Uma tristeza se apoderou de mim. Uma tristeza se apoderou de meus pés e me fez arrastar-me. Arrastei-me seguindo melancolicamente a minha tristeza. Seguindo a minha dor, a minha angústia.
Quando acordei dessa angústia cegante e condutora, estava num penhasco.
Que bela visão…
Ali de cima, vi minha paz, vi o mar me seduzindo pela beleza, pela tranquilidade tempestiva e infinita, profunda e condutora. Foi até ali que a minha frustração me levou. Estava de pé a olhar o poder que se apoderava de mim. A olhar para baixo com os olhos presos ao céu. Abri os barços e me banhei no vento de olhos cerrados e cabeça tombada para trás, para trás,” tudo o que está para trás não importa”, só vi o poder a apoderar-se de mim, vi-o de olhos fechados, vi-o pelo meu corpo. Meu corpo não sentiu mais nada. Só sentiu o poder do vento. A liberdade da força da gravidade foi-me insinuada pelo vento.
Sento-me…
Ali sentada, já nada tinha a gritar, já nada tinha a chorar, já nada tinha a lembrar, já não tinha nada que me prendesse a esse mundo a não ser o vento, o vento que me insinuava o poder da liberdade na força da gravidade.
Abro os meus olhos…
Minhas pernas já se encontravam fora da área de terra, de rocha, de ligação com a vida, ligação com o mal, ligação com o passado. Passado que terminava ali. Passado que já não importava. Minhas pernas já não gritavam, já não choravam, já não me culpavam pelas feridas que transportavam ou pelas cicatrizes que me levavam. Minhas pernas me diziam que para lá, para lá da rocha, da terra, se encontra paz.
Uma sensação incrível e apoderam-te que começou a tomar conta de mim, tal criança encantada com um abraço de pai e mãe. E eu queria sentir esse abraço. Queria ser abraçada pelo ar, lançada ao encontro do chão e ali morrer no frio e carinhoso abraço de morte com a terra depois de atravessar toda a liberdade e paz do ar. Últimos momentos agarrados á vida. “Momento em que serei livre, serei ar, serei leve, serei paz, serei livre de dor e serei apenas um corpo morto a cair para a vida, morrendo logo em seguida, ao menos saberei o que é estar viva quando estiver a morrer. Pois viver não é isso. Estou vazia e morta antes sequer de morrer. E morrerei sabendo o que é estar viva, nem que seja por um segundo. Morrerei vivendo na queda. Morrerei depois do salto.”
Fecho os olhos, engulo em seco, encho o peito de ar, salto…
Sorrio e choro na queda.
Não me arrependo.
Não posso voltar atrás e repetir a experiência.
Minhas lágrimas são deixadas para trás ao longo do percurso.
Minha magoa me abandona.
Estou viva.
Expiro em mais uma lágrima e mais um sorriso.
Embato o chão…
Estive vive na queda e morri nela…
Ao embater o chão tudo terminou.
Não lembro de nada.
Não lembro sequer de dor ou medo.
Não lembro se havia algo bonito do outro lado.
Lembro que antes de me entregar ao ar, tudo era mau e doloroso e ali sim, ali antes de estar no ar, ali sentia medo, ali sentia dor, ali sentia-me morta e agora estou viva.
O meu salto para a morte, foi o meu salto para a vida.
Acordei desse salto para a vida do outro lado da linha da morte.
Acordei com dores, acordei confusa e sem noção do tempo ou espaço. Acordei no céu. Um quarto vazio e branco. Acordei numa cama. Acordei no hospital. Estava viva… Estou viva. Uma lágrima que não sei se de alivio ou de dor escorreu-me pelo canto do olho. Chorei no silêncio até o ponteiro atingir a hora seguinte e alguém entrar a ver como estava eu. Sim! Alguém queria saber como eu estava. Uma enfermeira de branco e sorriso triste. Mais triste que a minha vida e fez-me tão feliz a ver. Ver alguém que respirava e que não era Deus.
Perguntou-me como me sentia e o meu sorriso banhado em lágrimas respondeu-lhe: “Sinto-me viva…”
E de facto estava. Viva como nunca estivera. Sozinha como sempre, mas sem sentir a solidão. Grata por estar viva. Grata por uma oportunidade de começar de novo. Os meus problemas continuavam a existir, mas já não importavam, porque não era suposto eu existir e, no entanto, ali estava eu, a gastar oxigénio e a ocupar uma cama e a usar gesso, apanhando o frio do ar condicionado e a ouvir o paciente do lado a tossir.
Tudo tão real e tão mais bonito que a minha antiga vida antes de saltar para a morte.
Saltar foi o que fez estar viva agora e saltaria novamente se voltasse atrás e estivesse de volta ao ante-salto, se estivesse novamente morta, saltaria para a vida saltando de encontro da morte.
Meus amigos me visitaram naquele hospital. Todos estupefactos com a minha súbdita mudança. Eu ria, eu ria e sorria e abraçava toda a gente. Ignorava a dor física e mostrava o quanto me sentia bem por eles estarem ali e por eu estar ali e poder vê-los e senti-los e falar com eles.
Meus pais choraram ao me ver. De alegria, de culpa, de incompreensão e alivio por eu estar bem, tão bem. Abri os braços para os receber, mais um abraço aos que aqui iam ficar, que iam chorar a minha morte e culpar-se pelo que eu é que fiz, eu é que quis, eu é que deveria me sentir culpada por faze-los passar por tal coisa.
Compensei o meu acto de loucura com a minha felicidade súbita e a minha vida interior renascida em mim pelo tubo na garganta que me arranhava a faringe.
Na queda, uma costela perfurou-me um pulmão, parti alguns ossos e fiz umas feridas. Uma das quais tiveram de remover uma pedra com cirurgia. Remover a pedra que eu tinha na nuca, pouco a cima da testa e que felizmente não me causou nem morte, nem danos.
Sai do hospital como outra. Recusei a cadeira de rodas, pelo menos até ao carro. Queria voltar a andar, mostrar a todos que estava bem, viva e feliz. Caminhei até ao carro, com dores por todo o lado e o meu peito a arder numa dor maior, não só pelo meu coração acelerado em alegria como pelo pulmão ainda magoado.
Agora não imagino como seria não estar aqui. Faltar a tantos aniversários, tantos natais, tantas festas e tantas idas á praia ou ao centro-comercial. Não ir aos saldos é impensável. E como poderia o mundo ser o mesmo se eu não tivesse comprado aquele carro que é lindo como tudo ou se não tivesse abraçado os meus pais todos os dias desde aquele dia e dito a todos os meus amigos como os adoro?
De certo que o meu mundo seria muito diferente. De certo que todos os que adoro não seriam tão felizes como são com todo o amor e felicidade que tenho em mim e que lhes dedico. Ganhei uma força e uma vida no lugar vazio enorme que estava em mim quando me atirei. Penso que todo o ar que se atravessou no meu caminho na queda entrou em mim e me encheu de paz, de liberdade e de amor.
sábado, 12 de junho de 2010
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1 comentário:
com os erros é que conseguimos aprender a fazer as coisas correctamente e acho que é isso que esta inserido neste texto continua Nicky
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