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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

sábado, 7 de agosto de 2010

Bordel de Freiras


Senhoras que abdicam da família, do lar, de filhos, de prazer. O único prazer que têm na vida é servir o seu Senhor, o Deus das suas preces. Abdicam de tudo pela sua fé. Vivem em conventos, em refúgios, em prisões a que se entregam.

No entanto, a história que te vou contar, não fala de uma prisão, mas de algo mais horrível. Jovens mulheres que se entregam ao convento para uma vida casta e pura em que possam rezar e fazer o bem, mas nesse convento as coisas são bem diferentes.

Vou contar a história de uma jovem em especial, mas na história dela poderás ver a história de todas elas.

Ana perdeu o pai, vi-o morrer. Ele morreu-lhe diante dos olhos dia a pós dia morrendo um pouco mais. Agarrou-se à fé para que ele vivesse tempo suficiente para a ver crescer e ele viveu. Viveu até ela fazer dezoito anos, nesse exacto dia ele faleceu e Ana decidiu se entregar aos cuidados do convento em homenagem ao pai.

A mãe mostrou-se relutante à ideia de não poder estar com a sua filha todos os dias de sua vida, mas a decisão estava tomada e Ana foi para o convento.

O dia em que entrou para o convento o céu chorava entre um riso esboçado pela freira que a recebia. Os pássaros voavam para longe e as árvores escolheram a morte. Quando entrou não sentiu a paz que esperava sentir, sentiu estranheza e um arrepio súbito na espinha. A luz fraca tornava a freira que a recebia uma estranha figura de horror.

Andou-se o corredor passando portas fechadas, andou-se na escuridão hesitando cada passo. Ouvia-se rezas, súplicas aos céus, choros dissimulados pelo murmúrio das preces.

Nos aposentos de Ana, em que ela se sentiu uma estranha para aquelas paredes e aquela cama, a freira saiu deitando um último olhar àquele bocado de carne que trouxera para dentro do convento. A Cruz pendurada em cima da cama incentivou-a a uma reza.

Suores frios acompanhavam cada conta do rosário, o Cristo permanecia preso, triste, frio e morto, pendurado.

A noite, Ana passou-a agarrada ao cobertor, arregalada e apoquentada. Ela sentia que algo estava errado e não podia estar mais certa.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço insuficiente, Ana foi rezar junto das outras freiras e reparou que elas não rezavam mas falavam entre si, em desabafos pavorosos. Uma das freiras contava que lhe doía a alma de tanto mal em que nadava. Outra disse que nenhuma reza as lavaria a alma. A mais séria disse que “A culpa não é só de quem consente sem ter mais opção e Deus nos irá perdoar, pois nosso arrependimento é genuíno.”

- Arrependimento?! Que atormenta vossas almas, irmãs? – Perguntou inocentemente Ana.

- Oh! Pobre alma sem salvação, porque se entregou a essa vida? – Disse a Ana e prosseguiu para os céus. – Quantas mais terão de sofrer, Senhor? Quantas mais?

- Irmã! Contenha-se que a pobre veio ao mesmo que todas nós. Servir ao senhor. – Protestou a freira mais séria. – Somos almas salvas pelas nossas intenções.

- De que falam, irmãs? – Ana assustava-se cada vez mais com aquele local.

- Falamos do que se passa dentro desse convento maldito. – A terceira freira apertou as mãos seladas de Ana fitando seus olhos. – Irmã… Fuja antes do anoitecer.

- Adele! Como esperas que ela o faça? – Interrompeu a segunda.

- Irmã Teresa, sabe que temos de a salvar. Olhe os olhos da moça… - Com a mão no queijo de Ana manipulou a sua cabeça para a freira Teresa. - … Tão pura como a virgem.

- Oh! Meu Deus! – Elevou as mãos ao rosto. – Que fazemos?

- Estão a assustar-me irmãs. – Confessou Ana.

- Fazemos a única coisa que podemos, - Falou a mais séria. – rezamos.

- Irmã… Que Deus perdoe a sua hipocrisia. Não vê que ainda há esperança para ela. – Disse Adele.

Ana escutava assustada e sem reacção.

- Que esperança? – Perguntou a freira mais séria elevando a voz. – Tem ela a mesma esperança que nós. Ou dentro de uma semana terá a mesma esperança que todas nós. Nenhuma.

- Oh! – Chorou a freira Teresa. – Oremos.

Ana acatou o conselho como ordem e rezaram todas. As freiras por misericórdia, Ana pelo seu medo ainda lhe desconhecido.

A noite não tardou. Cada uma para seus aposentos por ordem da freira que acompanhou Ana quando chegou.

O gelo dos corredores era perceptível. O terror em cada uma era oculto pela falta de luz. As cruzes estavam na sombra da vela fraca de luz, mas cheia de fogo que havia no altar de reza vã de cada quarto.

A vela de Ana ainda brilhava esperança, ainda se via luz, mas a luz se apagou ao rasgar pela porta. A freira obscura do sorriso banhado de chuva irrompeu a paz.. A vela apagou-se com o vento e Ana foi arrastada para fora do quarto, arrastada pelos corredores, arrastada pelas escadas, arrastada. Foi então que Ana viu as freiras com quem tinha estado naquele dia. Elas estavam sentadas, sentadas com um ar triste e miserável, cabisbaixo e compreensível, pois não estavam sentadas em cima de bancos, mas em cima de homens.

O ar faltou a Ana.

- Veste isso. – Ordenou a malvada da freira que lhe sorriu quando entrou, sorriu porque sentia prazer em enganar e mandar em todas as suas escravas.

Ela tentou fugir, mas foi em vão. Em mais uma tentativa de ganhar tempo, de fugir perguntou onde se podia trocar.

- Aqui mesmo. Esses senhores mal podem esperar por te ver despir esse hábito.

O ar insistia em não entrar nos pulmões de Ana.
Apavorado e em choque forçada a trocar de roupa à frente de estranhos que a comiam com os olhos. Ana finalmente reagiu. O ar entrou em seus pulmões em um soluço que acabou em lágrimas que correram cara abaixo no seu rosto estático.

Um homem a agarrou pela mão e a levou.

Ela tentou fugir, tentou se soltar, tentou se salvar.

O seu desespero, a sua luta.

O brilho dos seus olhos enterrado ao mesmo tempo que um estranho se enterrava em seu corpo.
Publicada por Unknown à(s) 17:44

1 comentário:

Verónica C. disse...

Esse texto é para o filme by moscatel xDDD
Muito original sim senhora (:

Não é veridico, certo? :O

- Bem... gostei de ler mais um texto espectacularmente escrito por ti :b
Lv'YOU xDD <3

8 de agosto de 2010 às 07:39

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