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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Doce Marido Que Matei

Berros logo de manhã.
Dar de comer aos pequenos e afogar-me em café ignorando-os.
O estorva do meu marido é o primeiro a sair e eu que leve os miúdos à escola.
Chego atrasada ao emprego, mais uma vez.
Ouço os berros do chefe.
Trabalho todo o dia, um emprego longe do que sonhei em criança e sem mais sonhos para o futuro.
Um telefonema da escola do meu filho mais novo. Arranjou problemas outra vez.
Claro que sou eu a sair do meu emprego para o ir buscar.
O chefe telefona
Não vale a pena voltares. Tás despedida.
Deixo o miúdo brincar no quintal e fecho-me na casa de banho. Tomo três aspirinas e tomo um duche.
Agora tenho a casa toda para limpar, porque o cão vomitou, as crianças desarrumaram tudo, o maldito do meu marido só sabe deixar marcas da sua existência por toda a casa.
Montes de roupa para lavar. Pergunto-me como é possível sujarem tanta roupa e tanta louça em dois dias.
Faço o jantar, limpo o fogão, ponho a mesa… Há sempre alguma coisa para fazer.
Finalmente sento-me e a porta abre-se.
Chegaram.
Ele foi buscá-los à escola. Sentam-se e comem sem nem Olá me dizerem. Saem da mesa sem sequer me dizerem se estava bom. Cada um para seu canto. A desfazer as camas que fiz à pouco, a sujar o chão que lavei à minutos, a desarrumar os brinquedos que demorei uma hora a arrumar e atirar roupa para o cesto sem qualquer respeito.
Sento-me exausta, frustrada, cansada.
Mãe, vai buscar as bolachas.
Estou cansada. Vai lá tu.
Preguiçosa
A raiva acumula-se. Faltam-me as forças para responder.
Levanto-me e fecho-me na casa de banho. Tomo um calmante.
Vou lavar a loiça e limpar a mesa enquanto vêm televisão e conversam com os namorados e fazem barulho e riem e gritam e discutem e eu não faço parte de nada. Sou a mãe preguiçosa a limpar a porcaria que eles fazem.
Acabei a loiça. O mais novo abre o frigorifico e arranca uma prateleira. O chão tudo sujo.
Grito. Ele começa a chorar e o meu marido manda-me ter calma. As minha filhas chamam-me de cruel. Respiro fundo e volto a limpar.
Finalmente tudo limpo.
Agora anuncio que fui despedida.
Claro que foste.
As minhas filhas mostram o seu desprezo e falta de fé em mim.
Engulo porque não há palavras para descrever como magoa.
Finalmente vou-me deitar. O meu marido chega-se. Digo-lhe que estou cansada e ele sai só falta duas horas depois bêbedo. Nem me dou ao trabalho de perguntar por onde andou.
No dia seguinte o mesmo. Berros, café, aspirina, arrumar tudo, lavar tudo, limpar tudo.
Saio para comprar leite e detergente. Paro para beber mais um café. No café vejo o meu marido a rir e namoriscar com outra mulher. Ali estava ela, linda, solteira, sem filhos, jovem, cheia de energia.
Volto para casa e sento-me na mesa da cozinha há espera dele.
Fico horas sentada, sem pronunciar uma palavra, sem mexer um musculo, sentada a pensar, sentada a remoer, sentada a gritar e chorar por dentro.
Ele entra com as crianças.
Vi-te hoje com uma mulher. Bonita ela. Como se chama?
É apenas uma colega de trabalho.
Costumas tocar no cabelo e na cara de todas as tuas colegas? Eu vi a forma como olhavas para ela. Há anos que não me olhas assim.
Há várias razões para não olhar assim para ti.
Não sou bonita como ela. Nem jovem, nem divertida. Nem uma puta que vai para a cama com um homem casado. Mas há uma coisa que eu tenho e ela não.
Que é o quê?
Vi desprezo nos olhos dele e mostrei-lhe a resposta.
Uma arma apontada a ele. Antes que ele tivesse tempo de falar disparei.
Matei o pai dos meus filhos em frente às crianças.
Gritaram e berraram e vi terror nos seus olhos. Apontei-lhes a arma.
Afastem-se. Para o quarto. Já!
Correram com os olhos em lágrimas.
Disparei contra a minha cabeça e cai no chão.
Sobrevivi.
Os meus filhos me foram tirados e acreditem ou não, na prisão tenho mais paz do que podia desejar.
Descansa em paz meu doce marido.
Publicada por Unknown à(s) 13:49 0 comentários

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Não nteressa no que acreditas desde que acredites nalguma coisa."
Não interessa o que queres fazer, mas o que estás a fazer.
Não interessa quem queres ser, mas quem pensas que és.
Não interessa os teus erros, mas o que aprendeste com eles.
Muda a tua maneira de pensar e estarás a mudar-te a ti mesmo.
Publicada por Unknown à(s) 12:41 0 comentários

sábado, 12 de novembro de 2011

Apaixona-te pelo teu sorriso. Ama-te!

Amor só dói três vezes: quando o perdeste, quando tens medo de o perder e quando tens de o perder.

Por essa razão nunca percas o amor da pessoa mais importante da tua vida:

Tu próprio!

Pensa bem.

Todos os outros podes perder. Muitos vais perder por muito que doa. No entanto, vais ter de te “aturar” para sempre.

Além disso, quando uma pessoa se casa jura fidelidade, lealdade, amor eterno nos bons e nos maus momentos, na pobreza e na riqueza na saúde e na doença até que a morte os separe.

Bem, não devíamos todos ter amor eterno por nós próprios até morrermos? Não devíamos jurar a nós mesmos ser fieis aos nossos princípios e leais às nossas convições? Não devíamos lutar por nos amarmos nos bons e nos maus momentos? Na saúde e na doença? Na riqueza e na pobreza?

Eu acredito que sim.

Acredito que todos nos devíamos casar connosco próprios. Tornarmo-nos na pessoa mais importante das nossas vidas. Fazer de tudo para nos tornarmos um pouco mais felizes a cada dia. Ter gestos bonitos para connosco próprios.

Não digo para te casares com uma pessoa parecida a ti. Não. Nos apaixonamos pelas pessoas que nos oferecem o que nós precisamos e não que são clones de nós. Quero mesmo que te ames a ti e que só depois disso ames alguém que te complete.

Logo, nutre, alimenta o amor que devias sentir por ti próprio.

Afinal, pensa comigo, ninguém tem o mesmo sorriso que tu. Ninguém tem a mesma energia. Ninguém tem o mesmo conjunto de qualidades que tu tens. É um conjunto único de qualidades que só tu tens e só tu podes explorar e fazê-las crescer.

Resumindo: Ninguém é tão bom a fazer de tu como tu próprio. És um ser único na Terra e é essa pessoa que deves amar a cima de todas as outras. A pessoa única e incrível que és.

Não te achas incrível?

Então não te conheces.

Todos os seres humanos têm algo de incrível.

A capacidade de amar, de sentir empatia, de se expressar, de criar arte, de falar, de ouvir, de compreender, de rir. Mais nenhum ser no mundo ri e o teu riso é único. Os seres humanos têm capacidades enormes e incríveis. Por isso se te achas vulgar, comum ou miserável não te conheces.

Por muito bom que seja ter alguém no mundo que nos ame. Que nos ouça. Que nos dê carinho e nos faça sentir especiais, importantes. Que nos faça sentir que a nossa existência é algo vital. Não precisas que seja alguém a fazê-lo. Podes ser essa pessoa.

Podes mimar-te. Podes ouvir-te. Podes amar-te e ter consciência de que és especial e de que és importante e sem dúvida que a tua vida é vital porque as pessoas que sentem tudo isso por si próprias contagiam os outros com a sua felicidade.

Se queres ser feliz tens de primeiramente ser feliz com quem tu és. Com a pessoa fantástica que és e não vês. Precisas mesmo que alguém te diga o quão fantástico és? Viveste contigo toda a tua vida. Superaste coisas que nunca pensaste vir a superar. Venceste batalhas que pensavas que ias perder. Foste tu quem viveu a tua vida e ela tem de ter valor para ti senão de que valeu a viveres?

Bem, devia ser pecado ou até mesmo crime não se amar. Por isso para de contribuir para a infelicidade do mundo.

Se queres que a tua vida mude tens de mudar a tua vida.

Abre as portas às coisas boas do mundo, porque sim, há coisas boas no mundo. Abre-te e apaixona-te, aprende a amar-te e serás uma pessoa muito mais forte. Pois quem se ama não se afoga em magoas: deixa-as ir.
Publicada por Unknown à(s) 11:38 0 comentários

domingo, 6 de novembro de 2011

Sozinhos

No Mundo de Sofia

Dor é o seu interior com apenas nove anos. E toda a dor que sentia era o fardo que carregava. O fardo de crescer depressa demais. Aprender a ser forte cedo demais. Há quem nunca aprenda a ser forte. Sofia aprendeu demasiado bem.

Ódio era o seu pequeno-almoço. Ela saboreava o ódio, mastigava-o e engolia com um sorriso nos lábios. Como quem come uma fatia de bolo de chocolate feito pelo mãe. No entanto, Sofia nunca teve mãe, nunca teve pai, nunca teve irmãos. Nunca ninguém lhe mostrou amor.

Muitas pessoas no lugar dela se tornariam fracas, deprimidas, vulneráveis e revoltadas com tudo e todos. Ela não. Para além da revolta tudo era o oposto. Era destemida, uma guerreira.

Ao contrário do que era de esperar ela sabia chorar. Nunca ninguém lhe viu a cara encharcada ou os olhos inflamados de magoa. Mas ela sabia o que era perder o fôlego, perder a firmeza da voz, perder água pelos olhos.
De perder ela percebia tudo.

Afinal perdera tudo o que tinha e nunca teve nada pois não chegou a criar memórias do que por a natureza lhe deu.

Até o pássaro mais feio e descabelado de uma espécie teve uma mãe e um pai que lhe ensinassem a voar. Sofia nasceu em queda livre e sem lhe darem asas voou.

Apesar de viver na casa do velho mais velho que havia no mundo que ela conhecia ela não sabia o que era um teto. Passavas os dias na mata a explorar. Ali reinava paz. Havia algo de reconfortante em ver as formigas a trabalhar em conjunto; os pássaros a cantarem uns para os outros; os peixes calados a nadar de um lado para o outro sem incomodar nada nem ninguém.

Era diferente do seu mundo onde as pessoas a olhavam de cima abaixo. Uns com pena, outros com desdém. Havia ruídos, murmúrios, maldade, inveja, censuras, intrigas, ganância, egoísmo, ódio e muito mais.

Era raro o dia em que ela se ponha no telhado de uma casa a olhar as crianças brincarem no recreio da escola. Crianças da mesma idade que ela. Claro que ela era diferente. Ela não podia descer e brincar com eles. Ninguém queria a maria-rapaz esquisita por perto.

Nem ela os queria por perto. Eram uma espécie estranha para ela. As meninas a pentear bonecas e falar mal das bonecas das outras e quando chegavam a casa choravam e berravam por uma boneca igual. Os meninos a atirar pedras uns aos outros, traiam os amigos.

Não. Ela não queria fazer parte deles. A vida não a tinha criado para ser assim. Ela era diferente e como tudo o que é diferente, era posta de parte.
No ano seguinte, com dez anos, ela conheceu um rapaz quando andava na mata. Surpresa agarrou num pau e mostrou-lhe que ele não era bem-vindo. Bateu-lhe tanto que os animais fugiram da fera. Ele nem se tentou defender o que a irritou.

- Porque não lutas, idiota? – E atiçou-o com o pau.

- Porque me estás a bater?

- Não és bem-vindo aqui. Desaparece. Sai.

- Não!

- O quê? Qual é o teu problema? Gostas que te batam?

- Não. – E agarrou-a pelo braço e em dois segundos ela estava no chão. – Estava à espera de uma oportunidade para te mostrar isso.

- Larga-me! Idiota! Larga-me, vai-te embora e nunca mais voltes!

Ele riu-se bem alto. Tão alto que lhe alimentou a raiva.

- És tão engraçada. Estás em desvantagem, já reparaste?

E sem dúvida de que estava. Ela estava com a cara esmagada no chão, ele com um joelho nas costas dela a segurar-lhe os pulsos com apenas uma mão. Ele até podia estar a comer uma sandes que não fazia diferença. Continuava em vantagem.

- Espera só um pouco que já vamos ver quem está em desvantagem.

- Gostava de te ver tentar.

Ela sorriu. Claro que ele não viu esse sorriso diabólico porque a cara dela estava colada ao chão.

- Estás a magoar-me.

- Não caio nessa.

- Estou a falar a sério. Estás a magoar-me. Por favor! Sai de cima de mim.

Ele não estava mesmo a acreditar nela. Era mais velho que ela. Não ia ser enganado por uma menina.

No entanto, quando ouviu os soluços dela…

- Estás a chorar?

- Esse é o único sítio no mundo que é meu. Porque me queres tirar isso? Tu tens um lar. Gostavas que fosse até lá, te prendesse ao chão e te fizesse sentir desprotegido? Esse é o meu lar. Por isso sai de cima de mim.

Diante de um discurso desses ele se sentiu um intruso. Não podia negar que se alguém lhe fizesse o mesmo se sentiria mal. Para além disso, uma menina. Ele estava a intimidar uma menina.

- Desculpa. – Saiu de cima dela. – Estás bem? – Ajudou-a a levantar-se.

- Estou! Não preciso da tua ajuda.

- Eu estava só a tentar ajudar.

- Acabei de dizer que não preciso da tua ajuda. Qual é o teu problema? Audição ou inteligência?

- Foi um prazer conhecer-te. – Disse ele desistido de boas maneiras e simpatia.

Virou as costas e foi-se embora.

- Agradecia que não voltasses.

Ele nem se deu ao trabalho de responder.

Em casa não deixava de pensar naquela pirralha malcriada.

“Quem ela pensa que é? Aquilo é dela para ela me tratar daquela maneira? Que miúda de irritante. Só por isso vou lá amanhã. Ela deve achar que manda em alguma coisa.”

Noutra casa à mesma hora Sofia pensava o mesmo.

“Miúdo parvo.”

A verdade é que por muito boa que tenha sido a primeira impressão deles, ele tinha sido a primeira pessoa com quem ela falara em anos para além do velho com quem vivia a quem a última conversa foi “Volta mais cedo que preciso que vás comprar leite” e ela “Tá”.

No dia seguinte lá estava o intruso.

- Que fazes aqui? – Gritou furiosa.

- Não tens nada a ver com isso. – Respondeu indiferente.

- Eu disse-te para não voltares.

- Eu ouvi-te bem.

- Ah! Então sem dúvida que o teu problema é inteligência, ou melhor dizendo, a falta dela.

- Deve ser.

- Sai daqui!

Ele continuou encostado ao tronco, fechou os olhos e sorriu ao de leve.

- Já!!!! Sai!

- Vou ficar por cá mais um pouco.

Ela ficou mais que irritada. Pronta para o matar. Completamente pronta para o matar.

Agarrou-o pela camisa e com a cara a dois centímetros da dele e um milhão de toda a raiva que já tinha sentido na vida e berrou-lhe na cara bem devagar para que ele percebesse cada palavra.

- Essa é a minha mata. Essa é a minha árvore. Esse é o meu chão. Até o ar que estás a respirar é meu. Por isso vais sair daqui a bem ou mal.

- Eu prefiro a mal.

Ela ia bater-lhe mas ele antecipou-se e mais depressa do que um pestanejar lá estava ela de volta ao chão a gritar e contorcer-se. A berrar e espernear. A ferver de raiva, de fúria de ódio.

LARGA-ME

VAIS ARREPENDER-TE
ODEIO-TE

EU VOU MATAR-TE
SOLTA-ME

- Para quieta!

- Eu vou dar cabo de ti.

- Para quieta. Eu não te vou magoar.

- Mas eu vou magoar-te a ti.

- PARA! - Gritou a sacudi-la. – JÁ CHEGA!

- O que queres de mim?

- Quero perceber a razão para tanto ódio, para começar.

- Eu já te disse. Esse é o meu mundo. Volta para o teu mundo reles e deixa o meu em paz. Deixa-me sozinha.

- Tu estás sozinha.

Ela ficou calada.

Os dois comunicavam apenas com olhares. Na verdade, era a primeira vez que viam a cor dos olhos um do outro pois não estavam vendados de raiva.

- Quem és tu? – Perguntou ela.

- O meu nome é Bruno e o teu?

- Sofia.

- Bonito nome.

- Ok.

- Uau. Essa eu não conhecia.

- O quê?

- Normalmente as pessoas dizem obrigada quando são elogiadas.

- Elogiaste o meu nome… Não o escolhi. Não me elogiaste a mim. Pede agradecimentos a quem o escolheu se te faz feliz.

- Caramba, és tão irritante.

- Então porque não me deixas em paz?

- Incomoda-te assim tanto a minha presença?

- Tenho de ir.

- Pensava que querias que eu me fosse embora.

- Mas não está a resultar, pois não?

- E vais desistir?

- Vou-me apenas embora.

- Isso a mim soa-me a desistir.

- Depois vemos isso. Já agora, se estás a pensar passar cá a noite cuidado com as cobras.

- Quais cobras?

E já ela ia longe para responder.

- Aqui não há cobras… - Tentou convencer-se disso e fugiu dali para fora.

Ele voltou no dia seguinte e ela não apareceu. O mesmo no dia seguinte e no dia depois desse.

“Talvez ela tenha mesmo desistido” Pensou.

No quarto dia em que ele lá foi e ela não apareceu ele ficou irritado. Mesmo muito irritado e não sabia porquê.

“Tanta coisa tanta coisa e ela desiste.
- Ai eu não vou desistir; eu sou a dona disso tudo; a dona do mundo; não és bem-vindo.
Tudo conversa. Ela achava que eu ia cair na conversa dela? Que me ia deixar intimidar por uma menina pequenina? Nem em sonhos.”

Nessa noite ele adormeceu ainda irritado sem razão específica. Acordou uma hora mais tarde com frio. Foi fechar a janela.

- Olá.

- Que fazes aqui? – Perguntou surpreendido depois de se virar e a reconhecer.

- Não tens nada a ver com isso.

- Como assim? Essa é a minha casa.

- Pois é. E a tua mãe cozinha bem. Gostei do que ela fez para o jantar.

- O quê?

- Acabei de vir da cozinha. Acho que deixei alguma coisa. Gostas de maça?

- Mas quem pensas que és?

- Fala baixo que os teus pais estão a dormir. Não queres que eles vejam uma rapariga no teu quarto, pois não?

- O que fazes aqui?

- É assim tão difícil de perceber? Estou a fazer-te o mesmo que me fizeste a mim.

- Eu não entrei na tua casa durante a noite, comi a tua comida e fui chatear-te para o teu quarto.

- Foi precisamente o que fizeste. Eu a viver a minha vida e quando dou por mim está um estranho no meu quarto a mexer em tudo como se fosse dele.
Aquilo é meu. Afasta-te da minha mata e eu não volto á tua casa.

E ela foi-se embora sem esperar por mais conversas.

Ele não voltou mais lá. Até que passadas umas semanas a viu em cima do telhado de uma casa a olhar para as crianças do recreio. Algo nisso o tocou. Talvez a solidão dela, talvez a sua própria solidão.

Sim, ele tinha amigos e família. Mas não tinha alguém em quem pudesse confiar. Os amigos o traiam por pastilha elástica, a família, bem, era uma família normal. Nenhum miúdo de doze anos fala com os pais ou irmãos.

Ela era diferente. Como ela própria tinha dito, pertencia a um mundo diferente. Sim, ela o irritava, o deixava doido de raiva. Mas ele não podia negar que não a conseguia tirar da cabeça.

De qualquer das formas, ele foi à mata no dia seguinte na esperança de a encontrar.

Ela estava lá. No lago por debaixo da cascata que se desfazia numa suave ribeira de som hipnotizante. Ela estava a nadar. Assim à distância, calada, não parecia uma pirralha irritante.

Infelizmente ela ouviu um ruído.

- Quem está ai?

Ele não respondeu.

- Eu consigo ouvir a tua respiração. Mostra-te.

- Sou eu. – Apareceu de entre as folhas.

- Outra vez?

- Sim. É verdade.

- O que queres?

- Conversar.

- Comigo?

- Sim.

- Porquê? – Estava admirada.

- Porque estás para aqui sozinha. Então achei…

- Achaste mal. Queres conversa por pena? Acho que não tens apenas um problema. Na verdade acho que só há uma coisa direita em ti.

- E qual é essa coisa?

Ela pensou por um segundo.

- Não. Esquece. Não há mesmo nada que esteja bem.

- É tão difícil falar contigo.

- Então porque tentas?

- Não sei. Apenas quero. E não é tarefa fácil.

- És tão esquisito.

- Fala a rapariga que diz viver numa mata.

- Tens algum problema com isso?

- Não. É a tua casa é a tua casa. Nada contra. Mas é esquisito.

- Uma coisa do outro mundo?

Ele percebeu o que ela queria dizer.

- Sim. Tens razão. Somos de mundos diferentes.

- Que idade tens?

- Hoje faço treze e tu?

- Vou fazer onze.

- Ou seja, tens dez.

- Sim. Tenho dez. Isso também é esquisito?

- Não. Mas não pareces ter dez. A maneira como falas…

- O que tem a maneira como falo?

- Não sei. És diferente.

- Isso é porque não me vês com barbies nas mãos, nem a cobiçar o que é dos outros. Não me vês a ser como o resto do mundo que vive em pecado.

- És religiosa?

- Não. Nem sou santa nenhuma. Só tenho nojo de gente assim. E tu és como eles.

- O que é que eu fiz para pensares isso de mim?

- São todos iguais.

- Estás enganada. Tu vês as coisas de fora. As coisas não são bem assim.

- Então vais-me dizer que no teu mundo as pessoas não são invejosas, maldosas, gananciosas? Vais-me dizer que não passam por cima de quem for para terem o que querem? Que não traem as pessoas que confiam neles? Não mentem? Não magoam? Não são cruéis? É porque eu vejo isso tudo.

- Sim. Há isso tudo e tenho pena que haja. Mas também há coisas boas.

- Como o quê? A comida da mamã? O dinheiro? O álcool e sexo fácil? Olha que nem aliança no dedo, nem idade impede ninguém.

- Não pareces ter dez anos. Tens uma visão tão cínica do mundo. Dizes que vês tanta coisa. Não vês bondade, não vês carinho, não vês honestidade? Nunca viste felicidade e amizade?

- Oh. Existe tanta bondade em passar por um mendigo na rua a pedir uma esmola e a única pessoa que o ajuda é alguém que roubou pão da casa de alguém. E essa pessoa fui eu. E sabes qual a gratidão que recebi? Nada. Pois ele queria era dinheiro.

- Sabes o que é que eu vejo? Uma miúda rejeitada e revoltada com o mundo.

- Não são eles que me rejeitam. Eu os rejeito a eles. Eles não me podem dar nada que queria.

- Não queres uma família?

- O quê? Uma família como a tua? O que é que eles te dão de tão bom que eu possa crer?

- Amor.

- Não. Eles não te amam. És apenas mais uma boca para sustentar. Uma cama para fazer. Mais roupa para lavar. Um miúdo que eles nem conhecem. Diz-me. O que é que eles sabem sobre ti? Sabem o que sentes? O que pensas? O que sonhas? Acreditam em ti? Dão-te apoio? Nada. Eles não te dão nada a não ser a ilusão de que tens muito.

- Ilusão?! Tu tens é inveja porque não tens ninguém. Toda a gente sabe que os teus pais não te quiseram. Não tens nada.

- E, no entanto, tenho mais do que tu.

- Ai tens? O que é que tens?

- Tenho tudo isso. Essa mata, tenho liberdade, tenho a verdade.

- Não tens nada. Tens solidão.

- Que é o mesmo que tu. Estamos todos sozinhos à nossa sorte. Só que eu sei que estou sozinha e tu achas que não estás.

- Tão cínica.

- Dizes isso agora. Quando chegares a casa vais ficar a pensar no que estou a dizer e vais perceber que tenho razão.

Ele não suportou mais aquela conversa idiota, pessimista e cínica e foi-se embora.

Como ela disse durante o jantar ele estava a pensar no que ela tinha dito.

- Eu hoje tive na mata.

- Que foste lá fazer? – Perguntou a mãe.

- Fui ver uma amiga minha.

- Uma amiga na mata?! Deve ser, deve. – Disse a irmã.

- Sim. Ela está sempre lá.

- Filho, o que foi que eu te disse sobre mentir? Mentir é feio. – Disse a mãe.

- Eu não estou a mentir.

- Ninguém vive na mata. – Retorquiu a irmã.

- Vive sim.

- O que foi que eu acabei de dizer? – Repetiu a mãe.

- Eu não estou a mentir!

- Não fales assim com a tua mãe. Pede desculpa. – Ordenou o pai.

- Não. Eu não estou a mentir.

- Vai já para o teu quarto.

- Mas…

- Já!

Ele nem podia acreditar. A família dele não acreditava nele. Ela tinha razão. Eles não sabiam nada sobre ele. Nem acreditavam nele. Nunca o apoiaram na vida. Ele estava mesmo sozinho. Ok, tinha amigos. Amigos que o traiam por pastilha elástica. E quando cresceram o iam trair por dinheiro, por falta de princípios, por vingança ou qualquer idiotice. Estava sozinho. Sempre esteve.

Estava com tanta raiva dela por ela ter razão. Ela tirou-lhe a ilusão que ele tinha. Disse-lhe que o pai Natal não existe. E ele estava com tanta raiva dela porque preferia acreditar no pai Natal que na realidade dura de que tinha menos que ela e ela não tinha nada.

No dia a seguir ele não apareceu na mata. Não queria ir lá. Não queria falar com ela. Estava zangado com ela. Nem no dia depois desse. Se ele nunca mais a visse na vida estava bom para ele. Isso foi assim por coisa de duas semanas.

Ela estava na mata todos os dias e ele não aparecia. Ela estava a estranhar a ausência dele. Nem podia acreditar, mas, sim, ela até que sentia um pouco de saudades. Como era possível? Ele era apenas um intruso, um estranho. Ele fazia parte do outro mundo. O mundo que ela desprezava.
Ela não podia estar com saudades dele.

Mas estava.

Então nessa noite ela voltou a entrar pela janela do quarto dele e acordou-o.

- Olá.

- Que estás a fazer aqui?

- Nunca mais apareceste.

- Pensava que querias que não voltasse lá.

- E porque me fizeste a vontade?

- Que pergunta de estúpida. Deixa-me dormir.

- Não. Hoje sou eu que quero conversar.

- Conversar como da última vez que conversamos? Dispenso.

- Porquê?

- Estás a brincar, só pode. Disseste-me que estamos todos sozinhos. Deixa-me estar sozinho sozinho. E fica sozinha sozinha. Não quero ficar sozinho contigo.

- Mas nós estamos sozinhos.

- Sim eu sei. Mas não temos de ficar sozinhos juntos. Vai-te embora.

- Eu não quero ficar sozinha.

- Lamento mas estás. Não foi o que me disseste?

- Sim. Mas contigo sinto-me menos sozinha.

- Eu não me sentia sozinho e agora graças a ti sinto. Por isso vai ficar sozinha para outro sítio.

- Aposto que te sentes sozinho porque nunca mais apareceste na mata. Sabes que não sou como eles. Tu não és como eles.

- Achas que és muito importante por seres diferente? És apenas uma pirralha irritante que conheci num passeio à mata.

- Ok. Eu vou-me embora. Diverte-te com a tua companhia. – Ela não escondia tristeza.

A tristeza dela o incomodou. O irritou.

Ela estava triste. Ela estava habituada a tristeza. Estava habituada a dor. Apesar disso, dessa vez era diferente. Não era uma dor que ela conhecesse. Não era uma tristeza que ela já tivesse sentido.

Ele a voltou a ver dois dias depois sentada no telhado, com a cabeça encostada a uma chaminé a olhar as crianças a brincar com recreio. Estava triste. Uma tristeza capaz de ferir. Ele nunca pensou que algum dia a visse assim. Não sabia que ela sequer capaz de sentir tristeza.

Continuava furioso. Já nem havia razão para estar furioso ao vê-la assim, mas estava. No entanto, lá foi ele até á mata esperar que ela saísse de cima do telhado e fosse lá ter.

Ela apareceu duas horas depois. Ele estava impaciente.

- Demoraste a aparecer. – Disse ele.

- Tu também. – Sorriu.

Ele nunca a tinha visto sorrir. Era um bonito sorriso. Nunca tinha visto um sorriso assim. Tão real. Tão honesto. Ela não estava a sorrir para parecer bonita, ela estava a sorrir porque lhe apetecia sorrir, tinha motivos para sorrir e esse motivo era ele. Dai aquele sorriso a deixar deslumbrante.

Ele sorriu-lhe de volta. Um sorriso que a fez sentir pela primeira vez na vida que não estava sozinha. Ela tinha acabado de fazer um amigo. Tinha acabado de criar a sua família. Uma pequena e invulgar, mas sua.

Sentaram-se e conversaram. Conversaram por horas. Não interessava o que estavam a dizer. Não estavam a ouvir as palavras. Estavam a ouvir os olhares, os sorrisos, os gestos. Estavam a ler o corpo um do outro. A ler tudo o que eles estavam a dizer. Tudo o que não pode ser dito em palavras.

Por meses que se encontraram todos os dias. Se falhavam um dia ficavam irrequietos, ansiosos por se voltarem a ver. Ela o mostrou toda a beleza da mata. As folhas, os pássaros, os peixes, as flores. Ficavam a olhar para cada coisa como se nunca tivessem visto na vida. Como se nunca tivessem visto uma flor ou uma pedra.

Ele mostrou-lhe todos os sabores. Trazia-lhe comida, sobremesas. Sabores que ela nunca tinha provado. Ela comia apenas frutas na mata e sopas na casa do velho que lhe dava teto por recados. Agora descobriram sabores novos.

Ambos descobriram juntos um mundo novo. Um mundo só deles em que mais ninguém podia entrar.

Descobriram felicidade.

Estava tudo perfeito. Mas a perfeição não existe…

Ele estava á espera dela na mata, mas ela não apareceu.

Ele não sabia onde a encontrar. Não era normal ela não apareceu. O que ele podia fazer?

Ele procurou-a em todos os sítios que ela lhe mostrou e mais. Quase se perdeu. Mas em vez disso perdeu-a.

Todos os dias ele voltava lá à espera dela. Passaram meses e ela não aparecia. Ele nunca pensou que fosse possível, mas ela tinha desaparecido. As lágrimas desceram-lhe pela cara. Onde ela estaria? Que lhe teria acontecido? Ela não podia o ter abandonado. Ele amava-a.

Aos poucos ele começou a aparecer cada vez menos na mata. A esperança começou a desaparecer, o sabor da felicidade desapareceu e agora ele sentia mais dor do que alguma vez tinha sentido. Por fim, ele só ia á mata uma ou duas vezes por ano. Não na esperança de a encontrar, mas porque aquele era o único sitio onde ele tinha sido feliz.

Haviam-se passado seis anos e ele ainda recordava o sorriso dela. Ainda se interrogava do que lhe poderia ter acontecido. Ela não podia ter desaparecido da vida dele. Não o podia ter abandonado sem uma boa razão para isso. Tinha de estar morta. E ele ia rezar a sua morte. Às vezes contava-lhe coisas da sua vida. Falava para o vento na esperança de que ela ouvisse.

Lá estava ele. Sentado à frente da árvore de olhos fechados a contar-lhe como tinha saudades do sorriso dela. “ Ainda me lembro da primeira vez que me sorriste. Dava tudo para voltar a ver esse sorriso.”

- Bruno?

Ele abriu os olhos e procurou aquela voz.

- Sofia?

Ela sorriu com os olhos a encherem-se de lágrimas. Lágrimas já desciam pela cara dele.

- Nem acredito que estás aqui.

- Nem acredito que estás viva.

- Tive tantas saudades tuas.

- Impossível terem sido mais que as que tive.

- Porque nunca me escreveste? Nunca respondeste às minhas cartas.

- Que cartas? Nunca recebi cartas nenhumas.

- Eu escrevi-te todos os dias. Por meses.

- Nunca recebi nada. Pensei que me tivesse morrido.

- Pensei que me tivesses abandonado.

- Nunca.

- Nem eu a ti. O meu tio apareceu um dia e levou-me com ele. – Apertou as mãos dele nas suas. - Não acredito que nunca te deram as minhas cartas…

- Agora estás aqui. O que tens para me dizer? – Perguntou mergulhando nos
olhos dela.

Estavam a centímetros um do outro. Havia tanta coisa que ela lhe quis dizer durante esses anos. Havia, no entanto, apenas uma de que ela se lembrava naquele momento.

- Eu amo-te! – As lágrimas tornaram-se mais espessas.

Ele apertou-a nos seus braços e fez algo que desejava fazer á anos. Beijou-a com todo o amor, paixão, desejo e saudade que tinha. Um beijo que disse tudo o que nunca tinha sido dito. Tudo o que precisava de ser dito.

- Amo-te tanto Sofia!
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sábado, 29 de outubro de 2011

Amor é Uma Droga Pesada

Sim, o amor é como uma droga. Quando estamos apaixonados sofremos inúmeras alterações.

- Batimento cardíaco acelerado

-Temperatura corporal aumenta

-Pressão sanguínea diminui

-Pupilas dilatadas

-Tremor nas mãos

- Euforia

- Ficar o tempo todo a pensar na outra pessoa

-Perder a noção de perigo

-Energia excessiva

-Insónias

-Perda de apetite

- Perda de peso

-Aumento dos níveis de glicose

- Maior imunidade

- Maiores quantidades de adrenalina e cortisol no sangue

Na verdade, a paixão ativa as mesmas partes do cérebro que a cocaína. Chocante, não?

Os cientistas acreditam que quando estamos apaixonados os nossos neurotransmissores de dopamina e norepinefrina aparecem em maiores concentrações. Sendo que a dopamina dá motivação, o êxtase, a “obsessão”, além disso também nos faz perder a noção de perigo. A norepinefrina, que deriva da dopamina, produz energia excessiva, o que pode provocar insónias e perda de apetite.

O tempo da paixão demora de 6 a 48 meses, o tempo necessário para garantir descendência. Afinal, antes de tudo somos animais. Depois desse período nascem sentimentos mais estáveis e permanentes de amor, segurança e companheirismo ou não surge nada, afinal amor é algo que tem de ser alimentado ou morre.

Vou acrescentar que muitos atos de loucura, insanidade, impulsividade e por assim por diante são cometidos por amor. Porque concentramos tantas energias naquela pessoa que somos capazes de quase tudo para a manter nas nossas vidas.

Logo, já estamos a chegar a algum lado, o amor é algo perigoso.

Para além de ser viciante, envolvente e intenso, é perigoso.

É o perigo que todos queremos, apesar de nem todos terem a coragem de fato correr. Nem todas as pessoas têm coragem de se entregar á loucura por medo. De inúmeras coisas: rejeição, humilhação, de serem magoados, de não ser retribuídos, de ser um erro que os faça sofrer.

A verdade é que há erros que têm de ser cometidos e, por vezes, compensam.

Para além de tudo o que foi dito atrás, há outras provas de que o amor é como uma droga. Basta analisar para o fim de uma relação.

Quando uma relação acaba, uma em que o casal estivava apaixonado, entram em abstinência, ou seja, também há sintomas, manifestações físicas da ressaca do amor.

- Raiva

- Procura pelo parceiro

- Aumento do estado de paixão

Essa fase pode durar dias ou meses. Mas quando acaba, quando não têm qualquer contato com o parceiro segue-se

-Tristeza

- Depressão

É um processo de luto. Afinal perdeu-se a pessoa mais importante das suas vidas.
Depois vem a outra fase

- Ódio

- Total distanciamento

Depois de tudo isso pode haver procura de vingança, atos de loucura ou a pessoa segue em frente.

Tendo em conta tudo o que foi dito atrás, sinto que posso afirmar que o amor é a droga natural mais viciante que existe. Uma que em algum ponto da nossa vida vamos experimentar, que vai acabar, como tudo na vida, e depois, que remédio, seguir em frente até cairmos novamente no vício humano de amar.
Publicada por Unknown à(s) 05:43 0 comentários

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Aprender a Ler os Sinais

Imagina o cenário: Conheces alguém, aproximam-se, apaixonam-se, namoram e de repente, sem que te apercebas, o céu está a cair, vocês acabaram.

Lamento informar-te, mas não foi assim tão de repente, tu é que não soubeste ler os sinais que diziam “Estamos por um fio!” e não só não recebeste a mensagem como ainda pioraste tudo.

Pois é…

Eu acredito que se não aprendemos nada com uma relação a próxima vai ser ainda pior. Por isso mais vale pensar nas razões que levaram ao fim da relação e o que podia ter sido de forma diferente. Dai criei essa lista com os sinais que indicam que uma relação vai acabar.

Vou começar pelo básico.

- Rotina.

Uma relação começa a desfazer-se quando cai na rotina.

É aborrecido saber o que vai acontecer. Vão sair, as conversas vão ficando pequenas e aborrecidas e quando damos por nós estamos a pensar na morte da bezerra em vez de estar a viver o momento. Afinal não vamos perder nada.

Solução: Faz alguma coisa diferente, não interessa o quê, acredita. Às vezes basta mudar de cenário.

- Reclamações e exigências.

Foi ele que chegou com uma hora de atraso pela quinta vez ou ela que não fez o jantar porque saiu com as amigas. E dai resulta uma discussão e/ou uma noite com má cara. Um concurso de insultos e lista de defeitos e erros.

Solução: Bem, sinceridade e comunicação são importantes, mas à maneiras de dizer as coisas. Prefere paravas como “Eu sinto isso quando fazes isso” e evite “Tu nunca fazes isso e fazes sempre isso” e jamais diga “Tu és mesmo isso” ofender só vai levar a uma resposta defensiva e não a uma conversa produtiva.

- Proibições

Ele não pode nunca mais falar ou sequer olhar para aquela loira que por acaso é amiga dele desde os cinco anos de idade. Ela não pode chegar a casa depois das onze. Nem pensar em vestir aquela roupa que a deixa tão sexy e nem por sombras ele vai acampar com os amigos.

Solução: Se não gosta que o seu parceiro faça isso ou aquilo diga-lhe. Não ordene.

A pessoa que ama é um pessoa com vontade-própria e você tem de respeitar. Se impuser proibições não vai acabar bem.

Uma reação saudável é dizer-lhe “Não gosto que fales com aquela loira. Ela é linda e sinto-me intimidade.” Ou “Não gosto que chegues tarde a casa, fico preocupado e com um certo receio que conheças alguém.” O seu parceiro pode escolher ou não fazer-lhe a vontade, mas é positivo partilhar as suas inseguranças e com a ajuda do seu parceiro ultrapassá-las.

- As coisas que antes adorava agora detesta

Antes era adorável a forma como ele comia, agora é nojenta. Antes as piada dele tinham piada, agora são ofensivas e de mau gosto. A sua comida era deliciosa, agora prefere comida de cão. A voz engraçada que fazia ou a imitação daquele idiota era motivo para rir, agora aborrece-o e irrita.

Solução: Bem, tenho de te dizer que se agora tudo te irrita é porque alguma coisa se passa. À algum sentimento por debaixo dessa irritação. Essa irritação é um disfarce, uma capa-protetora para algum sentimento mais profundo. Talvez estejas magoado com alguma coisa, pode ser insegurança, ciúme, até inveja. Cabe a ti descobrir o que se passa, lidar com esses sentimentos e seguir em frente.

- Noites frias

Pois é, chega a uma altura em que as dores de cabeça aparecem misteriosamente ou ele está cansado de um dia de trabalho e agora é dormir cada um virado para seu lado.

Isso leva a frustrações, inseguranças, discussões, ressentimento, angústia. Uma coleção de sentimentos negativos.

Solução: Ok, isso é assim, a frequência com que um casal dorme menos um bocadinho por razões intimas e interessantes varia e depende unicamente dos desejos de ambos os membros. Se um membro do casal sente mais desejo que o outro pode-se sentir rejeitado e magoado.

Em termos de cama há muitas inseguranças. As pessoas sentem-se pressionadas para agradar, ou pressionadas para fazer, como se fosse uma obrigação em vez de verem esse ato como um ato de entrega e amor que deve ser desfrutado por ambos.

Esse é um dos assuntos que pode desgastar mais uma relação. Se não estão bem na cama isso vai-se estremecer toda a relação. Por isso mesmo não deixem que fazer amor seja o vosso calcanhar de Aquiles.

A falta de comunicação é das principais causas porque há problemas nesse departamento. Por isso, falem, sem pressões, apenas conversar sobre as suas fantasias, problemas e, é sempre bom, dizer também o que gosta no desempenho do seu parceiro.

- Mentiras

Começa com coisas pequenas. “Estou cansado. Vou dormir.” Quando na realidade vai sair com os amigos. “Não, eu não estou zangada.” quando está furiosa com o que ele fez; “Claro que não me importo.” E é claro que se importa de pagar sempre a parte dela; “Estou doente, fica para outro dia” quando só quer acabar um jogo ou está sem paciência para estar com ela.

Quando à mentiras numa relação as coisas estão mesmo mal. Mesmo que pequenas mentiras. Quando se começa a mentir ao parceiro cria-se um ciclo difícil de quebrar que destrói o respeito, confiança e lealdade para com o parceiro, para além de também ser uma prova de falta de comunicação.

Estão a ser quebrados os pilares de uma relação: Respeito, confiança, lealdade e comunicação. Sem isso, por muito amor que haja, as coisas não irão funcionar, por isso mentir ao seu parceiro é muito destrutivo.

Solução: Se mentiu ao seu parceiro assuma que o fez, demore o tempo que demorar. Não deixe esse fantasma o assombrar e destruir a sua relação. Mesmo que sinta que está a preservar a relação com essas pequenas mentirinhas está na verdade a destruir, a afastar-se e a afastar o seu parceiro.

Se mentiu para proteger o seu parceiro explique-lhe isso, se mentiu para se proteger ou porque não estava preparado para falar sobre algo admita-o. Conte a verdade e explique a razão porque mentiu.

Mentir consegue ser pior que uma traição, pois uma traição tem consequências muito elevadas, dai que haja mais garantias de que não se repita, esconder uma traição já é voltar a mentir.

A meu ver mentir só por si já é traição.

A pessoa que ama é o seu parceiro de vida, por isso seja honesto com ele, deixe-o fazer parte da sua vida ao invés de o excluir e afastar com mentiras.

- Dependência/ Carência

Se o seu parceiro anda recentemente muito carente e dependente, ele pode estar a sentir que o está a perder, que já não é amado. Pode estar desesperado por salvar a relação quando na verdade estará a destrui-la porque quanto mais carente está o seu par mais distante você ficará porque a verdade é que o comportamento do seu parceiro está fundamentada nalguma coisa, certo?

Solução: Veja o que está falhar, o que pode ter sido feito da sua parte para levar o seu parceiro a comportar-se assim, o que falhou na relação para que a sua outra metade esteja tão desesperada por atenção e carinho. É capaz de ser boa ideia falar com ele para descobrir o que se passa. O que cada um sente e que podem fazer para melhorar.

Caso seja vocês que está carente, perceba porquê.

- Desprezo

É mais comum do que pensava, mas quando começam a surgir problemas há pessoas que começam a desprezar o parceiro, a dar-lhe um tratamento de gelo, quase que a castigá-lo por as coisas não serem o mundo cor-de-rosa que era no principio e pelos erros que cometeu.

Normalmente são pessoas rancorosas que se estão a proteger de futuros erros, de futuras possibilidades de ser magoados. Mas essa atitude é das piores que se pode ter numa relação pois vai causar muito angústia e insegurança no parceiro o que só trará aos dois sofrimento.

Solução: Se o seu parceiro está a dar-lhe tratamento gelo explique-lhe que essa atitude só vos afasta e destrói o que há entre vocês. Peça-lhe para refletir sobre as razões que o levaram a afastar-se tanto, porque está a proteger-se ou a castigá-lo dessa forma. Diga-lhe como isso o faz sentir e pensem ambos no que possam ter feito para que possa ter prejudicado a relação.

Ah! Não trate o seu parceiro dessa forma. Quem ama mima, não despreza.

- Desporto

Bem, essa é engraçada. Quando uma relação está prestes a acabar as mulheres começam a praticar desporto, por exemplo, começam a correr quando durante toda a relação ficavam enroladinhas no sofá a ver tv.

Solução: Analisar a relação nos pontos a cima e tente salvar a sua relação.

- A maldição do Outono

A maior parte dos divórcios acontece depois do verão. Deve ser alguma coisa biológica. Os animais acasalam na primavera, alimentam as crias no verão e depois preocupam-se com a sua sobrevivência no Outono. Sabe-se lá.

Mas a realidade é que o verão afasta os casais.

Solução: Se algum mencionar o fim da relação acredite que tem motivos para estar aflito. Talvez seja boa ideia darem um tempo e depois tratar de investir na relação.

Outra opção é analisarem juntos a vossa relação e pensarem nas atitudes que podem mudar para terem futuro.

Por fim, também podem deixar que a natureza decida por vocês e seguirem cada um o seu caminho.

Existem mais razões para uma relação falhar, mas essas são as que conheço, se me escapou alguma depois hei-de editar esse texto.

Vou acrescentar, tendo em conta tudo o que foi dito atrás, que amar é fácil se fugimos quando as coisas complicam. No entanto, não me parece certo atirar pela janela algo tão importante e valioso.

Em suma, não se pode ganhar todas as lutas, mas isso não impede ninguém de tentar, até porque se não lutares por amor, vais lutar pelo quê? Uma casa vazia á tua espera no final do dia?!
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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A Vida Dá Voltas

Sabrina está a andar na rua quando vê o João ao longe.

- João!!! João!!!

Ele olha na sua direção surpreso, reconhecendo a voz que pensava estar esquecida.

- Olá. Estás bom? – Pergunta ela. – É tão bom ver-te. Já faz tanto tempo.

- Sim. É verdade. – Ainda surpreso.

- Então, está tudo bem contigo?

- Sim e contigo? – Pergunta ele com agora um toque dissimulado de tristeza.

- Bem. – Sorriu com um brilho genuíno no olhar. – Vamos beber um café. – Convidou por fim.

- Não sei se posso. Acho melhor ir andando.

- João, hoje é sábado… Tens tempo para beber um café.

Ele lá consentiu.

Sentados na esplanada que costumavam frequentar juntos. Para ela era um reencontro agradável. Para ele como se estivesse a recordar algo que nunca poderia ter de volta, o que lhe causava dor.

- Ao tempo que não vínhamos cá. Foi das coisas que tive mais saudades. Ficar contigo numa esplanada apenas a conversar.

Ele ficou em silêncio.

- O tempo fez-te bem. Estás com bom aspeto. – Disse ela. – E eu? Como estou? – Sorriu esperando resposta.

- Não estás nada mal.

- Nada mal?! Eu acho que estou melhor do que nunca. Não estou a me armar em convencida, só me sinto mesmo bem comigo mesma.

- Ainda bem. – Olhava para as pessoas em volta. Parecia distante.

- Estás a namorar? – Perguntou com um toque de receio da resposta.

- Não… e tu?

- Viúva. – Olhou a aliança do marido num colar ao pescoço e ele reparou que ela também usava uma aliança.

- Lamento. Nem sabia que te tinhas casado.

- Íamos fazer dois anos de casados. Dois anos num casamento parece tão pouco e ao mesmo tempo parece toda a minha vida.

- Acredito.

Fez-se silêncio.

- Faz amanhã seis meses que ele morreu. Acho que isso merece um brinde.

- Um brinde?

- Sim. Quero brindar ao melhor homem que tive a honra de conhecer, a sorte de casar e que me deu o privilégio de ser mãe. Um Brinde ao Nuno e ao Daniel. Não achas que tenho razões para brindar? – Não esperou pela resposta e mandou trazer dois shots.

- Tens filhos?

- Estava grávida quando soube da morte do Nuno. Entrei em trabalho de parto prematuramente e os órgãos dele não estavam suficientemente desenvolvidos. Mesmo assim chamei-o de Daniel e fui mãe por um dia.

- Isso deve ter sido horrível.

- E foi. Chorei de uma forma que nunca tinha chorado na vida. Os pais do Nuno pensaram em internar-me, mas pedi-lhe para ficar na casa deles, a dormir na cama de solteiro dele por uns tempos.

Passada uma semana a chorar, sai da cama, tomei duche, obriguei-me a comer como deve ser, limpei a casa da minha sogra e quando ela chegou a casa à noite tinha o jantar à sua espera e a sua nora de volta.

O Nuno não ia deixar-me desistir. Se ele soubesse que ia morrer e tivesse a oportunidade de me pedir uma última coisa ela me ia pedir para viver, para aprender a ser feliz sem ele.

- Tornaste-te uma mulher incrível.

- Há golpes que a vida nos dá que nos obrigam a ser fortes, mas fortes do que alguma vez imaginamos vir a ter de ser.

- É verdade.

- Então? Que fazes da vida agora?

- Trabalho.

- Em quê?

- Sou arquiteto.

- A sério? Nunca imaginei.

- A vida dá voltas.

- Lá isso dá…

- Tenho o meu carro de sonho, mas soa a tão ridículo dizer que o que tenho de mais precioso é um carro depois de te ouvir.

- De me ouvir? Que me lembre ainda tens família. Eu perdi recentemente a minha.

- Cala-te. Tiveste tudo aquilo com que sonhaste.

- E perdi tudo. Um cego não pode ter saudades de ver se nunca viu na vida. Mas tirar a visão a alguém que já viu todas as cores, formas e sombras, isso sim, é duro.

- E quem me garante que não sou despedido amanhã?

- Podes sempre arranjar outro emprego. Eu perdi as cores. Mas até que tens razão, tem um lado positivo. Eu amei, fui mãe, tive a família perfeita, fui a pessoa mais feliz á face do planeta e ninguém me pode tirar essas memórias.

- Exato.

- E pensar que à cinco anos atrás estivemos nessa mesma esplanada a sonhar com a possibilidade de virmos a ser uma família; Há sonhos que nunca vão passar de sonhos.

- Não digas nunca. Olha que a vida dá voltas...
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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Definição

Um artista é difícil de definir

Um artista sente dor mais dolorosamente

Sente uma tristeza corrosiva

Um ódio alucinante

Uma alegria eufórica

Um artista chora e grita e… sorri

Ser verdadeiramente um artista é amar mais intensamente

Odiar com mais raiva

É sentir tudo mais intensamente mesmo quando não se sente nada

É preencher o vazio com palavras

É conhecer-se melhor através da arte, é reflectir a alma em cada pedaço da sua arte, expor-se

E a cada vez que nos expomos, que alguém absorve a nossa arte, a nossa alma cresce, alimenta-se por ser compreendida, mesmo quando não é

Os grandes artistas são génios extraordinários e idiotas comuns.

Ser um verdadeiro artista significa expor-se a criticas, ferir-se com elas e crescer.

Crescer e evoluir mesmo quando toda a nossa vida está a regredir, a arte só deve ter um caminho a seguir

É preciso aprofundar a nossa capacidade de nos exprimir e expor

Aprofundar o auto-conhecimento

Explorar todos os recantos do nosso ser

Dizer muito em poucas palavras

E apesar de todos os esforços ninguém nunca chega a conhecer-se por completo…

Ser um artista é uma coisa que se é, não uma coisa que se aprende. Estudos e técnicas são meramente complementares e, por vezes, acessórios.
Publicada por Unknown à(s) 15:40 0 comentários

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ódio Aos Fósforos

Não me é permitido sentir raiva?
Não me é permitido sentir raiva sem ser julgada de demente?
Pois sinto raiva. Há ódio em minha alma.

Quem é capaz de amar é capaz de odiar.

Há ódio, raiva e revolta em minha alma

Não me é permitido gritar?
Não me é permitido respirar?

A raiva é ódio que me come a alma, quase me come a carne e não posso gritar de dor?
Raiva é dor.
A dor do ódio, da revolta, da frustração.
Tantas razões podem existir para a raiva, tantas razões podem existir para lágrimas.

Não me é permitido sentir raiva?
É suposto ignorar um dos sentimentos mais corrosivos que existem?
É suposto deixar que me destroi-a o interior?

Não!
Não me podem impedir de sentir!
Não me podem impedir de gritar!
Não me podem impedir de respirar
De me libertar da dor
Da dor da raiva

Pois raiva é dor
A dor de sentir
A dor de ódiar
Uma dor que corrói

Por isso sinto
Por isso grito
Por isso respiro

Respiro muito

Mesmo que cortados em soluços, encho os meus pulmões de ar
Mesmo que cortados em lágrimas meus olhos fulminam

Por fim o fogo apaga-se, o mar acalma-se, as nuvens desaparecem
Por fim posso pensar
Por fim posso saber o porquê de tanta raiva

Não há lume que se pegue sem causa
E não se pega lume a copos de água
Por muito fogo que haja, a água não se incendeia.
Logo em mim estava lenha, carvão e gasolina.
A culpa não é do fósforo
Afinal, se eu fosse água o fósforo nada me faria

Em mim está a culpa da minha raiva
Aos fósforos a atribuio.











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sábado, 20 de agosto de 2011

O Dia Que Nos Espera

Todos os anos comemoro o meu aniversário.

Sempre o fiz.

Dantes fazia enormes festas em que iam todos os meus amigos. Com os anos as festas foram ficando mais pequenas, porque tinha menos amigos para convidar. Até que agora não vejo porque razão continuo a por mais velas no bolo com menos pessoas para partilhá-lo e partilhar mais um ano.

A idade é matreira.

Mal damos por isso mas chega um dia em que já não estamos tão entusiasmados com o futuro, que já não procuramos a felicidade ou um grande amor, que já não temos sonhos que esperamos que se realizem. Chega a uma altura em que percebemos que já vivemos tudo, que nosso tempo já passou.

Nunca pensei que fosse assim que o meu avó se sentisse. Quase vazio. Mas ao mesmo tempo tenho tanto que agradecer. Vejo os meus netos. Jovens admiráveis, inteligentes. Vejo os meus filhos, cada um mais diferente do outro com as suas vidas e as suas escolhas de vida que noutros tempos não aceitaria.

Tenho de agradecer por os poder ver.

Ah! E já vivi tanto. Já vivi o grande amor que todos procuram viver e nem todos conseguem. Já realizei os meus sonhos. Já criei os meus filhos. Trabalhei toda a vida. Tive uma boa vida, no fim de contas.

Mas ninguém quer realmente que a sua vida acabe. Ninguém quer completar todas as metas da sua vida e ficar sem nada. É que agora que fiz tudo não tenho nada. Não há nada que me atice lume.

O que é suposto eu fazer? Esperar pela morte?!

Chega uma altura da nossa vida que a maioria das pessoas que conhecemos morreram. É uma altura triste…

Sabes aquela altura em que os teus amigos começam a ter namoradas? Ou a altura em que os teus amigos começam a casar, ter filhos ou vão para a universidade? Seja como for, as coisas mudam.

Bem, asseguro-te que isso é pior.

Todos os meus amigos já morreram. A minha mulher já morreu. Até o mais filho mais velho morreu, a morte o levou mais cedo. São partes de mim que são arrancadas. Arrancaram-me os braços, o coração, as pernas, a alegria e levaram tudo com eles para a terra.

Agora tenho de andar sem pernas e manter-me vivo sem coração. Tenho de estar nesse mundo sozinho. Afinal, os meus netos não substituem aqueles que perdi.

Como se não bastasse, o meu médico tirou-me o açúcar e o sal. Ora, é suposto eu aceitar que me tirem o sal depois da vida já me ter tirando tanto?

Claro que fico rabugento, claro que me irrito e grito com quem for que me dê mais uma sopa insonsa ou que me tirem o bife da frente.

Nem ver televisão é como antes. Agora só se vê investigações de homicídios e medicina ou então desenhos animados que vendem mochilas de Hannat Montana para salvar o planeta ou alguma coisa parva do género. Claro que se pode sempre optar por ver publicidade, ajuda um velho como eu a adormecer e aos jovens a ficar com os bolsos vazios.

Mas apesar da diferença dos tempos uma coisa é sempre a mesma. Quando se chega a velho, como eu, não sabemos se havemos de ficar gratos por ter vivido tanto ou se ficamos revoltados por já não termos razões para estar vivos.

Não que queira que me tirem os dias que me resta, mas a essa altura da minha vida, em que o passado está tão longe e o futuro não me sorri, quando acordo pergunto-me: Porque estou aqui?

Todas as manhãs volto a acordar e todas as noites continuo sem resposta. Mas não faz mal que não consiga encontrar uma resposta, desde que consiga voltar a perguntar amanhã.

Publicada por Unknown à(s) 10:38 0 comentários

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Lilith

Adão estava sozinho na Terra quando se formou Lilith. Sua primeira esposa. Desdo princípio do casamento houve brigas.

Ela interrogava-o "Por que devo deitar-me em baixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Porque devo ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual."

Ele ripostou: "Eu não vou me deitar abaixo de ti, apenas por cima. Pois estás apta apenas para estar na posição inferior, enquanto eu sou um ser superior."

Lilith respondeu: "Nós somos iguais um ao outro, considerando que ambos fomos criados a partir da terra".

Eles não deram ouvidos um ao outro por isso Lilith abadonou-o. Três anjos a seguiram e ameaçaram afogá-la se ela não voltasse para junto do seu marido. Ela ignorou a ameaça e por isso foi condenada a perder cem filhos por dia.

Depois disso, foi criada Eva a partir de uma costela de Adão. Esta, sim, foi submissa ao seu marido. Deitando-se em baixo dele, abrindo o seu corpo sob o dele e sendo dominada pela sua vontade. Afinal ela não lhe era igual, era-lhe semelhante e inferior, nascida da sua costela.

Lilith juntou-se a um anjo caído: Samuel. Juntos levaram Eva e Adão ao adultério, pois ela não aceitava a segunda mulher de Adão. Assim o homem e a mulher foram expulsos do paraíso. E Lilith passou a perseguir homens infiéis, crianças e recém-casados por vingança.

Na mitologia Suméria e Babilónia ela é associada à Lua, porque tem fases boas e más. Também é associada a Deusas da fertilidade e Deusas cruéis. E na mesopotâmica ficou conhecida como um demónio feminino da noite espalhando o mal e usando a água como portal para o seu mundo.

Com os anos passou-se a acreditar que os filhos de Lilith, os cem filhos que ela perdia por dia, se alimentavam de energias despendidas no sexo e sangue humano, também podiam manipular os sonhos dos humanos. Nascendo então o vampirismo, sendo também culpada da homossexualidade.

Na mitologia Grega Lilith era quem guardava a porta do inferno montada num cão de três cabeças. Denominava-se “A mulher de escarlate” representava a vida noturna e a rebeldia da mulher sobre o homem.

Isso constitui uma prova de que os mitos tornando-a vilã eram devidos à opressão da sociedade fase à liberdade e igualdade feminina fase ao homem ao longo de milhares de anos.

Lilith também ficou conhecida como capaz de castram os homens com a sua vagina, como vingança por ter sido obrigada a ficar por baixo de Adão.

A era contemporânea transformando Lilith numa figura sensual e sedutora através da arte e literatura afastando-a da sua imagem de demónio responsável por pragas, caçadora de crianças, deusa do prazer e de serpente que levou Adão e Eva a comer o fruto proibido.

Por fim, Lilith teve como maior castigo o esquecimento, apesar de toda a difamação.


Bibliografia:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lilith, dia 9-08-2011

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Agarra-te à Felicidade

O passado está no passado por alguma razão.

Não volta.

Não se altera e com o tempo se desvanece.

Por vezes dói quando algo passa a pertencer ao passado. Dói perder algo. Mas a verdade é que não volta.

Aquele amigo que era capaz de te fazer rir a qualquer momento deixou de ser um amigo.

Aquele gelado que o teu pai costumava comprar já não tem o mesmo sabor da tua infância.

De certeza que já perdeste alguma coisa, que alguma coisa mudou.

De certeza que há algo que te trás tristeza lembrar que não volta, que perdeste para sempre.

Mas nem sempre as lembranças nos ferem com a saudade, às vezes é bom lembrar daquele abraço, daquele olhar, das palavras que te deram força. O passado também é uma fonte de força e inspiração.

No entanto, isso não faz com que doa menos lembrar o que perdeste e não volta.

Apesar disso, crescer é bom!

Ou estamos a evoluir ou estamos a morrer. Portanto, evolui, cresce.

As pessoas que vivem no passado geralmente não vêm como têm a felicidade mesmo á sua frente, algumas não a vêm mesmo depois de a perderem porque estão tão concentrados a pensar no tempo em que eram felizes que todas as outras oportunidades de felicidade são invisíveis.

É horrível não ver todas as coisas boas que se tem na vida, não lhes dar valor e ver apenas as coisas que faltam.

Sim, falta um quadro na parede, falta um anel no dedo, falta o que dantes havia. Falta algo. Sim, já percebi, todos já perceberam que falta algo. Mas porque raio tem de faltar algo? Porque estás parado a olhar para a parede vazia? Tens a tua refeição preferida na mesa, o cheiro invade toda a casa, estão contigo as pessoas que fazem parte da tua vida, estão a viver sem ti porque estás a olhar para o quadro que falta.

O quadro está em outra parede, está a decorar outra casa, está a ser admirado por outra pessoa, não está na parede. Enfia isso na tua cabeça e desvia os olhos dessa parede mal pintada de branco com a tinta a descascar e olha para a porra da mesa, para o sofá, para quem está sentado no sofá mesmo ao teu lado.

O mais provável é que só notes que o lugar ao teu lado esteve ocupado quando estiver vazio. É provável que só notes que os teus amigos estiveram a comer na tua mesa notando a tua ausência depois do jantar.

Agora pergunto: queres mesmo continuar a olhar para essa estúpida parede e pensar no quadro que dantes havia? Enquanto sofres com o que perdeste não vês o que tens! Enquanto estás como idiota a furar a parede com os olhos na esperança que o quadro esteja debaixo da tinta branca, tens um balde de tinta no teu colo e um pincel na mesa de café e tu não pintas porra nenhuma na parede vazia.

É frustrante e irritante que não pintes nada, que estejas para ai a gastar oxigénio petrificado, imerso no branco super gasto da parede vazia. É que não te leva a lado nenhum…

O que quero dizer realmente é que sim, eu compreendo. Tinhas tudo. Não podias ser mais feliz. Mas porque não vês que tens algo na tua vida, tens muitas coisas, coisas diferentes, mas coisas que te podem dar felicidade e não as vês.

Desvia os teus olhos do passado e olha á tua volta. Pensa. Há algo que se perdesses te faria sofrer? Tenho a certeza que há. Por isso, porque raio não te entregas a 100% nisso? Por medo de perder? É que se é isso é cobardia e vais-te arrepender. Entrega-te.

O passado está no passado por alguma razão.

Não volta.

Deixa-o onde ele pertence e vive, segue em frente.

Quando vires o quadro na montra de uma loja e não parares para lamentar não teres dinheiro suficiente para o recuperares, ai sabes que estás a viver a tua vida, que estás feliz e as tuas paredes estão cheias de cor.

Agarraste no pincel.
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sábado, 30 de julho de 2011

Caça ao Tesouro

As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, a respiração estava entrecortada em dor e revolta. Sentia-se magoada, abandonada. Encontrava-se em desespero a correr por entre as árvores á procura do seu sítio especial.

Sentou-se no tronco caído, o seu tronco, era como um membro da família, um amigo ou um confidente, era especial para ela. Sentou-se e chorou tapando a cara com as mão em concha deitadas sobre os débeis joelhos cansados.

Um baú velho e estragado pelas chuvas estava a centímetros dos seus pés. Ela tirou da mala um papel e uma caneta e começou a escrever, a contar ao papel fruto das àrvores que a rodeavam o que lhe ia na alma, toda a dor, raiva e desilusão que a feriam por dentro. Parecia sangrar pelos olhos de tão vermelha que estava.

Apetecia-lhe vingar-se nas árvores, bater-lhes, abatê-las, queimá-las, no entanto, limitava-se a escrever. Os movimentos rápidos, ríspidos e profundamente vincados sobre o papel. Os suspiros e lágrimas não paravam a sua mão que remexia sobre a folha. Parecia que deixara a mão em modo automático e ela reproduzia o que lhe ia na alma.

De súbito deixou cair a caneta, a mão desmaiou, o papel caiu-lhe dos joelhos já habituados a servir de mesa. Sónia respirou fundo, fez um esforço tremendo para levantar a mão e com as duas limpou o rosto inundado. Levantou a folha de papel, dobrou-a, abriu o baú completamente recheado de desabafos e guardou mais um.

Passaram-se muitos anos e Sónia visitou aquele tronco caído muitas e muitas vezes até ao dia da sua morte. Morreu de um AVC aos cinquenta e quatro. E por razões que a defunta levou para o túmulo ela deixou uma carta como herança ao filho.

O marido ficou surpreso porque a mulher não lhe tinha escrito nada e ainda mais surpreso por ser tão estranha a carta dirigida ao filho. Afinal nada pode ser mais invulgar que mandar o filho numa busca ao tesouro, embora, de facto, todos sabiam que ela havia escondido os ouros da mãe algures.

O filho, Bruno, interpretou aquela pequena carta como um desafio, levou a carta no bolso do casaco e foi para casa ter com a esposa com quem se havia casados dois meses antes da inesperada morte da mãe.

A esposa, Rita, era uma mulher jovial, aventurosa, contudo, algo desastrada. Mas Bruno encantava-se com o seu jeito desastrado de tropeçar, derrubar... queimar o bolo de anos dele... Achava graça pois ela lidava com esse seu defeito com risos e gracejos.

Apesar disso, nada escapava ao radar de Rita, se ele lhe escondia algo ela sabia antes mesmo dele pensar em esconder. E nessa noite não foi diferente.

Bruno chegou e ela estava a pôr a mesa, ele entrou e ela queimou-se ao agarrar no bule de chá. Ele acudiu-a de imediato. Ela queixava-se de dor ao mesmo tempo que ria para não o preocupar.

- Fica com a mão aqui debaixo dá água. – Abriu a fonte. – Eu vou buscar a caixa de primeiros socorros.

Ele voltou e passou uma pomada na delicada mão de Rita.

- Que se passa? – Perguntou ela.

- O quê?

- Eu conheço essa rugazinha entre as tuas sobrancelhas. – Tocou-lhe com um dedo no local com carinho.

- A minha mãe deixou-me uma carta.

- Posso ler?

- Eu prefiro que seja uma coisa só minha.
Rita ficou quase ofendida por ele a excluir. Tirou a sua mão de entre as dele e envolveu-a ela mesmo na ligadura.

- Eu ajudo-te.

Ela consentiu estendendo-lhe novamente a mão.

- A carta fala sobre o quê?

Ele hesitou.

- Coisas de mãe.

- Bruno…

- Ela… - Suspirou. – Ela escreveu-me uma carta a pedir-me para procurar o tesouro dela.

- Tesouro?

- Sim. A minha mãe foi uma mulher invulgar, excêntrica. Ela escondeu as jóias que herdou da mãe dela em sabe-se lá onde.

- Interessante. Deixou pistas ou um mapa na carta?

- Não, apenas diz que tenho de ir ao “seu sítio especial”. Na carta diz que ela me levou lá em criança, mas não tenho memória disso.

- Convém lembrares-te. Tenho a certeza que ela queria que encontrasses. É a última coisa que podes fazer por ela.

As palavras de Rita repetiram-se na sua mente toda a noite. Mal dormira. Não só de curiosidade, como por conhecer a mulher que estava deitada do seu lado, na certeza que mal ele adormecesse ela ia procurar a carta.

Claro que ele acabou por adormecer. Acordou com a doce Rita com uns olhos super amorosos a olhar para ele e dizer um angelical: Bom dia!

- Bom dia, anjo.

- Fiz-te o pequeno-almoço. Anda para a mesa.

E de pequeno não tinha nada. Panquecas, bolo, sumo de laranja natural, iogurte com frutas.

- Rita, eu não vou comer isso tudo.

- Come o que quiseres, mas não comas demais porque a sobremesa é bem melhor. - Disse sorrindo-lhe com um olhar matreiro.

- Acho que vou passar de vez à sobremesa. – Beijou-a.

Quinze a vinte minutos depois ele começou a comer as panquecas e ela roubou-lhe o iogurte com frutas.

- Eu encontrei a carta.

- Eu já sabia. Não me fazes o pequeno-almoço desde do dia em que te pedi em casamento. Já sabia que havia coisa. – Chateado.

- Eu tinha de ler. Dizes-me algo tão fantástico como uma caça ao tesouro e queres me deixar de fora? Não dá bebé.

- Não venhas com bebé. Eu não te estava a deixar de fora. Nem sei se vou seguir o plano da minha mãe.

- Vais porque aqui diz. – Ela tira a carta debaixo da toalha. – “No teu livro preferido vais encontrar a resposta.”

- Tinhas a carta debaixo da toalha? Nós estivemos juntos em cima dessa toalha?

- Isso não importa.

- Mostra algum respeito pela minha mãe!

- Eu adorava a tua mãe. Por isso é que sei que não podes ignorar essa carta. Ela era fascinante, adorava compreender a mente dela. Por favor, vamos fazer isso.

- Okay. – Consentiu com um suspiro.

- Boa. Adoro-te. – Beijou-o e depois beijou a carta entusiasmada pela aventura.

- Agora dá cá isso. – Tirou-lhe a carta. – Vai-te vestir rápido porque temos de trabalhar.

- Hoje levas-me? – Perguntou num tom neutro.

- Levo. Eu já vi o que fizeste ao teu carro. – Riu-se apesar dos custos que lhe ia causar.

Na hora de almoço dele, bruno esquivou-se e foi até á casa dos pais. O pai não estava por pura sorte, até porque ele não queria falar sobre isso com o pai que estava desolado por ter perdido a mulher que amou toda a vida.

Entrou no seu quarto de solteiro e foi á estante dos livros. Não estava lá. Então lembrou-se que tinha posto as suas coisas de miúdo no sótão e foi á procura da caixa.

Demorou bastante tempo mas encontrou. Infelizmente o pai chegou a casa e ouviu barulhos no sótão, disparou a arma várias vezes pensando ser um ladrão e Bruno acabou por saltar pela janela do sótão.

Mais tarde ligou à Rita a dizer-lhe que não a podia ir buscar porque estava no hospital. Deslocou o ombro quando se agarrou à árvore para atenuar a queda. Talvez se tivesse magoado menos se tivesse simplesmente caído sobre os arbustos.

Rita apanhou um táxi para o hospital contra a vontade do marido e voltaram os dois juntos para casa. Ela toda preocupada, a ajeitá-lo na cama com almofadas. A intenção era boa, mas ela estava a magoá-lo, por fim ele disse:

- Traz-me um chá, se faz favor.

E lá ele empurrou as almofadas e pôs-se razoavelmente confortável. Quando ela voltou ele simplesmente pousou o chá na mesa de cabeceira e estendeu o braço são para que ela se deitasse colada a ele. Ela percebeu a mensagem. Quando ela estava prestes a dormir ele decidiu contar-lhe:

- Trouxe o livro.

- Onde está? – Levantou-se de súbito.

Ele riu-se antes de responder.

- Deixei no sofá por baixo do meu casaco quando entramos.

Ela correu a buscá-lo.

- Vamos lê-lo.

- Estou cansado.

- Por favor.

- Meu sonho, eu quero dormir e sonhar contigo numa praia, vestido apenas…

- Pára. Dispenso saber pormenores desses teus sonhos.

- Esquisitinha. Mas continuas a ser a minha fofinha.

- Oh. Obrigada. Agora vamos ler. – Enroscou-se a ele.

Ele deixou-a ler enquanto tentava adormecer. Não foi difícil consegui-lo, a voz dela a ler-lhe uma história fazia lembrar-lhe os tempos de criança em que a mãe lhe lia aquele livro.

De manhã quando Bruno acordou, Rita estava uma pedra, dormia profundamente sobre o seu ombro saudável com o livro aberto caído sobre ela.
Ele levantou-se com cuidado, fechou o livro e pôs-lho sobre a mesa de cabeceira. Ela acordou quando ele saiu da cama.

- Bom dia!

- Bom dia, anjo! Estavas adorável a dormir.

- Linda. – Disse com ironia. – Vou arranjar-me.

- Passaste a noite a ler?

- Sim. – Respondeu enquanto se vestia. – Não encontrei nada até agora.

- Talvez a minha mãe só quisesse que eu recuperasse essa parte da minha infância e o sítio especial seja a infância.

- Amor, o que estás a dizer não faz grande sentido. Se ela escondeu jóias tens de as encontrar.

- Só estás a pensar no dinheiro. Eu preferia que a minha mãe me tivesse deixado algo mais profunda que isso.

- Não percebes? Eu estou fascinada pela aventura. Estou curiosa sobre o que vai acontecer. – Parou de se vestir e fitou-o nos olhos.

- Eu preferia que tivesses mais interessada no facto de eu ter perdido a minha mãe.

Ela calçou as botas.

- Não me pareces muito perturbado.

- Que queres dizer com isso? É a minha mãe, só se tem uma na vida e eu adorava a minha.

- Desculpa, doce. Olha, vamos esquecer essa caça ao tesouro por completo até te sentires preparado.
Ele agarrou no livro e disse:

- Isso é uma coisa minha. Deixa tratar disso sozinho.

Ela ficou a remoer de raiva.

- Okay. – Saiu do quarto.

Há noite era visível o clima de tensão. Ela no balcão da cozinha a navegar na Internet e ele sentado no sofá a ler o livro e tirar notas e mais notas á medida que ia lendo.

Um sentimento desagradável percorria as veias de Rita. Estava furiosa e magoada. Ninguém o podia ajudar mais que ela. Para além disso, nunca antes ele a tinha excluído de algo. Partilhavam tudo. Eram a sua principal característica como casal.

Passaram dois dias e o clima era o mesmo. Andavam a deitar-se a horas diferentes e evitavam tocar um no outro durante toda a noite. Achavam que o outro estava a exagerar na reacção.

Há uma mania muito má em culpar o outro pelos males da relação, quando na verdade, a culpa costuma ser dos dois. Ele estava de luto e queria aquele restinho da mãe só para ele e ela sentia que o marido a estava a dar um empurrão e isso magoava-a.

Claro que na cabeça dele ela estava a ser infantil e na cabeça dela ele estava a ser insensível. O cliché do costume. Por alguma razão as pessoas não conseguem ver os passos que deram, só vêm os passos em falso que o parceiro deu. Seria mais útil deixarem a culpa de lado e concentrarem-se no que interessa.

Foi o que aconteceu na terceira noite.

Rita estava completamente convicta de que a culpa de estarem tão afastados era de Bruno. No entanto, estava com saudades de dormir abraçada a ele e de ouvir um bom dia suave e carinhoso em vez de seco se existisse, por isso, aproximou-se de Bruno com uma caneca de chá.

- Não quero, obrigada.

Ela pousou a chávena mesmo assim e sentou-se ao lado dele.
Bruno agarrou nas folhas e levantou-se.

- Espera! – Segurou-o pelo braço. – Desculpa.

- Achas que uma palavra resolve tudo?

- É uma palavra mágica. – Olhou para ele com esperança.

- Rita, eu não quero partilhar isso contigo.

- Okay. Eu não me importo. – Claro que se importava, mas queria o marido de volta. – Podes fazer o que estás a fazer quando quiseres, mas por favor, - Olhou-o com uma doce tristeza nos olhos. – Vamos parar com isso.

- Isso o quê?

- Essa linha de tensão entre nós.
Ele sentou-se e pousou os papéis na mesa.

- Rita, eu não acredito que ela morreu. – Finalmente saíram as palavras que lhe torturavam o coração.

- Eu lamento muito Bruno. – Aproximou-se dele e sem ter de dizer nada ele deixou cair a sua cabeça no peito dela.

Ficaram assim abraçados pelo que pareceu a eternidade e depois ela convenceu-o a ir para a cama. E nada sela melhor um tratado de paz num casal como uma noite de amor.

Pela manhã, a irmã que ele não vê à anos bate-lhe á porta como se fugisse de um incêndio. Abriram-lhe a porta com admiração.

- Olá irmãozinho. Estás com bom aspecto, ela anda a tomar bem conta de ti, não é? Bem gira. – Olha-a de cima a baixo.

Rita faz o mesmo. Olha aquela criatura de cima a baixo. Roupas extravagantes e cabelo rebelde, radical e algo ridículo. A mascar uma pastilha que a deixava com a boca azul. Rita não simpatizou com a nova parente.

- Que fazes aqui?

- Recebi a carta da mãe. Bom saber que ela não sofreu na hora de bater a bota, não achas?

- O que diz na tua carta?

- Muita coisa. Uma delas é que eu devia procurar-te porque tens a primeira pista. Já agora, eu tenho a segunda.

- Qual é?

- Dá-me o livro que já te mostro.

Ele entregou-lhe o livro e ela com um canivete que tinha no bolso assustou Rita por acidente e cortou descolou a folha de contra capa de propósito.

- Olha só.

E ali estava o mapa desenhado à mão com uma precisão inacreditável. Ele sabia que a mãe tinha tido aulas de desenho, mas não fazia ideia de que era tão boa. Ficou apaixonado pela firmeza e suavidade de cada traço, algo difícil de descrever.

- A tua mãe viu muitos filmes em vida.

- Na verdade ela contava-nos uma história sobre dois irmãos que encontraram num livro um mapa e foram juntos em busca de um tesouro. Como era a história?

- Eu lembro-me da história, por isso é que sabia onde estava o mapa.

- Não foi a pista que a mãe te deu?

- Irmãozinho, na minha carta devia falar o mesmo que a tua, apenas no livro. Eu lembrei-me de quando a mãe nos lia a história mudava. Era a mesma história, mas crescia cada vez que ela nos lia.

- Bem, eu não me lembro disso.

- Eras uma formiga.

- Do que te lembras?

- Ela falava num sítio mágico onde quem lá entrasse abandonava tudo o que era mau, ficava puro. Mas para isso era preciso tocar na árvore mais velha.

- Ou seja, é provável que seja uma mata ou bosque.

- Ou um jardim. Lembrei-me que ela nos levava a um jardim.

- Não bate certo com o mapa.

Rita interrompeu o diálogo para olhar o mapa.

- Tem de ser algum sitio perto de vossa casa.

- Porque dizes isso? – Perguntou Bruno.

- Olha isso aqui?

- Uma cama! – Afirmou.

- É claro. Começa no sitio onde ela nos contava a história. Temos de ir lá. – Disse a irmã.

- Não. Não quero que o pai se envolva. Ele ficou de rastos por a mãe nos ter escrito e não ter deixado nada de valor sentimental para ele.

- Eu distraio-o. – Ofereceu-se Rita numa tentativa de entrar na caça.

- Sim. É uma boa ideia. – Concordou a irmã.

Rita começou a sentir alguma simpatia por ela.

- Eu não sei se é boa ideia. – Hesitou Bruno.

- Bruno, pára com isso. Ela trata do pai.

- Cecília, tu não dás ordens. Pára de tentar.

- Seja como for. Vamos. – Ordenou Cecília.

- Hoje é sexta-feira. Nós temos de trabalhar. – Disse Rita.

- Tu, talvez, mas eu estou de baixa por causa do ombro.

Rita ficou furiosa. Contrariada lá foi trabalhar.

Há noite o marido não estava em casa.

Ela preocupada ligou-lhe vezes sem conta até por fim ver o bilhete no
frigorifico: “Sai, Volto mais tarde.”

Que invulgar. Nunca antes ela tinha chegado a casa sem ele a esperar. Não gostou nem um pouco da situação. Estava curiosa e algo irritada por mais uma vez ela estar a ser excluída.

Ele chegou tarde. Duas da manhã. Ela acordada, já tinha ligado para o hospital e até para a polícia.

- Onde estavas?

- Estive com a minha irmã.

- Tu estás bêbedo.

- Só um bocadinho.

Ela não quis ouvir mais nada. Foi para a cama.
Por essa altura uma questão se exaltava na mente: “O que nos está a acontecer?”.

Era óbvio que ele estava diferente. A morte da mãe o afectara mais do que ele imaginava. Pequenas coisas na mulher o faziam lembrar a mãe e ele afastava-a.

Porém, na manhã seguinte, já sóbrio, Bruno acordou e Rita estava a comer com uma cara de exaustão, própria de quem dormiu pouco e mal.

- Desculpa-me.

- Não me voltes a fazer isso. Fiquei preocupada.

- Não via a minha irmã há muito tempo.

Ela não quis dizer nada. Sentou-se no colo dele abraçando-o e beijou-o suavemente.

- Estava com saudades disso. – Disse ele.

- Eu também.

Seguiu-se um daqueles momentos em que ninguém diz nada mas estão a dizer tanta coisa nesse silêncio. Algo como “amo-te”, “quem me dera que esse momento nunca mais acabasse”, “estás tão linda como no dia em que te conheci”. Tudo sem a necessidade de usar palavras.

Um olhou o relógio e era uma maneira quase rude de dizer “desculpa arruinar esse momento, mas temos de ir trabalhar.”, mas não foi. Em vez disso depois de olhar o relógio ambos sorriram porque era sábado e tinham tempo para voltar para a cama.

Depois disso ficaram a falar, a sussurrar entre as paredes do quarto o que iam fazer naquele dia.

Rita foi buscar o mapa e pôs-se a analisar.

- Sabes, esse símbolo não me é estranho. – Aprontou para a figura.

- É a marca de um carro.

- Faz sentido. – Riu.

- O que significa?

- Não faço ideia.

- Isso não é resposta que se dê.

- Eu não sei. Depois tento perceber. Agora põe isso de lado vamos dormir um bocadinho.

- Estás de ressaca?

- Não fazes ideia de como a minha cabeça está.

Ela sorriu e deixou-o dormir enquanto pensava sobre o mapa.
Na semana que se seguiu não falaram uma única vez sobre o assunto, nem mesmo quando Cecília parava lá em casa e tentava falar sobre isso. Eles simplesmente não queria pensar no assunto por uns tempos.

Contudo, no sábado seguinte depois de Rita acordar um pouco mais tarde que o habitual, Bruno estava de roda dos seus papéis e notas. Coisas de que se lembrava ou coisas que lhe pareciam relevantes.

Rita decidiu espreitar. Ele não a impediu. Estava perdido sem saber que direcção seguir. Ele queria muito satisfazer a última vontade da mãe e sabia que a mãe o tinha desafiado a ele e à irmã por alguma razão, uma boa razão.
Sempre fora uma mulher que pensava em cada passo que dava. Educara os filhos com exemplos reais e a deixá-los cometer erros para depois os corrigir e ensinar o que estava certo e o que estava errado e por vezes admitia que era ela quem estava errada.

Ele recordava de todos os pormenores característicos da mãe. Inclusive como ficou chocada quando ele anunciou o casamento, mais por medo de ver o filho crescer tão depressa que por desgostar da nora. Na verdade, simpatizava bastante com ela, fazia-a lembrar-se de si em nova.

Rita ao olhar para aqueles papéis viu um certo desespero, nunca tinha visto Bruno assim antes. Ele anotou coisas como o que a mãe fazia para comer aos fins-de-semana, o que disse numa ou outra conversa casual. Quase suava a obsessão, mas ambos sabiam que era pura saudade.

- Bruno, não vejo nada aqui de útil.

- Tem de ter alguma coisa. Eu tenho de me lembrar de alguma coisa. Tenho de me lembrar. – Manifestava verbalmente o seu desespero.

- Se calhar era boa ideia ligares á Cecília. Ela é mais velha, tem mais memória da vossa infância. Tu eras pequeno demais.

- Não! Eu tenho de descobrir isso antes dela.

- Tenho a certeza que a vossa mãe não queria que competissem.

- Mas eu quero!

- Porquê?

- Porque sim.

- Bruno, fala comigo.

Ele suspirou.

- Eu vou ligar-lhe.

- Mas não ias competir?

- Eu… Olha… Doce, eu não sei o que estou a fazer. Só quero acabar com isso.

Ela não disse mais nada. Apesar disso, pressentia que quando acabasse ele ia sentir-se algo desiludido por não ter mais nada que mantivesse a mãe viva. Afinal, de certa forma, era isso que ele estava a fazer. A pensar nela constantemente, a repetir as suas palavras e tentar copiar a sua maneira de pensar.

Ele lá ligou á irmã e talvez se venha a arrepender disso pois ela é extremamente inteligente ao contrário do que o seu aspecto possa dizer e essa caça ao tesouro ia acabar em breve e em breve ele ia perceber o propósito de tudo isso.

Foram até casa de Cecília e a sua casa estava bem a propósito da sua imagem. Parecia uma casa de bruxas ou amaldiçoada. Os olhos de ambos pareciam procurar um caldeirão e um livro gordo e velho.

Sentaram-se no sofá duro como tudo e iniciaram a conversa.

- Estou a ficar doido. Temos de perceber o que ela nos quis dizer.

- Será que algum de vocês me poderia deixar ler a carta?
Cecília respondeu “claro” enquanto Bruno mostrava-se hesitante.
A carta de Cecília foi entregue a Rita:

“Querida Cecília,

Não tenho muito a te dizer pois toda a vida disse-te o quanto tenho orgulho em ti. És incrivelmente inteligente e confio na tua inteligência para encontrares o meu tesouro.

É o que pretendo que faças por mim. Encontra o tesouro. É maior do que pensas e peço-te que o faças por mim e não pelo dinheiro. Escondi-o no meu sítio especial. Encontrarás o que precisas para o descobrir no teu livro preferido.

Despeço-me dizendo-te apenas que foi um prazer ser tua mãe e fazer parte da tua vida até este momento em que tive de partir. Não é um momento para tristezas, pois toda a gente tem o seu dia e o meu já foi.

Com muito amor
Mãe.”
- Realmente ela não deu muitas pistas…

- Foi o que disse. – Resmungou Bruno.

- És capaz de parar com isso? – Disse Rita.

- Não te pedi para vires.

- Outra vez isso?

- Hei, meninos, o infantário acabou. Não é ela a mulher que amas? – Nem esperou pela resposta. – Partilhas a cama não vejo porque não possas partilhar uma coisa em que de facto precisas dela.

Ele não se atreveu a contestar.

- Voltando ao que interessa. No livro só encontrei o mapa. – Disse Cecília.

- Bem, eu posso ter encontrado qualquer coisa. – Informou Rita.

- O quê?

- Bem, pode ser que esteja errada, mas no livro tem um homem que conduz um carro antigo, ele é simpático e fica de olhos nas crianças enquanto brincam. Reparei que o símbolo do carro é parecido ao do mapa.
Bruno abriu o livro e confirmou.

- Sim, tens razão.

- Volta a me descrever o dono do carro. – Pediu Cecília com um olhar desconfiado.

- Ele vigia as crianças, toma conta delas e segundo o que percebi ele era um soldado ou algo do género. É um homem…

- Espera ai, eu já percebi! – Exclamou Cecília.

-Percebeste o quê? – Perguntou bruno.

- Soldado, carro antigo, vigia as crianças e sabes que mais, ele também é um homem bondoso e corajoso. Quem é que a mãe descrevia assim?

- O pai, é claro. Como não vi isso antes?
Então finalmente falaram com o pai. Mostraram-lhe a carta e ele ficou emocionado ao ouvir na sua mente a voz de Sónia, a sua amada.

- O sítio especial dela. Ela mencionava-o muitas vezes nas cartas que me enviava quando estava no serviço militar longe de casa.

- Algum dia disse onde ficava?

- Queria eu. Era o segredo dela. Nunca lá ia quando eu estava de licença. Nesses períodos estávamos sempre juntos. Estar afastados nos obrigava a nos redescobrir e reconquistar de todas as vezes. Passei toda a vida a redescobrir a vossa mãe e de todas as vezes tinha uma agradável surpresa.

- Pai, no livro fala de um ex-soldado com um carro antigo e a descrição da psicológica dessa personagem encaixa com a descrição que a mãe fazia de si. – Explicou Cecília. – Não há nada que nos possa dizer que nos possa ajudar?

- Desculpem, mas não faço ideia. Ela sempre fez disso um enorme segredo. Eu até que gostava disso, dava-lhe mistério, tornava-a fascinante.
- Ninguém a conheceu melhor que o senhor. Olhe para esse mapa. – Pediu Rita.

- Onde vocês encontraram isso?

- No livro. Porquê?

- Eu conheço esse sítio aqui. Apontou para um portão. É na nossa antiga casa.

A partir dai o caminho ficou mais fácil. Encontraram o portão, passaram pelo ferro-velho que fazia sentido com o sinal de um carro, passaram por um cruzamento e foram parar a um pequeno mato.

Perderam-se em vinte segundos, deve ser um recorde. Cecília estava irritada, Bruno desiludido e Rita com frio e fome. Okay, todos tinham frio e fome.

Continuaram a andar dessa vez á procura de uma saída, de som de carros ou de agia, alguma coisa que os ajudasse a sair dali ou pelo menos a sobreviver.

Já estava arrependidos de se meter nessa aventura e zangados uns com os outros porque a fome tem esse efeito nas pessoas, deixa-as irritadas. E para melhorar tudo o ombro de Bruno estava a doer e Rita tropeçou num tronco e magoou-se no tornozelo.

Ficaram ali sentados a pensar no que iam fazer a seguir. Falaram, gritaram, culparam-se uns aos outros. O habitual. Depois acalmaram-se e conversaram toda a noite. Estava escuro e frio, mas estava todos juntinhos e os risos dava alguma luz ao lugar.

De manhã quando acordaram Cecília já estava acordada, estava com um papel na mão, estava a lê-lo e estava emocionada.

- O que é isso? – Perguntou Bruno.

- São cartas. Montes e montes de cartas da nossa mãe.

- O que dizem?

- São cartas que ela escrevia quando o pai tinha de voltar ao trabalho militar, cartas em que ela conta o como era difícil ser-se mulher de um soldado. Quando ela ouviu na rádio sobre dezenas de mortes ela imaginava que o pai podia ser um entre aquelas dezenas de soldados mortos, apenas mais um corpo vitima da guerra.

- É esse o tesouro? – Perguntou Rita num tom neutro.

- Sim. E naquele pequeno baú também tem jóias, tudo em ouro e parece-me que tem algumas pedras preciosas, não são muito grandes, mas são jóias clássicas, valem, de certeza, imenso. Mas essas cartas… O pai tem de as ver.

- E saber o quanto a mãe sofreu por ele?

- Saber o quanto o amava.

- Não!

- Deixemos que seja ele a decidir. Além disso, ainda não descobrimos como sair daqui.

Felizmente o pai deles sabia que estavam na mata e calculou que estivessem perdidos, mandando assim uma equipa de resgate.

Foram encontrados e explicaram aquele ex-soldado, viúvo, o que continha no baú. O velho ficou chocado, emocionado, em alegria ou tristeza, quem sabe, nem ele sabia ao certo.

Abriu a caixa e quase sentia o perfume da mulher. O perfume não estava lá, era a lembrança que lhe parecia tão viva que o nariz lhe cheirava a presença.

Tocou com os dedos sobre as páginas e páginas de cartas. Apenas para sentir a profundidade das letras, a intensidade da escrita. Encostou uma carta junto ao peito e conteve uma lágrima de saudade.
Olhou as jóias e sorriu ao de leve.

- Aqui está o tesouro que ela escondeu toda a vida. Mesmo quando estava a
passar maus bocados comigo fora e a comida já faltava, ela nunca mexeu num só broche da mãe, nem um brinco. Está aqui tudo. Bem que ela podia ter vendido isso e ter tido uma vida melhor, mas ela bonita como era também podia ter casado com um homem que lhe desse melhor vida e aqui está a prova de que me escolheu a mim. – Mostrou a aliança no dedo.

- Então, pai, - Perguntou Bruno. – Vai ler as cartas?

- Não. A tua mãe sempre foi uma mistério para mim, quero que continue assim. Façam com isso o que voz apetecer. Só há uma coisa que quero daqui. – Agarrou num gancho de cabelo. – A vossa mãe usava isso no dia em que nos conhecemos. É a única coisa que preciso dela.

Não podia o homem ter feito melhor escolha.

Três meses depois um livro foi publicado: “A Mulher Do Soldado” em que foram publicadas as cartas de uma esposa que vivia em agonia receando perder o seu marido e do pai dos seus filhos.

Quanto às jóias, ninguém sabe do paradeiro. Mas de certo que estará num sítio especial.
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domingo, 19 de junho de 2011

Em Busca de Amor

Sim, digo que sim a tudo, a tudo o que ele quiser. Ele mande que eu faço, faço com gosto, faço com muito gosto.

Não sou a sua esposa. Nem a namorada. Sou a amante. Não que ele seja casado, mas eu sou o tipo de mulher que gosta de agradar e que sabe como agradar um homem. Entrego-me a um homem com todas as energias do meu ser, entrego-me às suas ordens, desejos, fantasias e até antecipo os seus pedidos. Sou a que os faz descobrir prazeres nunca antes sentidos.

O meu nome? Um homem que me tenha tido nunca esquecerá o meu nome, nenhum alguma vez esqueceu. Impossível esquecer o nome que chamaram tantas e tantas vezes, que imploraram por mais sem necessidade, apenas para agrado dos meus ouvidos.

Sou aquela que está ao balcão com o vestido vermelho. Aquela que os rapazes colam os olhos. Quase que sinto as suas mãos a percorrer o meu corpo em pensamento.

Sou aquela a quem os estranhos pedem ajuda para encontrar as chaves do carro e acaba por as encontrar na minha cama.

Bem, mas há uma história que quero contar. Chega mais perto, pois vou falar bem baixinho e devagar para que ouças tudo o que tenho para dizer.

Lembro-me claramente do momento em que passei de namorada, para amante. Antes eu não vias as coisas dessa forma. Contundo, certas coisas nos marcam para vida.

Eu estava a viver o amor da minha vida. Ele fazia-me sorrir com tanta facilidade, sentia-me tão bem com ele, pensava nele todos os dias, várias vezes ao dia, era tão necessário para mim pensar nele como comer. Era aquela coisa boa na minha vida que eu queria preservar.

Ainda assim, não foi possível preservar o que havia de bom. Não por nossa culpa, por culpa de terceiros. Culpa da maldade, da nojeira que mudou a minha vida irreversivelmente.

Nós fomos para o campo, um sítio lindo, calmo, aparentemente, seguro. Fizemos um piquenique. Ainda me delicia o som dos nossos risos misturados no meio das nossas brincadeiras parvas com a comida.

Acabamos de comer, os risos deram lugar a olhares de carinho e desejo, as brincadeiras deram lugar a toques e beijos. Estávamos só nós ali e no calor do momento quem se põe a pensar? Estávamos a viver um dos momentos mais bonitos da nossa relação.

Infelizmente esse momento foi manchado para sempre…

No calor e entrega do momento ouvimos alguém. Separamos os nossos corpos e ficamos alerta. Eu estava assustada e segurei firmemente no braço dele. Ele olhava em redor, igualmente assustado, embora me tenha parecido que estava mais preocupado comigo que com ele, afinal, protegeu-me nos seus braços e disse que estava tudo bem.

Apesar das suas palavras, a tranquilidade durou pouco.

Olhei por cima do ombro dele e vi um homem. Dei um pulo de susto, mas nem tive tempo de gritar, ele puxou o Rodrigo pelo braço e o apunhalou. O som de dor que ele tentou conter foi uma facada em mim. Gritei de dor pelo seu sofrimento.

Sabia que devia fugir, mas estava congelada, colada ao chão na impossibilidade de o abandonar e, logo de seguida, na impossibilidade de me soltar das mãos daquela coisa, daquele bicho, pois homem não era, era um bicho.

Fui atirada ao chão.

O Rodrigo ainda estava vivo. Conseguia ouvi-lo respirar a grande esforço e tossir, ele estava a tossir, a tossir sangue, a esvaziar-se pela ferida e pela boca, a boca que minutos antes me beijará e antes disso sorrira para mim.

Tentei me soltar, gritei pelo Rodrigo, gritei tanto o seu nome, implorei tanto que não morresse, implorei tanto que aquele monstro me largasse, lutei por mim, lutei por ele, mas foi inútil.

O grande amor da minha vida não apenas morreu diante dos meus olhos, como a última coisa que viu nessa vida foi a pessoa que mais o amava e que ele mais amava a ser de outro contra a sua vontade, a gritar, a sofrer e ele impotente, morrendo com a sua e com a minha dor a lhe pesar na alma.

Nunca consegui amar verdadeiramente outro homem. Limito-me a me entregar a quem me quiser numa busca inútil por um amor que não posso recuperar.
Publicada por Unknown à(s) 15:41 1 comentários
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