ela agora a mãe. Como aquela boneca lhe parecia insignificante. Tudo o que Helena queria era sentir-se segura no colo da mãe e poder chorar sem que se zangassem.
O terror ainda não tinha terminado, o inocente jogo ainda estava a decorrer. Terminando dentro da menina e rasgando-se o falso silêncio com um gemido final do grande homem que tanta admiração merecia.
Claro que foi Salvador que encontrou a menina na ribeira a morrer afogada. Salvador a salvou de morrer afogada e a levou ao hospital com sinais de abuso apagados os vestígios do seu abusador na água. Que canalha teria feita tal maldade a uma criança tão linda? Ainda bem que Salvador apareceu para a salvar. Que grande homem. Que homem bom.
A mãe de Helena abraçou-a com tanta força quanto pôde, chorando as mesmas lágrimas que a filha. Mas a filha sabia porque chorava e a mãe chorava na alegria de a ter de volta. Julgava-a morta. Levada por algum pedófilo para nunca mais voltar. Aquela mãe agradecida abraçou o salvador de sua filha. Abraçou-o com enorme gratidão.
Aquele grande homem, aquele herói que sempre foi bom pai e bom marido estava na sua presença e ela não podia estar mais agradecida.
Salvador negou qualquer louro por ter salvo tão inocente criança saindo depois de um carinhoso beijo na cabeça da menina que estava muda do trauma entre lágrimas e soluços interrompidos por dor física e magoa de violência calada em gritos de dor na sua mente.
Helena nunca contou nada á mãe. Pois se conta-se Salvador iria buscá-la e matá-la. Foi o que ele lhe disse, e ela só podia acreditar. Nunca Helena quis ir outra vez comprar brinquedos. Chorava só pela mãe mencionar o nome de Salvador. A agradecida mãe julgava a filha traumatizada pelo ocorrido, não queria nem ver seu Salvador para não se lembrar o que o padeiro lhe fizera. Pois só podia ter sido o padeiro. Aquele homem horrível. Nunca gostou de crianças. Gritava com toda a gente. Um arrogante, um mal-educado. Um cobarde que desapareceu depois desse dia.
Ai… Como se lamentava na vila que não houvessem mais bons homens como o Salvador da loja de brinquedos.
sábado, 8 de maio de 2010
Me confesso: Soube e Nada Fiz
.....................
................
Imagina se a tua irmã, prima, amiga ou até mesmo a tua mãe era violada. Difícil e até horrível de imaginar. Saberes que já aconteceu, ainda pior. Saberes que neste momento pode estar a acontecer à irmã, prima amiga ou mãe de alguém… Horrível…
No entanto, pela tua irmã, pela tua prima, pela tua amiga e pela tua mãe, por todas as mulheres, crianças e afins, lê essa confissão real.
Talvez ao imaginares essa história com uma conhecida tua possas compreender a gravidade, a dor.
Essa história é real, mas será narrada por mim:
“Sou um aspirante a padre e esta história aconteceu, ou melhor, tomei conhecimento dessa história quando estava a tirar a carta.
Decidi ir dar uma volta de carro e ao passar pela praia vi uma rapariga que me chamou a atenção pelo seu estado lastimável. Estacionei e fui falar com ela. Fiquei chocado com o que ouvi daquela voz ferida de gritos e segui os seus gestos de desespero manchados de sangue. Sim! Sangue! Estava suja do seu próprio sangue.
A sua voz fraca me confessou o que agora te confesso. Ela, iludida por amor, iludida por um rapaz que conheceu no MSN, veio do Brasil em busca de amor. Ele foi buscá-la ao aeroporto com um sorriso e levou-a de carro até à praia em questão. Seguidos por um outro carro todo o percurso. Sai do carro três rapazes, conhecidos do sacana que a fez viajar.
A praia, um sítio tão romântico, sítio onde ela foi espancada e violada por quatro rapazes. Um deles que a levou a viajar em busca de amor, de romance…
Levei-a de volta ao aeroporto, nunca mais soube nada dela. O que sucede é que nunca esquecerei o seu abraço desesperado em lágrimas e soluços, uma dor tão forte que me doeu.”
.......................
......................
Imaginem a dor, imaginem a agonia, imaginem a desilusão.
Ele que a iludiu com palavras doces e conversas apaixonadas foi o primeiro a servir-se do seu corpo. Ele que lhe jurou amor, foi o primeiro a lhe bater. Agarrou-a não para um beijo apaixonado mas para lhe rasgar as roupas e usá-la como um objecto.
A tua irmã foi violada, iludida com amor, desiludida com a dor.
Sem poder fugir, sem poder gritar, sem poder se mexer.
Agonia, dor, gritos, larga-me, deixa-me, não me faças mal, não a larguem, segurem-na, é a minha vez, cala-te puta, gemem e sentem prazer, não param, não se casam, não um, quatro, à vez, até não aguentarem mais, até doer, mas doer já dói, mas ainda faltam três e repetem e divertem-se e brincam e gozam e se vêm e ela só chora só tenta se soltar, só chora, só tenta gritar, só chora e sente dor e dor e dor, desespero, agonia e soa-lhe tudo a pesadelo, a inacreditável, a irreal.
Lágrimas, sangue, memórias, feridas, ódio, raiva sujidade que não se lava, nojo que não se esquece, pesadelo que não se apaga, criança que não devia ter sido feita.
Fruto do pecado, do crime, da memória, da desilusão. Eterna lembrança que anda e corre e brinca e sorri e de nada sabe sobre as lágrimas secretas da mãe a cada abraço do filho, na lembrança viva do dia em que foi feito, na lembrança viva de quatro pais e sem nenhum. Uma mãe, uma castigada, uma condenada a amar a sua magoa, condenada a reviver o que não era suposto acontecer, uma mal amada, uma iludida.
Os rapazes?! Para eles foi uma experiência, deram aquela puta uma lição.
Para ela?! Dor sem fim. Impossibilidade de amar e de confiar. Trauma para a vida. Um filho, um desgosto, o fim, a morte da sua alegria, da sua esperança, da sua inocência, deu origem ao inocente filho que tem. O único. O filho que castiga por não saber amar, o filho que bate por lembrar, o filho que não queria ter, que quer amar e não consegue, o filho que sofre por não ser amado e os rapazes que estão exactamente como estavam antes de tudo ter acontecido.
................Imagina se a tua irmã, prima, amiga ou até mesmo a tua mãe era violada. Difícil e até horrível de imaginar. Saberes que já aconteceu, ainda pior. Saberes que neste momento pode estar a acontecer à irmã, prima amiga ou mãe de alguém… Horrível…
No entanto, pela tua irmã, pela tua prima, pela tua amiga e pela tua mãe, por todas as mulheres, crianças e afins, lê essa confissão real.
Talvez ao imaginares essa história com uma conhecida tua possas compreender a gravidade, a dor.
Essa história é real, mas será narrada por mim:
“Sou um aspirante a padre e esta história aconteceu, ou melhor, tomei conhecimento dessa história quando estava a tirar a carta.
Decidi ir dar uma volta de carro e ao passar pela praia vi uma rapariga que me chamou a atenção pelo seu estado lastimável. Estacionei e fui falar com ela. Fiquei chocado com o que ouvi daquela voz ferida de gritos e segui os seus gestos de desespero manchados de sangue. Sim! Sangue! Estava suja do seu próprio sangue.
A sua voz fraca me confessou o que agora te confesso. Ela, iludida por amor, iludida por um rapaz que conheceu no MSN, veio do Brasil em busca de amor. Ele foi buscá-la ao aeroporto com um sorriso e levou-a de carro até à praia em questão. Seguidos por um outro carro todo o percurso. Sai do carro três rapazes, conhecidos do sacana que a fez viajar.
A praia, um sítio tão romântico, sítio onde ela foi espancada e violada por quatro rapazes. Um deles que a levou a viajar em busca de amor, de romance…
Levei-a de volta ao aeroporto, nunca mais soube nada dela. O que sucede é que nunca esquecerei o seu abraço desesperado em lágrimas e soluços, uma dor tão forte que me doeu.”
.......................
......................Imaginem a dor, imaginem a agonia, imaginem a desilusão.
Ele que a iludiu com palavras doces e conversas apaixonadas foi o primeiro a servir-se do seu corpo. Ele que lhe jurou amor, foi o primeiro a lhe bater. Agarrou-a não para um beijo apaixonado mas para lhe rasgar as roupas e usá-la como um objecto.
A tua irmã foi violada, iludida com amor, desiludida com a dor.
Sem poder fugir, sem poder gritar, sem poder se mexer.
Agonia, dor, gritos, larga-me, deixa-me, não me faças mal, não a larguem, segurem-na, é a minha vez, cala-te puta, gemem e sentem prazer, não param, não se casam, não um, quatro, à vez, até não aguentarem mais, até doer, mas doer já dói, mas ainda faltam três e repetem e divertem-se e brincam e gozam e se vêm e ela só chora só tenta se soltar, só chora, só tenta gritar, só chora e sente dor e dor e dor, desespero, agonia e soa-lhe tudo a pesadelo, a inacreditável, a irreal.
Lágrimas, sangue, memórias, feridas, ódio, raiva sujidade que não se lava, nojo que não se esquece, pesadelo que não se apaga, criança que não devia ter sido feita.
Fruto do pecado, do crime, da memória, da desilusão. Eterna lembrança que anda e corre e brinca e sorri e de nada sabe sobre as lágrimas secretas da mãe a cada abraço do filho, na lembrança viva do dia em que foi feito, na lembrança viva de quatro pais e sem nenhum. Uma mãe, uma castigada, uma condenada a amar a sua magoa, condenada a reviver o que não era suposto acontecer, uma mal amada, uma iludida.
Os rapazes?! Para eles foi uma experiência, deram aquela puta uma lição.
Para ela?! Dor sem fim. Impossibilidade de amar e de confiar. Trauma para a vida. Um filho, um desgosto, o fim, a morte da sua alegria, da sua esperança, da sua inocência, deu origem ao inocente filho que tem. O único. O filho que castiga por não saber amar, o filho que bate por lembrar, o filho que não queria ter, que quer amar e não consegue, o filho que sofre por não ser amado e os rapazes que estão exactamente como estavam antes de tudo ter acontecido.
sábado, 24 de abril de 2010
Vícios

Vícios: tabaco, álcool, cocaína, etc. São exemplos de vícios químicos. Vícios em que o corpo exige e a mente cede. No entanto, existem vícios piores que os químicos. Existem vícios psicológicos. Em que só a mente exige, necessita e faz o corpo pedir algo que de facto não precisa.
Talvez chama-los de piores não seja correcto. Mas um facto é que são mais difíceis de sair, mais viciantes. Passo a explicar: Um alcoólico está viciado no álcool, como é óbvio, está viciado nesses “escape”. A cura não é fácil, é certo. O corpo ressente-se na ausência do álcool. Mas é possível.
Agora imaginem alguém que é viciado, por exemplo, em roubar. Sim! Um cleptomaníaco. Ele está viciado nesse estímulo. Um estímulo que lhe proporciona prazer, satisfação e posteriormente remorso e culpa. Apesar dos sentimentos negativos posteriores volta a roubar porque o prazer que sente é muito satisfatório e está viciado nesse estímulo. Muitos de vocês podem não saber, mas a cleptomania não tem cura, ao contrário do alcoólico, o cleptomaníaco tem de lutar para o resto da vida contra o seu vício, que nesse caso, é uma doença. Mas todo o vício é doença, porque é dependência, compulsão.
Quem fala do cleptomaníaco fala de outros. Os jogadores compulsivos, os auto-manipuladores, os compradores compulsivos, os viciados em sexo… e toda uma data de compulsões são vícios difíceis de largar.
Um estudo concluiu que um viciado em jogos tem poucas probabilidades de vir a conseguir jogar um jogo virtual sem se voltar a viciar. Um auto-mutilador terá sempre a vontade de se cortar a qualquer problema. Enfim… à sempre o risco de voltar a cair em vício.

Alguns devem estar a pensar. “Eu jogo e não estou viciado!”; “Eu tenho um fascínio por facas e não me corto com elas!”; “Eu adoro comprar”; “Eu já roubei uma borracha…”; “Eu não vivo sem chocolate!” ... E já chega. - Fiquei chocada com essa. Que horror, que raio de pessoa perversa rouba uma borracha? É que sinceramente…
Eu percebo porque estão a pensar em vocês e no que já fizeram e todas as dúvidas e incertezas. A questão é que um vício só o é quando não fazer, não ceder ao que queremos porque nos está a prejudicar e essa abstinência gera ansiedade, irritabilidade, angústia, insegurança e toda uma série de sentimentos semelhantes, ai sim, estás viciado.
Um viciado quer alimentar o seu vício, quer ceder e fazê-lo e só admite que está viciado quando já existem danos na sua vida. Quando tem dificuldades em se concentrar, fica ansioso quando não o faz, só quer fazer aquilo e pronto. Afinal, que tem de mal? Não é droga, certo?
Pois, não é droga, mas é um vício. E um vício é uma coisa má, não achas?
Primeiramente, devo dizer que existem muitas ideias erradas do conceito “vício”. Há pessoas que fumam lá de vez em quando e não estão viciadas. Existem pessoas que podem fumar um pouco mais e já são. Um vício é a necessidade e não só a vontade. Não é o apetece, é o preciso. É a forma de “resolver ” os problemas, porque é o caminho mais fácil.
Se adoras fazer compras, mas compras coisas que não usas e passas a vida a ir trocar coisas porque mal olhaste para aquilo que compraste ou porque só compraste porque estavas mal, e se isso é recorrente, então precisas de ajuda, porque tens um problema.
Agora, se só gostas de ir ás compras porque vez coisas giras e compras algumas coisas giras. Então tudo bem.
Pronto, espero que por essa altura já tenha conseguido explicar o que é realmente um vicio.
Já agora, se és um viciado em chocolate, não sejas egoísta, partilha. Eu adoro chocolate. Não precisas de comer todo o chocolate do mundo, ok?
Passando ao particular. Existem estereótipos de pessoas viciadas.
São pessoas que já experienciaram alguma situação traumatizante, em muitos casos, e refugiam-se em vícios, também porque não são lá muito boas a lidar com os seus sentimentos e emoções.

O viciado tem como estereotipo ser uma pessoa ansiosa, setressada, com vergonha e remorso em relação ao seu vício e há a presença de um “vazio” que é preenchido pelo vício. Procuram compensar uma carência emocional que podem nem ter consciência que têm.
São pessoas inseguras, mesmo que possam aparentar confiança. Recorrendo ao vício para superar essa insegurança e problemas de auto-estima, afectividade e insatisfação.
Por isso se ficares insatisfeito com esse artigo vai-te tratar. Ora, nunca estás feliz com nada, também… Chatice.
Um viciado não tolera bem as frustrações e desilusões. É impaciente e idealista. Sonhando alto, com metas difíceis ou mesmo impossíveis de alcançar, tendo fracassos inevitáveis por esse motivo.
A já muito referida ansiedade é uma imagem de marca de um viciado. Em todos artigos que li e conhecimentos que adquiri sei que a ansiedade é uma coisa inevitável num vicio. Mas fala-se de uma ansiedade exagerada e não a ansiedade normal vivenciada por todos.
Essa ansiedade leva a uma impulsividade que pode levar a uma coisa do género lutar ou fugir, pode-se dizer que é uma ansiedade flutuante.
São pessoas com medos e temores. Todos temos, mas pronto… Vamos dizer que são só os viciados para não estarmos a nos ofender, ok?
Bom… Essas pessoas alimentam uma imagem. Deixam passar algo que na verdade não são para reprimir a sua baixa auto-estima e sensação de inutilidade.
Um viciado, que é mesmo viciado e que se consola a ser viciado. Porque há pessoas que até adoram os seus vícios. Adoram que as suas vidas estejam destruídas e que estejam dependentes de algo. Essas pessoas não conseguem manter amizades duradouras e sentem-se muito sós.
Realmente devem adorar os seus vícios…
São sensíveis ao ponto de guardarem rancor, um rancor inevitável a eles. E dependem de alguém. A carência é que os leva a serem dependentes. Não concordo plenamente com isso, mas sim, segundos os psicólogos são dependentes. Não é totalmente descabido.
Bom… também são estranhos, impacientes, arrogantes ou irritados.
Não só de traços de personalidade se identifica um viciado. Se tu és viciado ou conheces algum, sabes disso.
Já agora, não te vicies em coisas estúpidas. Oh! Espera! Os vícios são estúpidos. Tu não és estúpido mas os vícios sim!
Voltando ao tema: Também dos comportamentos se pode identificar um viciado.
Os comportamentos de um viciado caracterizam-se por: escolhas impulsivas; uma constante procura de excitação e novas sensações; sentem-se alienados da sociedade; valorizam comportamentos desviantes ou não-conformistas (são mesmo uns insatisfeitos, caramba!); falta de paciência.
E não tenho paciência para dizer mais nada. Caramba, és mesmo tão chato sempre a ler. Pára de ler e vai-te drogar. Desde que não me chateies. Seja como for não dás valor ao que faço (Brinco).
Alguns vícios podem estar associados a transtornos de personalidade. Claro que isso não se trata de uma regra mas de algo que tem alguma tendência a acontecer.
O certo é que as pessoas não gostam de ser confrontadas com os seus vícios. “Tas viciado, meu!” ; “Vê lá se não queres que te parta a cara…”; (Reagem de forma defensiva ou com raiva).
Enquanto uns comportam-se de forma imprudente, estando deprimidos ou tomar más decisões, outros podem conseguir gerir muito bem as suas vidas.

Nota importante: Uma pessoa pode ter traços da personalidade de um viciado e não sê-lo. Nem significa que possa vir a ser. São apenas características que são um sinal de alerta, mas que não são tudo.
O que acho importante disso é que se alguém se identificar com o que leu e acha que realmente tem um problema tente superá-lo e que de facto consiga. Eu acredito num mundo melhor. Vive nesse mundo.
sábado, 17 de abril de 2010
Porque é Azul o Céu?
..................
............. ..
No meio de imensidão de cores e diversidade de tons, porque é azul o céu?
Um eterno de profundo e infinito azul, interrompido pela luz das estrelas, dos cometas, das galáxias e sabe-se lá que mais.
Azul…Azul claro, escuro, com tons de cinza. Ás vezes laranja, por segundos ao por do Sol verde, na aurora, das mais belas e diversas cores. Porquê azul? Porque respondes que é azul o céu se te perguntarem? Porque te entregas ao mais comum e não te entregas e delicias com o mais raro e menos frequente?
Azul… Sim! É azul! Mas porquê? E se é azul porque não o está sempre? Porque muda ou porque tem esse tom ou lhe foi dado?
Se do Sol vêm todas as cores, vemos o Sol dourado porquê? Não é estranho o Sol não ser azul?! Se não é, então é estranho que o céu não seja dourado?!
Será do mar? Será que o céu se fez azul pelo mar? Com tanto mar e tanto do seu azul não me espanta, mas porquê? Porque se faria o céu de azul e não de verde como a mais Bela paisagem ou vermelho para aumentar a beleza de uma rosa?
Talvez não seja pela beleza. Será porquê então? Falta de opção não foi na certa! Ou talvez seja… Não! Se assim fosse seria dourado e não azul.
O próprio mar rouba verde à castanha terra para ter mais cor. Tal como o céu também dizes que mar é azul. Azul?! O mar tem tantas cores. Corais, peixes, bichos tais e sabe-se lá que mais.
Não entendo essas cores. Não entendo a existência de tanto azul para tanto verde.
Céu azul, mar também e verde toda a vegetação. Toda não. Mas se te perguntar, verde dirás. No entanto, com tanto azul nunca vi bicho feito dessa cor. Então… Porquê azul?
Ai que me zango. Até a minha aura está azul, a felicidade é representada por azul e tanto olho azul é considerado o mais belo olho com a mais bela cor. Ora… como se pode admirar uma cor tão vista?
Escrevo a caneta azul, sobre linhas azuis e sobre o azul. Ah! E a encadernação do caderno é azul.
Bolas que perseguição ou obsessão tem o mundo por essa cor!
O que há de vermelho? Flores.
O que há de amarelo? Flores.
O que há de verde? Folhas.
A natureza que se estende pela terra banha-se na diversidade de cores e o céu limita-se a uma e achamo-la a mais bela cor apesar de a estarmos sempre a ver.
Termino agora de escrever sobre o azul hoje, belo dia de céu aberto… azul. Visto um casaco azul e calças também, questionando-me a mim e a ti, porque é azul o céu?
............. ..No meio de imensidão de cores e diversidade de tons, porque é azul o céu?
Um eterno de profundo e infinito azul, interrompido pela luz das estrelas, dos cometas, das galáxias e sabe-se lá que mais.
Azul…Azul claro, escuro, com tons de cinza. Ás vezes laranja, por segundos ao por do Sol verde, na aurora, das mais belas e diversas cores. Porquê azul? Porque respondes que é azul o céu se te perguntarem? Porque te entregas ao mais comum e não te entregas e delicias com o mais raro e menos frequente?
Azul… Sim! É azul! Mas porquê? E se é azul porque não o está sempre? Porque muda ou porque tem esse tom ou lhe foi dado?
Se do Sol vêm todas as cores, vemos o Sol dourado porquê? Não é estranho o Sol não ser azul?! Se não é, então é estranho que o céu não seja dourado?!
Será do mar? Será que o céu se fez azul pelo mar? Com tanto mar e tanto do seu azul não me espanta, mas porquê? Porque se faria o céu de azul e não de verde como a mais Bela paisagem ou vermelho para aumentar a beleza de uma rosa?
Talvez não seja pela beleza. Será porquê então? Falta de opção não foi na certa! Ou talvez seja… Não! Se assim fosse seria dourado e não azul.
O próprio mar rouba verde à castanha terra para ter mais cor. Tal como o céu também dizes que mar é azul. Azul?! O mar tem tantas cores. Corais, peixes, bichos tais e sabe-se lá que mais.
Não entendo essas cores. Não entendo a existência de tanto azul para tanto verde.
Céu azul, mar também e verde toda a vegetação. Toda não. Mas se te perguntar, verde dirás. No entanto, com tanto azul nunca vi bicho feito dessa cor. Então… Porquê azul?
Ai que me zango. Até a minha aura está azul, a felicidade é representada por azul e tanto olho azul é considerado o mais belo olho com a mais bela cor. Ora… como se pode admirar uma cor tão vista?
Escrevo a caneta azul, sobre linhas azuis e sobre o azul. Ah! E a encadernação do caderno é azul.
Bolas que perseguição ou obsessão tem o mundo por essa cor!
O que há de vermelho? Flores.
O que há de amarelo? Flores.
O que há de verde? Folhas.
A natureza que se estende pela terra banha-se na diversidade de cores e o céu limita-se a uma e achamo-la a mais bela cor apesar de a estarmos sempre a ver.
Termino agora de escrever sobre o azul hoje, belo dia de céu aberto… azul. Visto um casaco azul e calças também, questionando-me a mim e a ti, porque é azul o céu?
sábado, 10 de abril de 2010
A drogada

Ansiedade, desejo, ansiedade, pressa, ansiedade crescente, uma picada e …prazer. Prazer que corre pelas veias. Veneno que corre sem ter pernas e que mata sem ter armas, porém, é vida, sente-se vida a explodir sob a pele. Prazer total.
A miúda sem nome está drogada. A miúda sem vida está drogada. A puta está drogada. Aquele lixo está drogado. Mais uma drogada, que interessa? Interessa! Interessa sim! Ela é o lixo de alguém. Alguém que a deitou fora.
A miúda sem nome amou. Agora odeia.
A miúda teve uma vida feliz e contente. Era acarinhada e bem tratada. Sempre feliz e sorridente. Vivi-a para a família e amigos. A sem nome antes era Maria, agora não, agora não tem nome, não tem família, não tem amigos.
A miúda sem vida já respirou. Agora inala.
A miúda amou e foi amada. Foi amada. Lutadora derrotada. Uma miúda apaixonada. Uma drogada. Antes cheirava as sobremesas da sala, agora leva com os cheiros desagradáveis da rua na cara. Perdeu família. Desistiu de amigos.
A puta confiou. Agora não.
A puta inspirava harmonia. Harmonia que desvanecia, mas existia. A puta lutou, tentou, falhou. Gritos, socorros, desesperos. A puta tentou mas falhou. E só o cheiro a fumo restou do churrasco que ditou o começo.
O lixo não o era. Agora foi entregue ao destino.
O lixo confiou. O lixo se entregou no desespero confiando. O lixo foi traído. Mais gritos, força, um estalo ou dois, “cala-te”, “pára”, “não te mexas” e “não me faças isso”,” puta”,” por favor pára”. Tornada em lixo. Atirada para o contentor e levada para um caminho, o caminho que ditou o fim.
Entregue ao nada e sem nada, entregue à sombra e à ausência de luz, Maria perdeu o nome, pois perdeu importância, pois perdeu vida, pois perdeu esperança e perdeu-se no meio de tudo, perdeu-se no meio de nada e está perdida para sempre na sua triste e cheia mente, cheia de tudo e de nada, pois está drogada, morta. Morta está também sua família. Arde a droga na colher, arderam os seus no inferno. Suga a seringa a droga, injecta a drogada na veia. Corre o sangue, mata-lhe o sangue a cada batida do coração. Não! Não tem! Não tem salvação, encontrou solução. Morta está toda a família.
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Poema de Élio Branco
"Já não sou herege
Minha Nume
Sou teu libado na quimera
E tua homilia faz-me fraquear em anelo
Te locrarei a lacuna
E em deleito cotejo
Exsuda a Nume ficará
Tornaste-me adátilo com garras
Tornei-te lasciva utopia
Élio Branco"
Autora: Verónica Moscatel
Minha Nume
Sou teu libado na quimera
E tua homilia faz-me fraquear em anelo
Te locrarei a lacuna
E em deleito cotejo
Exsuda a Nume ficará
Tornaste-me adátilo com garras
Tornei-te lasciva utopia
Élio Branco"
Autora: Verónica Moscatel
Um Pouco Do meu Livro

Ultimamente tenho tido imensas ideias.
Uma publicidade para a Betadine: “A busca pela pele saudável”. Pois… É óbvio que foi inspirada na casa de banho. Quando estou lá acho que as minhas ideias são todas boas. Incluindo essa. Mas também fico com a ideia que sei cantar, por isso…
Também ando com ideias para comentar filmes. Como a estrutura, algumas piadas que não fazem rir, frases de marca ditas pelos autores feias como tudo. Mas como não ando muito atenta nos filmes, não convém.
Agora, o que vou realmente falar é sobre o meu livro.
Ando a escrever um livro desdo verão. É intitulado de Arco-Íris Sem Cor. Fala sobre um homem que perdeu a mãe e os amigos se afastaram dele e ficou sozinho. Ele interessa-se por uma rapariga que vê no café em que toma o pequeno-almoço e fica fascinado com a sua beleza invulgar, uma beleza real, triste e apagada. Nem ele percebe porquê, mas ela atrai-o.
Após vários dias ele atrevesse a ir falar com ela. Descobre então que ela é cega.
Passam a falar-se todas as manhãs e quando ela não aparece os dias dele ficam menos coloridos.
Lia começa a rir e a gostar de falar com Pedro. E quando a casa dele sofre um incêndio ele vai morar para casa de Miranda, uma amiga de liceu que está, na altura, ligada à empresa em que ele trabalha.
Miranda é uma mulher sedutora e torna a vida dele muito interessante. Fugosa e com um desejo imparável gasta muitas energias de Pedro. Esse, levanta-se muito cedo para ir ao café falar com Lia. Passando as noites com Miranda que lhe arrancava a roupa, e as manhãs com Lia que lhe desenhava um sorriso só por existir.
Isso tornou-se desgastante. E quando Pedro se cansou de ser um brinquedo para Miranda foi morar para a casa da Lia.
Graças a Pedro, Lia volta a ser uma artista. Antes pintora, agora cega e escultora. Criando imagem palpáveis e ainda mais belas.
Mas esse romance não termina aqui – nem eu ainda terminei o livro - . Algo acontece. Pedro perde Lia. E ele não pode culpar ninguém, senão a si.
Perdendo mais uma pessoa que amava, sente-se condenado á solidão. E a esperança vem de quem ele menos espera. Élio, o apaixonado de Lia, trá-la de volta.
Será ela a mesma? Ficaram juntos?
As perguntas são boas, as respostas é que não vão ser dadas nesse blog.
domingo, 21 de março de 2010
Crepúsculo

Olá!
Bem, hoje estou muito inspirada, estou mesmo com aquele vontade de escrever, de me entregar às letras e ao som das teclas. Assim sendo, decidi que estava na altura de finalmente dar a minha opinião sobre umas das obras mais lidas da actualidade. O romance que encantou, atrevo-me a dizer, milhões de mulheres e, surpreendentemente, até homens gostaram. Estou a falar do Crepúsculo.
Tenho de começar por dizer que estava muito entusiasmada com o livro o ano passado. Li o livro todo num dia. Comecei bem cedo, pelas seis da manhã, e terminei antes do meio dia. Não leio depressa ao contrário do que pensam. Leio sem parar, mal pestanejo para dizer a verdade.
Manifesto de antemão o meu desagrado com o final. Depois de ler as últimas palavras - linda frase - devo dizer, procurei por mais. Mas não. Não havia mais. Foi uma das desilusões.
Não tinha de facto grandes expectativas, estava só curiosa por descobrir o porquê de tantos fãs. Ao ler o livro não consegui perceber.
Durante o livro fiquei com a ideia que tinha sido uma miúda de quatorze anos. Mas deduzi que como é uma espécie de diário e a personagem é uma adolescente fosse suposto parecer isso.
Quanto ao facto de haver uma falta de originalidade muito grande não encontrei justificação. Sei que pode ser considerado um grande insulto, mas é um facto. Muitas das situações soaram-me terrivelmente familiares. E parece-me que a autora estava a escrever uma fantasia sua e não um livro, uma sem história com algum fundo, sem alguma intenção, sem compaixão.
Digo isso baseando-me entre muitas coisas, na situação de voyer do Edward. Ele vigiava-a a dormir e, posteriormente, dormiu agarradinho a ela. Sem dúvida que até é uma ideia agradável, um homem lindo agarradinho a nós. Imagino isso antes de adormecer, por isso digo que me soa a uma fantasia da autora. O que não tem mal nenhum. Mas percebo porque a personagem é tão… patética. Pronto, já disse. Também é só uma personagem.
Repara bem, a miúda é má a desporto, é insociável, estica o cabelo todos os dias e fica com ele liso o dia inteiro apesar de estar a viver num sítio tão húmido e chuvoso – que cabelo obediente – está sempre com uma cara séria e carrancuda, que era suposto afastar os rapazes por ser intimidador, afinal os adolescentes temem a rejeição, no entanto, a miúda até é concorrida. Rejeitou vários convites para o baile.
Se por um lado a personagem é patética, por outro até simpatizo com ela. Perto dela sinto-me mais confiante. Afinal acordo todos os dias estico a franja e poucas horas depois não se nota que a estiquei, devo viver numa ilha muito seca, hoje por acaso está a chover, outra vez.
Olha, sou má a desporto. Sou parecida à Bella. Mas não levo com uma bola em todas as aulas de educação física, é só às vezes.
Infelizmente até tenho amigos e estou sempre a rir. Por isso acho que não sou merecedora de um vampiro. Que chatice, vou ter de viver uma vida sem lenços e cachecóis.
Passando à frente. No quarto ou quinto livro, uma das bíblias, podemos encontrar a famosa noite de Edward e Bella. Pronto, foi a coisa que mais odiei. Várias páginas a descrever uma - desculpa a expressão - uma foda.
Ou eles demoraram muito ou a autora é virgem e sonhou com aquilo a vida toda.
Por favor… Uma noite que é suposto ser tão especial não devia ser assim violada. Escrever tantos detalhes torna-a vulgar, soou-me a um conto erótica foleiro.
Quando ela descreveu um orgasmo eu fiquei com cara de parva. É o tipo de coisa que não se descreve, vive-se. Como uma carícia deliciosa, basta dizer que foi maravilhosa, não a descrevemos como um arrepiar reconfortante que se expande pela pele. É desnecessário e estúpido.
Penso também que nessas situações tão importantes num livro, menos é mais. Dá a oportunidade ao leitor de despertar a sua imaginação e imaginar o que aconteceu de acordo com os seus ideais. A autora limitou essa possibilidade.
Acredito que a senhora agarrou-se ao que estudou, mas só isso não chega. Sim, acredito que seja licenciada em literatura inglesa. Mas também acredito que algumas pessoas deviam limitar-se a ler e admirar quem sabe escrever. No caso desta senhora, ela para ser uma boa escritora falta-lhe talento.
Surpreendeu-me o sucesso do livro. Mas depois de umas pesquisas sobre a mente humana, algumas coisas sobre literatura e consultando umas revistas construi a minha teoria.
O mundo está em crise, e durante o percurso da história, os vampiros nesses tempos ganham o interesse do leitor.
Os vampiros são possuidores de uma beleza assombrosa. De pele clara, olhos cintilantes e lábios encarnados, uma mistura de perigo e sedução. Eles são imortais e mostra-nos o quanto samos vulneráveis, damos assim mais valor à vida. Temos esse privilégio porque eles o permitem, nesse mundo de fantasia. Eles vivem na linha entre a inocência e a maldade. O amante protector e o assassino, o predador. O condenado, o eterno, o místico, o mistério, todo um fascínio em volta deles.
Numa coisa a autora foi extremamente inteligente, Edward é um predador, ele deseja o sangue de Bella, deseja-a como alimento. Mas não o faz. Ele controla-se por não a matar quando era tão mais fácil o fazer. Luta por resistir-lhe.
Admita-mos, até que é uma ideia interessante saber que só o nosso cheiro atrai uma dessas criaturas tão belas e fascinantes. Eles desejam-nos. “Homens” e “mulheres” de uma beleza assombrosa desejam-nos, que interessa se nos querem matar e sugar-nos o sangue?
Portanto Setephanie Meyer publicou a sua saga na altura certa. Ressuscitou uma versão moderno do Dracúla.
Não gostei foi de ela ter reinventado os vampiros. Mudar a mitologia. Não dormem?! Clãs?! Super poderes?! Não basta serem vampiros? Devem ter sido atingidos por material radioactivo, tal como o super homem. Não gostei disso. Os vampiros são um mito, fazem parte da mitologia, há pessoas que se dedicam ao estudo da mitologia e não acho bonito que ela se ache no direito de reinventar uma ideia que definitivamente não começou com ela.
Os gajos jogam basebol. Há mais alguma coisa para dizer? É uma ideia tão idiot… Sabes que mais? Nem me vou dar ao trabalho. Simplesmente não vou dizer mais nada sobre o livro a não ser: já li muito melhor.
[Não sou formada, por isso a minha crítica é do mais amador que há. Mas é a minha opinião, fria e crua.]
Minha Utopia

Dinheiro.
Todos o querem e alguns fazem tudo por ele.
O centro da vida de muitos.
Pode comprar de tudo, inclusive uma vida.
Como nos podemos rebaixar tanto ao ponto de termos preço?
A nossa hipocrisia é tanta que nos atrevemos a dar preço, vender e comprar o que não nos pertence.
Vendemos, compramos dá-mos preço à natureza.
A beleza de uma flor compra-se.
O sabor de uma fruta, compra-se.
O cheiro de um jardim compra-se, e vem dentro de um bonito frasco. Um frasco de vidro que acabará por ficar num jardim por décadas até se tornar parte da terra.
Compra-se saúde e doença.
Compra-se bem-estar.
Pode-se obter imenso com um cartão de crédito, não achas?
Até a cadáveres dá-mos preço.
Um casaco de peles, uns sapatos de couro ou até o teu jantar. Sim! Já compras-te cadáveres e serviste-os para ti e para os teus. Comeste da carne morta de um ser puro, livre de maldade.
A beleza tem preço.
Que Deusa? Que belo homem? Que visão?
Apenas se vê dinheiro nos poros dessas belas senhoras e nos músculos de uns senhores.
Um careca com cabelo de dinheiro.
Róis as unhas mas as tuas unhas são enormes… são unhas de dinheiro?!
Pele livre de pêlos, livre de borbulhas, de cicatrizes, de marcas de vida, livre da idade…
Estás livre?!
Não! Não estás! Estás condenado. Preso a dinheiro. Toda a tua vida e conforto gira à volta da maior, a mais grandiosa, a mais importante e estúpida invenção do homem. Nós inventámos o que nos condena. Inventamos papel. Inventamos dinheiro.
Para nascer é preciso dinheiro. É preciso dinheiro para viver. Até para morrer é preciso dinheiro. E morrer é bem caro. Olha o preço dos caixões.
Pois é, caixões, vivemos em caixas, prisões pagas com o nosso dinheiro e quando morremos nos entregámos a uma caixa. Mais uma caixa…
Não estaremos nós a treinar-nos para a nossa morta toda a vida?
Não sei isso, mas sei que é engraçado que sejamos nós os autores das nossas desgraças como espécie.
Quer dizer, matámo-nos uns aos outros, roubamos o que fomos nós que inventamos, destruímos a felicidade dos como nós, magoamos quem mais amamos e samos esfaqueados por quem confiamos a nossa vida. Será que podemos ter orgulho na nossa espécie? Eu não tenho…
E se pensares bem, que motivos teríamos para ter orgulho nos assassinos de um planeta inteiro?
Matarmos a nossa espécie já é mau, mas destruir todo um planeta, toda a beleza que admiramos, toda a vida que conhecemos, todas as espécies e história de um mundo.
Seremos inteligentes?
Penso que não. Penso que samos só demasiado ambiciosos e queremos todo o conhecimento e invento possível.
Se pensares no assunto, é como atirar o maior número de bolas saltitonas para uma parede que está muito longe de nós porque podemos. Eventualmente as bolas vão regressar para trás e bater-nos. É lógico.
Admito que apesar de tudo, até é fascinante a nossa capacidade de pensar, a nossa mente. Embora isso não seja consolo para todo o mal que fazemos.
Existem animais mais inteligentes que nós, mas não da forma que estamos habituados a classificar inteligência.
Por exemplo, os elefantes, são animais muito sociáveis e protectores, bondosos, simples, e, sim, muitíssimo inteligentes. Uma inteligência mais pura que a nossa. Uma inteligência que não está poluída. Pois o homem nasceu para poluir e até a sua mente poluiu.
Como muitas pessoas já me ouviram dizer, somos um erro da natureza.
A única coisa perfeita, que liga tudo através de energia e simbiose cometeu um erro.
Felizmente vamos ser exterminados pela nossa santa e sensata mãe. Ela vai corrigir esse erro acabando connosco. Coisa que já devia ter feito. Mas ainda resta alguma bondade em nós, que se esgota todos os dias até ao dia que deixaremos de existir.
Cada vez menos bondosos, menos puros, menos inteligentes, menos animais e mais humanos, cada vez mais um erro.
A minha utopia?
Um mundo de harmonia e equilíbrio. Com mortes necessárias que só dão o tal equilíbrio necessário à harmonia do mundo.
Claro que nesse mundo não existem erros. Afinal de contas, no meu mundo ideal, eu não existo, tu não existes e toda a espécie humana não é mais que pó sobre patas e raízes belas e livres de maldade, de dinheiro, de caixas, de hipocrisias… livre de humanos.
A nossa morte é a tal morte que dará equilíbrio a esse mundo.
Descansemos em paz.
E-mail da autora: veronikita@live.com.pt
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Beijos do Além

Casa modesta, antiga e sombria. Decorada com loiças frágeis e de tão pouco valor material. Um relógio partido em cima da mesa de café raramente usada e as janelas pintadas de gotas de chuva. Ecoava em toda a casa o som da chuva e do vento.
Acto único.
Cena 1
Sofia – (Sentada junto a uma janela olhando a chuva com um ar mais chuvoso que o tempo.) Como é incrível como os céus sentem o mesmo que eu. - Chove mais em minha alma do que na lama. Mas no meio de tanta chuva já me falta lágrimas para derramar sobre o já derramado pelo céu.
Cena 2
Filipa – (Irrompendo pela porta como um trovão de luz numa noite negra.) Chove a potes. Estou completamente molhada. Até podia encher um balde de água ao torcer o meu cabelo e dar de beber ao Gustavo. (Sorriu e estremeceu de frio.)
Sofia – Só mesmo tu para saíres com um tempo desses.
Filipa – Ou saia nessa chuva ou esperava pela próxima. - Esse Inverno anda tão chuvoso.
Sofia – É bem verdade. (Abraçou as próprias pernas.)
Filipa – Como é possível passares tanto tempo a sofrer?! Não resolve nada. Só perdes água do teu corpo.
Sofia – Água não me falta para derramar. E ao menos sou honesta no que sinto. Tu pelo contrario…
Filipa – Eu o quê? Ando a fingir que estou bem?! – Enganaste! Não finjo. Simplesmente acho desnecessário estar sempre a sentir o que todos esperam que sinta. A vida é muito curta para ser passada a ver a chuva. E tu devias de compreender isso.
Sofia – Não consigo ser como tu.
Filipa – Minha querida… (Beijou-lhe a testa.) Só vai parar de chover quando as tuas lágrimas secarem. E sabes que esse dia não tarda. Tudo vai acabar bem.
Sofia – O teu optimismo é tão irrealista como reconfortante. (Sorriu.)
Filipa – Que hei-de dizer? É essa a minha maldição.
Sofia – A minha maldição é ter-te na minha vida… sua amaldiçoada.
(Sorriram ambas as cúmplices.)
Filipa – Vou trocar de roupa. Volto já.
Cena 3
Sofia – Como ela tem razão. E só eu sei porque não lha dou. – Não consigo sorrir verdadeiramente sabendo o que sei e que ela devia saber. Mas como é bom vê-la sorrir e habito ver-me chorar. (Limpando uma lágrima denunciadora.) Não lhe posso contar. Isso era destruir o único Sol da minha vida. (A chuva intensificou-se e calou-lhe a voz muda.)
Cena 4
(Filipa entra um pouco alterada e com uma camisola bem quente, no entanto ainda com o cabelo húmido.)
Filipa – Sofia… Onde está o Gustavo?~
Sofia – Não sei. Deve estar lá fora a enterrar algum osso.
Filipa – Vou procurá-lo.
Sofia – Espera! Não vás!
Filipa – Porquê?
Sofia – (Recaindo na tristeza.) Filipa… (Troca de olhares.)
Filipa – Tu não o fizeste?!
Sofia – Fiz! Sabes como odiava aquele cão.
Filipa – (Furiosa.) Tu não o odiavas! Tu tinhas inveja dele! Inveja da felicidade que eu e ele temos e tu és incapaz de ter! Sua invejosa! Eu amava-o mais do que a ti às vezes. Ele era incapaz de ser tão egoísta como tu… ou tão triste e deprimente.
Sofia – (Muito calma, sempre no seu
mundo morto, triste, e calmo. Uma calma nostálgica e triste.) Sempre soube que pensavas isso. Agora disseste-o. Obrigada.
Filipa – Sofia… Como podes ser tão fria?
Sofia – Não sou fria. Soubesses tu o que eu sei e serias bem pior que eu. Lamento a tua perda.
Filipa – (Sorrindo.) Nunca serei triste como tu.
Sofia – Quem sabe se o teu destino é ser mais. (Olhou-a com ternura e a grande tristeza que habitava aquele olhar.)
Filipa – Conheço esse olhar. (Sentou-se junto dela.) O que se passa?
Sofia – (Entregou-lhe uma carta.) Lê.
(Filipa ao ver o remetente.)
Filipa – Quando a recebeste?
Sofia – À uns dias. Lê.
(Á medida que Filipa lia, tudo o resto naquela casa perdia a cor e um holofote de dor se acendeu sobre a sua cabeça fazendo cair de joelhos, cair em lágrimas. Sofia ajoelhou-se também e abraçou as lágrimas que invocou.)
Cena 5
(Desce as escadas um belo jovem, irmão de Filipa e amigo de Sofia.)
Carlos – Que se passa Filipa? (Levantou-lhe o rosto.)
Filipa – A última vez que a mãe segurou uma caneta foi para escrever essa carta. (Tentou recompor-se.) Carlos… Lê-a.
Carlos – “Meus filhos, ambos vós me enchem de desgosto. Tu meu filho, desistis-te de ter uma vida decente e vives como um vagabundo alojada na casa de tua irmã, essa que é o meu maior desgosto como mãe. – Criei-vos e amei-vos à minha maneira, mas sempre vos amei. Nunca esperei foi que se tornassem no lixo que são. (Parou para inspirar coragem.) – Minha filha, é por ti que renuncio parentesco. Não sou tua mãe. Já não. Talvez fosse em tempos, quando eras menina e a tua única vontade era ser alguém na vida, pois não eras ninguém tal como eu não sou. No entanto, como amas essa desgraçada com quem tu e teu irmão partilham tecto, um tecto vergonhoso, que ela te ame de volta, porque eu já não te amo. Beijos meus assassinos. É por vós que morro hoje.” – Meu Deus… (Aterrorizado) Ela matou-se. E por nossa culpa.
Sofia – Por vossa não. Dela. Ela é que não vos soube dar valor.
Carlos – E que valor temos nós. Ela tem razão. Somos uns desgraçados.
Filipa – Não digas isso. ela está morta, mas nós estamos vivos. A nossa vida vale mais que a sua morte. Ela teve uma morte de fracos. Os fracos é que se deixam derrotar e desistem de viver. Eu não derramo nem mais uma lágrima por umna mulher que em tempos foi minha mãe. Já não é mais.
Sofia – Não faças minhas palavras verdade. Não te tornes no gelo que vez em mim.
Filipa – Não é gelo é indiferença. Ela já não fazia parte de nossas vidas e não é com a sua morte que vai fazer.
Carlos – Filipa… E nosso pai? Ele agora está sozinho.
Filipa – Lembraste do que ele disse?
Carlos – Sim, mas foi à tanto tempo. As coisas agora são diferentes. Ele está só.
Filipa – E vai culpar-nos por isso. vai acusar-nos de matá-la. – Queres saber? Que morra ele também.
Sofia – Minha querida, não digas tais coisas. Amo a tua capacidade de perdão. Perdoas todos nesse mundo e és incapaz de tentar perdoar teu pai.
Filipa – Ele me insultou e me magoou. Que pai fala assim com uma filha e a quer de volta? (Para Carlos.) Ele não nos quer, irmão.
Carlos – Que seja ele a decidir isso.
Filipa – Recuso-me a ir.
Sofia – Então fica. Eu e Carlos vamos. Fico no carro que é melhor.
Carlos - Talvez entres. Mas vou amansar a fera. Vamos.
Cena 6
(Ao ver-se sozinha senta-se onde Sofia estava anteriormente. O dia começa a raiar e a luz a entrar. Filipa está com um ar tranquilo.)
Filipa – Por um lado alivia-me saber que fiz bem em não voltar mais á casa de minha infância. - Estou feliz por ter a felicidade que minha mãe nunca teve apesar de ter tudo. Era linda e elegante. Conseguia tudo o que queria, inclusive riqueza. Só não teve vida eterna porque desistiu de viver. - E eu sem nada do que ela teve, tenho tanto. - Tenho meu irmão, a lealdade de meus amigos e amor. Que importa se não é o amor que ela sonhou para mim? Não deixa de ser amor. Um amor que ela nunca teve apesar de meu pai a admirar. (Segurando uma boneca.) Nunca fui criança. Nem isso ela me deixou ser. – Considerou-se minha mãe?! Considerei-a minha dona. Agora que morreu sou dona de mim própria. Sou mulher feita e não criança, mas, ao menos serei verdadeiramente mulher e não a mulher que ela desejaria que eu fosse. – Esperava que chorasse sua morte?! Enganou-se. Nunca lhe daria tal gosto. E foi ingénua por o imaginar. – Chorei sua letra?! Sim! Chorei! Chorei ao reconhecer naquela letra a minha dona. Chorei por reconhecer o desprezo e a falta de sentimentos. Chorei porque ela nunca se deu ao trabalho de nos ver como seres individuais, seus filhos, em vez de apêndices. -Não fomos nós as apêndices que lhe matamos, foi ela por nos arrancar de si a sangue frio e deixar-se esvaziar em sangue. Está morta e bem morta. Finalmente morta. E morta para sempre.
Cena 7
(Entra Carlos e Sofia.)
Sofia – Dormiste bem?
Filipa – Não dormi. Estive a pensar. (Sorriu.) Não tenho mais que pensar.
Carlos – Enganaste-te a respeito do pai. Ele não me tratou mal, nem me acusou de assassino.
Sofia – Até chorei quando vi a cena.
Filipa – Que fez ele?
Carlos – O mesmo que te quer fazer a ti. (Abriu a porta.)
Cena 7
(O pai entra. Um velho fraco e triste ao mesmo tempo que alegre.)
Pai – Minha filha! Como estás bonita. (Emocionado.) Como fui idiota por te perder.
Filipa – (Emocionada e incrédula.) Que fazes aqui?
Pai – Vim ver-te. Não tive coragem antes. Tinha medo do teu rancor. Teu e de teu irmão. (Para Carlos.) Que alegria foi ver-te meu Carlos. (Para Filipa.) E tu minha filha? Perdoas-me?
(Filipa sem palavras ou pensamentos. Sem sentido ou direcção atirasse aos braços do pai num abraço emocionado de saudade, de espanto, de perdão e de amor.)
Filipa – Meu pai. Como tive saudades. Pensei que nunca mais me irias falar. Pensei que tinhas deixado de me amar. Como te amo e como lamento ter-te dado todo e qualquer desgosto.
Pai – Desgosto dei-te eu. Minha filha. O que te disse… Se me pudesses perdoar…
Filipa – (Apertando o abraço.) Perdoei-o mal o vi entrar pela porta de minha casa.
( Abraçaram-se com o último raio de sol a sair do horizonte, beijando de luz aquela falmília. )
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Realiza o Teu Sonho

Escrever, pintar, tocar, cantar, dançar… A arte é feita de artistas. Tu podes ser um.
Se amas a arte e queres ser um artista, eu, como artista (ironia), posso dar-te uns conselhos.
Penso que deves saber que um artista completo é uma pessoa (que descoberta), uma pessoa que desenvolvei zonas especificas da sua personalidade que lhe permitem ser o que tu queres ser. As características principais de um artista são: sensibilidade, compaixão, criatividade e paixão.Para as desenvolveres, antes, tens de compreendê-las.
Quando falo em sensibilidade, refiro-me a sentir as coisas de forma mais intensa, verdadeira ou, simplesmente, haver uma incapacidade de expressão a não ser pela arte.
A compaixão é o que leva o artista a criar para si pensando nos outros. Sempre que crias algo, mesmo que seja o teu diário, pensa que pode ser lido, nem que seja para ser lido por ti (o que é uma boa ideia). Um facto é, se não for apelativo, não é apreciado, logo, arte incompleta.
Claro que não interessa se és sensível e tens compaixão, se te falta criatividade. Sem ela limitaste á arte “copiada”. És um artista incompleto. Um imitador barato que recria o que já foi criado por um verdadeiro artista, ou pelo menos, um artista criativo.
A criatividade é a área que tenho mais desenvolvida. Adoro criar (olha a imagem que fiz XD). Adorar é amar. Amar é paixão. E paixão é essencial a m artista.
Um artista que não ama a arte nunca terá a sensibilidade de ver a mensagem de uma tela ou a magia apaixonante de uma música ou o conforto do cheiro de um livro.
Se já desenvolveste a personalidade, és um artista. Um artista completo?! Não! Para o seres faltam-te algumas coisas, tais como talento.
O talento é inato. Não é adquirido. Ou tens ou não. Há pessoas com jeito para a coisa. E isso nota-se bem cedo e, normalmente, são os outros os primeiros a notar e fazer o potencial artista dessa realidade.
Se tens uma personalidade apta e talento, talvés devesses explorar o teu talento. Aplica-te e forma-te.
A menos que queiras ser o Saramago, aprende a usar as vírgulas da tua arte. Vai para uma escola de arte, tira um curso, forma-te. Estuda e aplica-te. Cria e aprende.
Estou a ser um pouco repetitiva. Mas a ideia é entrar.
Eu confesso que não sou uma artista completa. Para começar não sou formada. Depois, não sei gerir o meu tempo e dedico-me SEMPRE às coisas erradas. Mas sei que sou uma potencial artista e tu também podes ser, se o desejares.
Para terminar. Tens estilo? Essa é uma coisa que podes não ter e ser um artista completo. Mas é óptimo se tiveres porque vai individualizar a tua arte. E ainda mais fantástico era adaptares-te a qualquer estilo, mas se tiveres o teu estilo próprio, tal como Queirós e as suas enormes descrições, parabéns. – Não faças enormes descrições.
E se o teu estilo for pô r mensagens ocultas na tua arte, tal como Leonardo da Vinci, força. Olha para o meu poema como Élio Branco. Se conseguires decifrar a mensagem tiro-te o chapéu… E agradeço. Pois a minha arte só faz sentido lida. E ler não é juntar as vogais e consoantes, é compreender a mensagem.
Pronto… Vai lá à tua vida. Vai formar-te e tornar-te.
Nota: Nesse texto confesso que sou uma artista amadora. Tal como me “comparo ” a Leonardo da Vinci (nada convencida). Se o meu professor de filosofia lesse isso diria que Leonardo da Vinci é um artista incompleto. Sim! O meu professor é um idiota. Faz parte de ser filosofo… e professor.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Me Confesso: Cresci...
«Quantas vezes já não achaste que os teus pais são tudo aquilo que tu não queres ser? Talvés não sejam assim tão maus. Vá lá… Só porque te dão cabo do juízo não quer dizer que sejam maus pais. Eu é que tive maus pais. Aquele tipo de pais que só soube fazer os filhos e na parte de criar chumbou o exame. De certeza que como eu há mais.
Tenho muitas cenas lindas graças a eles. Imagina como te sentias se os teus pais se esquecessem do teu aniversário… outra vez.
Muito lindo, não?
Na verdade, não é assim tão mau, se virmos que o jantar nunca foi feito ou o almoço foi sempre adiado para o jantar… o jantar que não foi feito, estás a ver?
É difícil estudar para um teste com os pais a discutir na cozinha, é impossível cala-los e difícil tomar um duche para relaxar quando não há água quente ou simples sabão. Era impensável falar nisso com os amigos porque eu tinha vergonha. Tinha vergonha de ser julgado ou que julgassem os meus pais, tal como eu fazia interiormente.
Mas até os amava.
Quando o meu pai saia depois de uma discussão e a minha mãe ficava agarrada a uma garrafa a chorar. Eu ficava sentado nas escadas a ouvir e sentia pena. Sei que fica mal para um rapaz dizer isso, mas eu ficava a chorar nas escadas sem saber como ajudar e cheio de pena e ódio, ao mesmo tempo que a amava mais que tudo.
Também amava o meu pai.
Quando ele me levava para caçar - adorava caçar com ele - ele estava mesmo empenhado em me impressionar e me fazer rir. Ficava com pena dos coelhos, mas ficava tão feliz com o ar de satisfação do meu pai quando me via com um ao ombro.
São dos bons momentos que guardo.
Também não posso esquecer quando a minha mãe decidia fazer um bolo e me chamava. Nessa altura já estava bêbeda, mas que interessa. Sorria e brincava e sujava-me com a massa. E no fim, com a cozinha um caos maior que a sua mente, sentávamo-nos no chão a raspar a massa crua da pana enquanto o bolo cozia.
Infelizmente esses bons momentos não anulam todos os maus momentos. Todas as discussões em que eu ficava esquecido nas escadas. Nem a agonia de não poder fazer nada. O ódio e a raiva que sentia por os amar tanto e eles me fazerem sofrer assim.
Felizmente cresci.
Rui…»
veronikita@live.com.pt - e-mail da autora
Tenho muitas cenas lindas graças a eles. Imagina como te sentias se os teus pais se esquecessem do teu aniversário… outra vez.
Muito lindo, não?
Na verdade, não é assim tão mau, se virmos que o jantar nunca foi feito ou o almoço foi sempre adiado para o jantar… o jantar que não foi feito, estás a ver?
É difícil estudar para um teste com os pais a discutir na cozinha, é impossível cala-los e difícil tomar um duche para relaxar quando não há água quente ou simples sabão. Era impensável falar nisso com os amigos porque eu tinha vergonha. Tinha vergonha de ser julgado ou que julgassem os meus pais, tal como eu fazia interiormente.
Mas até os amava.
Quando o meu pai saia depois de uma discussão e a minha mãe ficava agarrada a uma garrafa a chorar. Eu ficava sentado nas escadas a ouvir e sentia pena. Sei que fica mal para um rapaz dizer isso, mas eu ficava a chorar nas escadas sem saber como ajudar e cheio de pena e ódio, ao mesmo tempo que a amava mais que tudo.
Também amava o meu pai.
Quando ele me levava para caçar - adorava caçar com ele - ele estava mesmo empenhado em me impressionar e me fazer rir. Ficava com pena dos coelhos, mas ficava tão feliz com o ar de satisfação do meu pai quando me via com um ao ombro.
São dos bons momentos que guardo.
Também não posso esquecer quando a minha mãe decidia fazer um bolo e me chamava. Nessa altura já estava bêbeda, mas que interessa. Sorria e brincava e sujava-me com a massa. E no fim, com a cozinha um caos maior que a sua mente, sentávamo-nos no chão a raspar a massa crua da pana enquanto o bolo cozia.
Infelizmente esses bons momentos não anulam todos os maus momentos. Todas as discussões em que eu ficava esquecido nas escadas. Nem a agonia de não poder fazer nada. O ódio e a raiva que sentia por os amar tanto e eles me fazerem sofrer assim.
Felizmente cresci.
Rui…»
veronikita@live.com.pt - e-mail da autora
Eu Me confesso: Já Amei...
«O meu nome é Luísa e gostava de saber se tu sabes o que é sofrer mais num minuto do que já se sorriu uma vida?
Eu sei…
E vou partilhar contigo a minha história.
Eu estava a namorar com ele, o Alexandre, à cinco meses quando decidimos ir viver juntos. Estávamos muito felizes, até que começou.
Eu era muito amiga do Miguel, que era seu melhor amigo, e o ciúme começou e foi para valer. Ele não só me proibia de sair como de usar o telefone, nem trabalhar eu podia ir quando ele estava com um ataque de ciúmes. Mas apesar da sua loucura, ele demonstrava tanto amor por mim, e tratava-me bem – às vezes – e eu amava-o… Como é difícil admitir que ele me fez sofrer tanto, pois eu não consigo acreditar que todo o amor, toda a cumplicidade e sonhos que tínhamos juntos não passou de ilusão.
Um dia tudo foi longe demais. Eu tinha saído com o Miguel porque precisava de falar, não lhe contava tudo, pois se o fizesse era capaz de me chamar louca por continuar com o Alexandre, mas contava pequenas coisas e esses pequenos desabafos concederam-me alguma sanidade. Claro que para o Alexandre eu estava a traí-lo e nesse dia… Foi o pior dia de todos.
Quando cheguei a casa ele estava à minha espera. Imaginem o terror que senti quando vi o seu olhar louco de raiva e intolerância a olhar para mim, o seu cachorro domesticado que acabou de infringir uma das suas regras – viver - Ele não disse uma palavra, foi na minha direcção apertou-me o pescoço com uma mão até não aguentar mais com o meu peso, ai, atirou-me para o chão e pontapeou-me como se de uma bola se tratasse, senti o estalar das minhas costelas, partidas por ele. Eu gritava e chorava, implorava que parasse, tudo inutilmente porque ele é que comandava tudo.
Perdi os sentidos quando ele me atirou contra sei lá o quê. Acredito que mesmo inconsciente devo ter levado muito mais.
Ás duas da manhã, quando acordei do meu sono de morte, ele estava a dormir no sofá. Deve ter ficado a olhar para mim a esvaziar-me em sangue, a esperar pela minha morte e adormeceu com a ideia de que me tinha dado o que merecia.
Não sem com que forças levantei-me e fui até casa do Miguel. Ele, o causador de tudo e o meu salvador. Mal a porta se abriu e ele pousou os olhos sobre mim ficou em choque.
- Que aconteceu? Estás bem? Foste assaltada? – Assolou-me em perguntas e cuidados.
- O Alexandre… - Cai, literalmente, em lágrimas.
Ele estava sem saber como ajudar e eu sem saber como ser ajudada. De que adiantava estar ali se nada ia mudar? Pelo menos estava segura estando longe de casa. A minha casa era o sitio mais perigoso que conhecia naquele momento.
O Miguel estava tão assustado como preocupado comigo. Tinha medo sequer de me tocar, medo de me magoar só de respirar para cima de mim.
Contra a minha vontade, lá ele chamou uma ambulância e mais uma vez o homem que amava me fez ir ao hospital.
Com três costelas partidas, cinco pontos na cabeça, alguns danos internos e outros hematomas, estava preocupada com o que seria da nossa vida a dois. Como ia eu olhar para ele? Como ia ele ficar ao saber que eu tinha ido ter com o Miguel? Como iria reagir ao saber que me tinha feito tanto mal?
O Miguel passou a noite comigo no hospital, de manhã, acordei com um polícia do meu lado á espera da minha denúncia. Recusei-me a apresentar queixa. O Miguel prometeu-me que se não o fizesse ele iria mata-lo. Disse isso com tanta raiva e frieza que me convenceu.
Isso foi tudo á cinco anos e ainda me dói saber que vivi na pele uma história assim, logo eu que sempre disse que era incapaz de tolerar uma coisa dessas. Mas tolerei, e tenho marcas que o provam.
Era tudo tão intenso que era difícil distinguir o bom do mau.
Agora sou feliz, tenho uma filha de cinco meses e estou casada e feliz à um ano. Casei-me com um homem que me respeita e me adora e nunca perdi a amizade de Miguel, que agora não só é padrinho da minha filha como é meu melhor amigo para sempre.
Quanto ao Alexandre, viu-o o outro dia no centro comercial com uma jovem. Foi dolorosa tal cena e mexeu comigo a tal nível que fugi dali. É lamentável que ele esteja à solta e já tenha outra vitima em mãos… mas não sei como ajudar…
Luísa de Coimbra»
Qualquer semelhança com a realidade, com a tua ou de algum conhecido, e ficas a saber que existe melhor do que isso à tua espera ou do teu conhecido, sê feliz e/ou faz alguém feliz.
veronikita2live.com.pt - e-mail da autora
Eu sei…
E vou partilhar contigo a minha história.
Eu estava a namorar com ele, o Alexandre, à cinco meses quando decidimos ir viver juntos. Estávamos muito felizes, até que começou.
Eu era muito amiga do Miguel, que era seu melhor amigo, e o ciúme começou e foi para valer. Ele não só me proibia de sair como de usar o telefone, nem trabalhar eu podia ir quando ele estava com um ataque de ciúmes. Mas apesar da sua loucura, ele demonstrava tanto amor por mim, e tratava-me bem – às vezes – e eu amava-o… Como é difícil admitir que ele me fez sofrer tanto, pois eu não consigo acreditar que todo o amor, toda a cumplicidade e sonhos que tínhamos juntos não passou de ilusão.
Um dia tudo foi longe demais. Eu tinha saído com o Miguel porque precisava de falar, não lhe contava tudo, pois se o fizesse era capaz de me chamar louca por continuar com o Alexandre, mas contava pequenas coisas e esses pequenos desabafos concederam-me alguma sanidade. Claro que para o Alexandre eu estava a traí-lo e nesse dia… Foi o pior dia de todos.
Quando cheguei a casa ele estava à minha espera. Imaginem o terror que senti quando vi o seu olhar louco de raiva e intolerância a olhar para mim, o seu cachorro domesticado que acabou de infringir uma das suas regras – viver - Ele não disse uma palavra, foi na minha direcção apertou-me o pescoço com uma mão até não aguentar mais com o meu peso, ai, atirou-me para o chão e pontapeou-me como se de uma bola se tratasse, senti o estalar das minhas costelas, partidas por ele. Eu gritava e chorava, implorava que parasse, tudo inutilmente porque ele é que comandava tudo.
Perdi os sentidos quando ele me atirou contra sei lá o quê. Acredito que mesmo inconsciente devo ter levado muito mais.
Ás duas da manhã, quando acordei do meu sono de morte, ele estava a dormir no sofá. Deve ter ficado a olhar para mim a esvaziar-me em sangue, a esperar pela minha morte e adormeceu com a ideia de que me tinha dado o que merecia.
Não sem com que forças levantei-me e fui até casa do Miguel. Ele, o causador de tudo e o meu salvador. Mal a porta se abriu e ele pousou os olhos sobre mim ficou em choque.
- Que aconteceu? Estás bem? Foste assaltada? – Assolou-me em perguntas e cuidados.
- O Alexandre… - Cai, literalmente, em lágrimas.
Ele estava sem saber como ajudar e eu sem saber como ser ajudada. De que adiantava estar ali se nada ia mudar? Pelo menos estava segura estando longe de casa. A minha casa era o sitio mais perigoso que conhecia naquele momento.
O Miguel estava tão assustado como preocupado comigo. Tinha medo sequer de me tocar, medo de me magoar só de respirar para cima de mim.
Contra a minha vontade, lá ele chamou uma ambulância e mais uma vez o homem que amava me fez ir ao hospital.
Com três costelas partidas, cinco pontos na cabeça, alguns danos internos e outros hematomas, estava preocupada com o que seria da nossa vida a dois. Como ia eu olhar para ele? Como ia ele ficar ao saber que eu tinha ido ter com o Miguel? Como iria reagir ao saber que me tinha feito tanto mal?
O Miguel passou a noite comigo no hospital, de manhã, acordei com um polícia do meu lado á espera da minha denúncia. Recusei-me a apresentar queixa. O Miguel prometeu-me que se não o fizesse ele iria mata-lo. Disse isso com tanta raiva e frieza que me convenceu.
Isso foi tudo á cinco anos e ainda me dói saber que vivi na pele uma história assim, logo eu que sempre disse que era incapaz de tolerar uma coisa dessas. Mas tolerei, e tenho marcas que o provam.
Era tudo tão intenso que era difícil distinguir o bom do mau.
Agora sou feliz, tenho uma filha de cinco meses e estou casada e feliz à um ano. Casei-me com um homem que me respeita e me adora e nunca perdi a amizade de Miguel, que agora não só é padrinho da minha filha como é meu melhor amigo para sempre.
Quanto ao Alexandre, viu-o o outro dia no centro comercial com uma jovem. Foi dolorosa tal cena e mexeu comigo a tal nível que fugi dali. É lamentável que ele esteja à solta e já tenha outra vitima em mãos… mas não sei como ajudar…
Luísa de Coimbra»
Qualquer semelhança com a realidade, com a tua ou de algum conhecido, e ficas a saber que existe melhor do que isso à tua espera ou do teu conhecido, sê feliz e/ou faz alguém feliz.
veronikita2live.com.pt - e-mail da autora
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Perdi o Amigo Que Nunca Tive
.Eu e ele éramos muito amigos. As conversas eram animadas, sentia-me à vontade. Havia uma energia muito positiva. Já sentiste aquela sensação de: ”Era capaz de passar horas a falar com essa pessoa”?
Bem… Essa sensação era uma constante. Nunca pensei em nada mais. Ok… Pensei! Mas rejeitei essa opção, porque uma relação, uma mudança, ia estragar tudo, e tudo era tão bom. Tenho pena que tenha acabado.
Perdi um amigo… E isso é muito triste.
Quando soube que ele gostava de mim… Fiquei chocada. Não fazia ideia, pensava que ele era assim… com todas as raparigas. Pensei que era naturalmente… querido. Obviamente estava errada. E sabê-lo foi um choque. Falamos e ao fim de algum afastamento pensei que tudo estava encerrado.
Voltamos a falar, a encontrarmo-nos com frequência. Voltamos a ser amigos… E eu estava feliz por assim ser, por não ter perdido um amigo que me era muito querido. Foi importante para mim saber que por não querer estragar tudo o tinha feito. Mas foi o que de facto aconteceu.
Ao fim de um ano de amizade ele voltou a mostrar o seu interesse por mim, voltou a tentar. Mas a verdade é que nunca tinha perdido as esperanças. Fiquei extremamente frustrada e decepcionada com essa descoberta. Eu tinha dito “Não!” e não tenho por habito brincar com os sentimentos das pessoas, portanto, tinha sido um não sincero, e se fosse ouvido… Quem me dera que tivesse sido ouvido, mas não foi.
Enfim… sem interesse da minha parte numa relação e ele com esperanças… não vi outra opção senão me afastar, embora tivesse pena, afastei-me. Perdi um amigo, em parte por opção, embora sinta que não tive outra escolha. Afinal o que aconteceria? Ele provavelmente sairia muito mais magoado e eu muito mais frustrada e culpada. Culpada da culpa de ver e não agir. Penso que não agir e arrastar a situação só traria infelicidade para ambos e acabaríamos numa daquelas situações em que um sofre debaixo do holofote apagado e outro brilha sobre a vela, a vela que está debaixo do holofote sofrendo. Sofrendo na esperança de que um dia ter a atenção, que o iluminado dê atenção ao que ilumina. Eu não fui capaz de arrastar isso... Que hei-de dizer? Perdi um amigo. Embora pense que ele nunca chegou a sê-lo, pois amigos não são pessoas interessadas em nós fisicamente, não desejam algo físico, uma relação física, desejam pura e simplesmente a nossa companhia.
Dedicado a todos os meus amigos… Adoro a vossa companhia, mas não me toquem! Lol Na binca.
veronikita@live.com.pt - e-mail da autora
Mancha
.Será tela inacabada? .
Será obra começada? .
Será imagem desfocada? .
Não será nada? .
Será mancha? Mancha sobre a mais bela imagem? Mancha sobre nada? Não será nada? .
Será pergunta sem resposta? .
Será dúvida respondida? .
Será obra de artista? .
Será obra de criança? .
Será borrão? .
Não será nada? .
Segundo o artista: "É só tinta sobre tela. Não são assim todos os quadros?"
veronikita@live.com.pt - e-mail da autora
Tela Em Branco
.Branco. Branco sobre branco. Significa a cândura, a inocência. O autor pode querer trnsmitir uma ideia de destino por ddefinir. Que tomamos decisões que nos levam por caminhos. O branco pode ser o princípio, pode ser o fim e pode ser o que está por vir. .
O branco é icognita.A forma uniforme como o branco está espalhado pela tela é a simplicidade da vida, a simplicidade e o seu sentido. Simples. E somos nós que agarramos no píncel e complicamos. E cada um lhe dá um sentido ou a ausência dele. Somos livres, mas condenados, a pintar. .
Segundo o autor: "É só uma tela em branco." Idependentemente da arte ou do artista, do que vez, da relação entre os teus sentidos e a mente é a tua arte és o artista da arte que vez.
veronikita@live.com.pt - e-mail da autora
Subscrever:
Comentários (Atom)