Uma casa de campo, velha e sombria, escondida por ervas e enterrada em mistério. Era esta a casa que Andreia havia comprado.
Ao entrar na casa ela ficou encantada, era realmente antiga e estava desfeita. Uma árvore crescia na sala iluminada pela luz do tecto aberto. Móveis desfeitos pelo tempo e uma moldura partida com uma fotografia de uma família. Havia algo de errado. Toda a família tinha um sorriso ligeiro, mas uma menina de cabelo negro e olhos pretos e pele muito branca estava com um ar zangado.
Andreia estranhou, mas ao ver um gato sorriu e pousou a foto. Continuou a ver a casa e para além do mau estado do quarto de jantar onde a árvore reinava, o resto da casa não estava assim tão mal.
Iria precisar de muito trabalho, mas Andreia sonhava com a ideia de ter uma casa em estilo antigo remendada por si. Ainda para mais uma casa de campo, longe do barulho, da cidade e do mundo.
Demorou longos meses ate a casa ficar pronta. No entanto, ela conseguiu com que tudo fosse feito muito mais depressa do que se esperava e ainda mais depressa instalou-se na casa.
A sua determinação era louvável e o seu recente esposo não podia estar mais orgulhoso.
Por meses foram muito felizes. A casa estava linda, sossegada. Uma calma de morte embalada em suspiros do vento deliciavam Andreia quando esta estendia a roupa.
O casal estava feliz e um bebe vinha a caminho.
Andreia passava todo o seu tempo em casa a preparar as coisas para a vinda da nova vida e acreditava que esta gravidez era a causa dos seus medos e preocupações.
Do nada ela sentia a presença de alguém ou um toque de algo. Coisas de grávida, certo?
Era terça e Andreia voltou da consulta, tinha visto o sexo do bebe pela primeira vez. Uma menina. Estava felicíssima e decidiu fazer um bolo. Mexia a massa a cantarolar com um sorriso deslumbrado quando deu um salto de susto ao ouvir algo a quebrar-se vindo da sala de jantar.
Sem hesitar foi ver o que o raio do gato tinha feito dessa vez.
A moldura de família dela e do esposo caída no chão. Levantou-a toda partida e pegou na foto. Limpou os vidros da foto e deu um grito de susto. Não podia acreditar. Não podia ser verdade. A miúda de cabelo preto estava na foto entre eles e estava zangada. A foto saltou-lhe das mãos com o susto e ela levou uma mão ao peito a outra `a barriga.
Ouviu a porta a bater e soltou mais um grito inevitável precipitou-se para as escadas e ouviu uma voz chamar o seu nome:
- Andreia. – Chamou uma voz que ela conhecia bem.
- Nuno! – Suspirou de alivio e correu ate os seus braços.
- Que se passa? – Perguntou-lhe apertando-a no abraço.
- Apanhei um susto tão grande. – Soltou um soluço e umas lágrimas.
- Que se passou? – Afastou-a olhando-a.
- A nossa foto caiu e há uma rapariga entre nos.
Claro que quando ele foi ver a foto já não havia rapariga alguma.
- Essa rapariga és tu. – Nuno segurou-lhe a face entre as mãos depois de ela voltar a olhar para a foto perplexa. – Tu não mudaste. Essa criança não vai mudar o que sinto por ti ou quem és.
- Sim. – Simulou um sorriso. – Tens toda a razão.
Andreia duvidava de si mesma. Era tão impossível que ela preferiu acreditar que tinha sido apenas a sua insegurança, uma insegurança que ela desconhecia e que lhe parecia ilógica, mas que ela preferia acreditar ser verdade.
Ao comerem o bolo ela contou as novidades sobre a bebe e ficaram ali deitados por séculos, abraçados ao presente com a mente no futuro idílico.
Andreia acordou nos braços de Nuno, ele dormia profundamente e Andreia sentiu-se atraída para o quarto de jantar. Entrou e viu a árvore a rasgar o tecto, a árvore que já não existia. A árvore estava morta e sombria, escurecida pelas trevas. A rapariga de cabelo preto saiu de trás da árvore. Andreia queria afastar-se, mas algo a prendia.
A miúda de cabelos pretos aproximou-se e Andreia não se conseguia afastar. Chegou bem perto dela e depois desviou o olhar para o tecto a um canto e aponto com o dedo. Andreia olhou, mas não via nada. Voltou a baixar o olhar e tudo estava de volta ao normal.
Foi ate ao quarto que ficava para lá da parede que pareceu que a rapariga estava a olhar e estava tudo normal. Um quarto pacífico. O quarto que seria para a sua filha brincar.
Toda essa agitação era má para a criança e a futura mãe sabia.
Apesar disso, Andreia sentiu-se intrigada. Já não estava assustada, mas intrigada com o olhar docemente cruel e ingénuo daquela estranha, daquela alucinação ou assombração.
No dia seguinte Andreia passou horas a olhar o tecto sem perceber do que estava `a procura.
Finalmente desistiu e foi alimentar a criança dentro de si. Ao afastar-se ouviu um voz a sussurrar: «Elisa» A voz continuava a chamar e Andreia procurou de onde vinha. Ouviu um riso a vir do quarto de brincar da bebe e ao entrar encontrou as paredes arranhadas ate ao cimento. «ELISA» era o que se via lá escrito.
- O que queres? – Perguntou Andreia.
Sentiu-se ridícula e ao não obter resposta virou as costas para se ir embora.
-Espera! Não me deixes. – Chamou a miúda atrás de si.
- O que queres de mim? – Exigiu saber.
A miúda olhou para a parede e repetiu.
- Elisa.
- Quem ´e essa Elisa?
- Elisa. – Apontou para a barriga de Andreia.
Andreia levou as mãos `a barriga num sobressalto e a rapariga desapareceu, tal como o nome na parede.
Nessa noite Andreia esperou que Nuno adormecesse, acedeu velas, sentou-se na sala de jantar e sussurrou «Elisa» várias vezes.
A miúda não aparecia mas as coisas estavam a cair dos sítios e as velas apagaram-se e toda a sala parecia saída de um filme de terror.
- Não podes ficar com a minha filha. Não a vais ter. – Tudo tremia e se agitava. – Não sei porque estás presa a esse mundo, mas o teu lugar não ´e aqui.
- O meu lugar ´e lá em cima. – Apontou a miúda fantasma para o canto.
- Sim. O teu lugar ´e lá em cima. – Andreia suspirou de alívio. – Podes ir para lá ter com a tua família.
- Eles não estão ali.
-Onde estão?
- Eu não sei. Eles deixaram-me ali em cima. – Voltou a apontar; aproximou-se de súbito de Andreia e sussurrou. – Tira-me dali.
Tudo voltou ao normal.
- Que se passa? – Perguntou Nuno rasgando o espaço.
- Nada, meu amor. Vamos dormir.
- Ouvi-te gritar.
- Um rato. – Mentiu.
- Um rato chamado Elisa?!
- Meu amor, deves ter tido um sonho.
Nuno não sabia no que acreditar, mas preferiu acreditar que se tratava de um sonho.
- Elisa vai ser o nome da nossa filha. – Disse Nuno na manha seguinte.
- Porque lhe queres dar um nome tão horrível? – Protestou Andreia.
- Porque sonhei com esse nome. Deve ter algum significado.
-Significa que sonhas-te com ele. Apenas isso.
- A menos que arranjes nome melhor fica esse.
Andreia não contestou. Tinha mais em que pensar no momento.
Estava a pensar no que a miúda tinha dito. “lá em cima.”
Andreia voltou para a sala de jantar com um escadote e uma serra. Serrou toda a madeira daquele canto no tecto e ficou espantada ao ver uma porta. Não conseguia alcançar a maçaneta, por isso voltou a descer, foi buscar uma vassoura e voltou a tentar. Conseguiu abrir a porta e rastejou para aquele sótão.
Que lugar sinistro. Pó, pó e mais pó. Umas quantas caixas fechadas, brinquedos velhos e assustadores espalhados e uma arca iluminada pela telha de vidro.
- Olá. – Disse a menina de cabelos pretos que brincava com uma boneca.
- Olá. – Retribuiu Andreia. – Os teus pais deixaram-te aqui?
- Sim. – A miúda continuava cabisbaixa, com o cabelo a esconder-lhe a face e a brincar com a boneca.
- Porque eles te deixaram aqui?
- Por isso. – Levantou a cabeça e a sua face estava toda cortada e ensanguentada. – Eu fiquei feia. E eles deixaram de gostar de mim.
Andreia sentou-se perto da menina fitando-a com compaixão.
- Quem te fez isso?
- Eu fiz.
- Porque o fizeste?
A menina entregou-lhe a boneca. Andreia olhou a boneca e viu que ela estava toda desfigurada.
- Alguém fez isso `a minha boneca. Quando mostrei `a minha mãe ela disse que não tinha importância, porque ela continuava a ser amada por mim. Mas a boneca sempre foi igual a mim, não queria que ela se sentisse diferente, quis que ela soubesse que eu a amava.
- Então puseste-te igual a ela?!
- Sim. Mas a minha mãe deixou de me amar.
- Isso não pode ser verdade.
- A minha mãe disse que não tinha importância quando lhe mostrei a boneca, mas quando ela me viu ela gritou e chorou. Assustou-se porque eu estava feia. Ela não me amou. Depois disso ela chorava sempre que me via. O meu pai olhava para mim com tristeza e os meus irmãos deixaram de brincar comigo. Quando havia visitas pediam-me para ficar aqui.
- Eles estavam apenas a proteger-te.
- Não. Eles deixaram de me amar. Por isso escondi-me para sempre.
- Aqui no sótão?!
- Fechei-me na arca. Comecei a ficar agoniada e custava-me a respirar. Tentei sair, mas não consegui. Adormeci abraçada `a Erica. – Abraçou a boneca.
- Erica e´ a tua boneca? – Os olhos de Andreia denunciavam emoção.
- Sim. E eu quero que fique com ela. Eu quero que ela volte a ser bonita, porque se ela for bonita eu voltarei a ser e os meus pais voltaram a me amar.
- Eu fico com ela. – Andreia segurou a boneca. – Vou tomar conta dela.
- Eu quero que a Erica brinque com ela, promete?!
- Prometo, que a Erica – Tocou a sua barriga. – Brincar `a com a Erica. – Olhou a boneca.
A menina levantou-se.
- Sofia e Erica. Eu e a minha boneca. Sempre seremos iguais.
Sofia desapareceu.
- Vou ficar por perto. – Sussurrou uma voz.
O corpo de Sofia estava dentro da Arca. A policia tratou dos restos da menina, e Andreia pus a bonita boneca junto aos outros brinquedos destinados `a sua filha, Erica.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
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5 comentários:
ihih... que história interessante +.+
Eu gostei muitooo (; No inicio parecia que essa historia ia ter um fim tragico xDD :$
* Lv'YOU Minha Moscatel xDD <3
bonita a historia continua ;D
bonita a historia continua ;D
bonita a historia continua ;D
Muito bonita a história!!!
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