Sabrina está a andar na rua quando vê o João ao longe.
- João!!! João!!!
Ele olha na sua direção surpreso, reconhecendo a voz que pensava estar esquecida.
- Olá. Estás bom? – Pergunta ela. – É tão bom ver-te. Já faz tanto tempo.
- Sim. É verdade. – Ainda surpreso.
- Então, está tudo bem contigo?
- Sim e contigo? – Pergunta ele com agora um toque dissimulado de tristeza.
- Bem. – Sorriu com um brilho genuíno no olhar. – Vamos beber um café. – Convidou por fim.
- Não sei se posso. Acho melhor ir andando.
- João, hoje é sábado… Tens tempo para beber um café.
Ele lá consentiu.
Sentados na esplanada que costumavam frequentar juntos. Para ela era um reencontro agradável. Para ele como se estivesse a recordar algo que nunca poderia ter de volta, o que lhe causava dor.
- Ao tempo que não vínhamos cá. Foi das coisas que tive mais saudades. Ficar contigo numa esplanada apenas a conversar.
Ele ficou em silêncio.
- O tempo fez-te bem. Estás com bom aspeto. – Disse ela. – E eu? Como estou? – Sorriu esperando resposta.
- Não estás nada mal.
- Nada mal?! Eu acho que estou melhor do que nunca. Não estou a me armar em convencida, só me sinto mesmo bem comigo mesma.
- Ainda bem. – Olhava para as pessoas em volta. Parecia distante.
- Estás a namorar? – Perguntou com um toque de receio da resposta.
- Não… e tu?
- Viúva. – Olhou a aliança do marido num colar ao pescoço e ele reparou que ela também usava uma aliança.
- Lamento. Nem sabia que te tinhas casado.
- Íamos fazer dois anos de casados. Dois anos num casamento parece tão pouco e ao mesmo tempo parece toda a minha vida.
- Acredito.
Fez-se silêncio.
- Faz amanhã seis meses que ele morreu. Acho que isso merece um brinde.
- Um brinde?
- Sim. Quero brindar ao melhor homem que tive a honra de conhecer, a sorte de casar e que me deu o privilégio de ser mãe. Um Brinde ao Nuno e ao Daniel. Não achas que tenho razões para brindar? – Não esperou pela resposta e mandou trazer dois shots.
- Tens filhos?
- Estava grávida quando soube da morte do Nuno. Entrei em trabalho de parto prematuramente e os órgãos dele não estavam suficientemente desenvolvidos. Mesmo assim chamei-o de Daniel e fui mãe por um dia.
- Isso deve ter sido horrível.
- E foi. Chorei de uma forma que nunca tinha chorado na vida. Os pais do Nuno pensaram em internar-me, mas pedi-lhe para ficar na casa deles, a dormir na cama de solteiro dele por uns tempos.
Passada uma semana a chorar, sai da cama, tomei duche, obriguei-me a comer como deve ser, limpei a casa da minha sogra e quando ela chegou a casa à noite tinha o jantar à sua espera e a sua nora de volta.
O Nuno não ia deixar-me desistir. Se ele soubesse que ia morrer e tivesse a oportunidade de me pedir uma última coisa ela me ia pedir para viver, para aprender a ser feliz sem ele.
- Tornaste-te uma mulher incrível.
- Há golpes que a vida nos dá que nos obrigam a ser fortes, mas fortes do que alguma vez imaginamos vir a ter de ser.
- É verdade.
- Então? Que fazes da vida agora?
- Trabalho.
- Em quê?
- Sou arquiteto.
- A sério? Nunca imaginei.
- A vida dá voltas.
- Lá isso dá…
- Tenho o meu carro de sonho, mas soa a tão ridículo dizer que o que tenho de mais precioso é um carro depois de te ouvir.
- De me ouvir? Que me lembre ainda tens família. Eu perdi recentemente a minha.
- Cala-te. Tiveste tudo aquilo com que sonhaste.
- E perdi tudo. Um cego não pode ter saudades de ver se nunca viu na vida. Mas tirar a visão a alguém que já viu todas as cores, formas e sombras, isso sim, é duro.
- E quem me garante que não sou despedido amanhã?
- Podes sempre arranjar outro emprego. Eu perdi as cores. Mas até que tens razão, tem um lado positivo. Eu amei, fui mãe, tive a família perfeita, fui a pessoa mais feliz á face do planeta e ninguém me pode tirar essas memórias.
- Exato.
- E pensar que à cinco anos atrás estivemos nessa mesma esplanada a sonhar com a possibilidade de virmos a ser uma família; Há sonhos que nunca vão passar de sonhos.
- Não digas nunca. Olha que a vida dá voltas...
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
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