Berros logo de manhã.
Dar de comer aos pequenos e afogar-me em café ignorando-os.
O estorva do meu marido é o primeiro a sair e eu que leve os miúdos à escola.
Chego atrasada ao emprego, mais uma vez.
Ouço os berros do chefe.
Trabalho todo o dia, um emprego longe do que sonhei em criança e sem mais sonhos para o futuro.
Um telefonema da escola do meu filho mais novo. Arranjou problemas outra vez.
Claro que sou eu a sair do meu emprego para o ir buscar.
O chefe telefona
Não vale a pena voltares. Tás despedida.
Deixo o miúdo brincar no quintal e fecho-me na casa de banho. Tomo três aspirinas e tomo um duche.
Agora tenho a casa toda para limpar, porque o cão vomitou, as crianças desarrumaram tudo, o maldito do meu marido só sabe deixar marcas da sua existência por toda a casa.
Montes de roupa para lavar. Pergunto-me como é possível sujarem tanta roupa e tanta louça em dois dias.
Faço o jantar, limpo o fogão, ponho a mesa… Há sempre alguma coisa para fazer.
Finalmente sento-me e a porta abre-se.
Chegaram.
Ele foi buscá-los à escola. Sentam-se e comem sem nem Olá me dizerem. Saem da mesa sem sequer me dizerem se estava bom. Cada um para seu canto. A desfazer as camas que fiz à pouco, a sujar o chão que lavei à minutos, a desarrumar os brinquedos que demorei uma hora a arrumar e atirar roupa para o cesto sem qualquer respeito.
Sento-me exausta, frustrada, cansada.
Mãe, vai buscar as bolachas.
Estou cansada. Vai lá tu.
Preguiçosa
A raiva acumula-se. Faltam-me as forças para responder.
Levanto-me e fecho-me na casa de banho. Tomo um calmante.
Vou lavar a loiça e limpar a mesa enquanto vêm televisão e conversam com os namorados e fazem barulho e riem e gritam e discutem e eu não faço parte de nada. Sou a mãe preguiçosa a limpar a porcaria que eles fazem.
Acabei a loiça. O mais novo abre o frigorifico e arranca uma prateleira. O chão tudo sujo.
Grito. Ele começa a chorar e o meu marido manda-me ter calma. As minha filhas chamam-me de cruel. Respiro fundo e volto a limpar.
Finalmente tudo limpo.
Agora anuncio que fui despedida.
Claro que foste.
As minhas filhas mostram o seu desprezo e falta de fé em mim.
Engulo porque não há palavras para descrever como magoa.
Finalmente vou-me deitar. O meu marido chega-se. Digo-lhe que estou cansada e ele sai só falta duas horas depois bêbedo. Nem me dou ao trabalho de perguntar por onde andou.
No dia seguinte o mesmo. Berros, café, aspirina, arrumar tudo, lavar tudo, limpar tudo.
Saio para comprar leite e detergente. Paro para beber mais um café. No café vejo o meu marido a rir e namoriscar com outra mulher. Ali estava ela, linda, solteira, sem filhos, jovem, cheia de energia.
Volto para casa e sento-me na mesa da cozinha há espera dele.
Fico horas sentada, sem pronunciar uma palavra, sem mexer um musculo, sentada a pensar, sentada a remoer, sentada a gritar e chorar por dentro.
Ele entra com as crianças.
Vi-te hoje com uma mulher. Bonita ela. Como se chama?
É apenas uma colega de trabalho.
Costumas tocar no cabelo e na cara de todas as tuas colegas? Eu vi a forma como olhavas para ela. Há anos que não me olhas assim.
Há várias razões para não olhar assim para ti.
Não sou bonita como ela. Nem jovem, nem divertida. Nem uma puta que vai para a cama com um homem casado. Mas há uma coisa que eu tenho e ela não.
Que é o quê?
Vi desprezo nos olhos dele e mostrei-lhe a resposta.
Uma arma apontada a ele. Antes que ele tivesse tempo de falar disparei.
Matei o pai dos meus filhos em frente às crianças.
Gritaram e berraram e vi terror nos seus olhos. Apontei-lhes a arma.
Afastem-se. Para o quarto. Já!
Correram com os olhos em lágrimas.
Disparei contra a minha cabeça e cai no chão.
Sobrevivi.
Os meus filhos me foram tirados e acreditem ou não, na prisão tenho mais paz do que podia desejar.
Descansa em paz meu doce marido.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
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