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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A Vida Dá Voltas

Sabrina está a andar na rua quando vê o João ao longe.

- João!!! João!!!

Ele olha na sua direção surpreso, reconhecendo a voz que pensava estar esquecida.

- Olá. Estás bom? – Pergunta ela. – É tão bom ver-te. Já faz tanto tempo.

- Sim. É verdade. – Ainda surpreso.

- Então, está tudo bem contigo?

- Sim e contigo? – Pergunta ele com agora um toque dissimulado de tristeza.

- Bem. – Sorriu com um brilho genuíno no olhar. – Vamos beber um café. – Convidou por fim.

- Não sei se posso. Acho melhor ir andando.

- João, hoje é sábado… Tens tempo para beber um café.

Ele lá consentiu.

Sentados na esplanada que costumavam frequentar juntos. Para ela era um reencontro agradável. Para ele como se estivesse a recordar algo que nunca poderia ter de volta, o que lhe causava dor.

- Ao tempo que não vínhamos cá. Foi das coisas que tive mais saudades. Ficar contigo numa esplanada apenas a conversar.

Ele ficou em silêncio.

- O tempo fez-te bem. Estás com bom aspeto. – Disse ela. – E eu? Como estou? – Sorriu esperando resposta.

- Não estás nada mal.

- Nada mal?! Eu acho que estou melhor do que nunca. Não estou a me armar em convencida, só me sinto mesmo bem comigo mesma.

- Ainda bem. – Olhava para as pessoas em volta. Parecia distante.

- Estás a namorar? – Perguntou com um toque de receio da resposta.

- Não… e tu?

- Viúva. – Olhou a aliança do marido num colar ao pescoço e ele reparou que ela também usava uma aliança.

- Lamento. Nem sabia que te tinhas casado.

- Íamos fazer dois anos de casados. Dois anos num casamento parece tão pouco e ao mesmo tempo parece toda a minha vida.

- Acredito.

Fez-se silêncio.

- Faz amanhã seis meses que ele morreu. Acho que isso merece um brinde.

- Um brinde?

- Sim. Quero brindar ao melhor homem que tive a honra de conhecer, a sorte de casar e que me deu o privilégio de ser mãe. Um Brinde ao Nuno e ao Daniel. Não achas que tenho razões para brindar? – Não esperou pela resposta e mandou trazer dois shots.

- Tens filhos?

- Estava grávida quando soube da morte do Nuno. Entrei em trabalho de parto prematuramente e os órgãos dele não estavam suficientemente desenvolvidos. Mesmo assim chamei-o de Daniel e fui mãe por um dia.

- Isso deve ter sido horrível.

- E foi. Chorei de uma forma que nunca tinha chorado na vida. Os pais do Nuno pensaram em internar-me, mas pedi-lhe para ficar na casa deles, a dormir na cama de solteiro dele por uns tempos.

Passada uma semana a chorar, sai da cama, tomei duche, obriguei-me a comer como deve ser, limpei a casa da minha sogra e quando ela chegou a casa à noite tinha o jantar à sua espera e a sua nora de volta.

O Nuno não ia deixar-me desistir. Se ele soubesse que ia morrer e tivesse a oportunidade de me pedir uma última coisa ela me ia pedir para viver, para aprender a ser feliz sem ele.

- Tornaste-te uma mulher incrível.

- Há golpes que a vida nos dá que nos obrigam a ser fortes, mas fortes do que alguma vez imaginamos vir a ter de ser.

- É verdade.

- Então? Que fazes da vida agora?

- Trabalho.

- Em quê?

- Sou arquiteto.

- A sério? Nunca imaginei.

- A vida dá voltas.

- Lá isso dá…

- Tenho o meu carro de sonho, mas soa a tão ridículo dizer que o que tenho de mais precioso é um carro depois de te ouvir.

- De me ouvir? Que me lembre ainda tens família. Eu perdi recentemente a minha.

- Cala-te. Tiveste tudo aquilo com que sonhaste.

- E perdi tudo. Um cego não pode ter saudades de ver se nunca viu na vida. Mas tirar a visão a alguém que já viu todas as cores, formas e sombras, isso sim, é duro.

- E quem me garante que não sou despedido amanhã?

- Podes sempre arranjar outro emprego. Eu perdi as cores. Mas até que tens razão, tem um lado positivo. Eu amei, fui mãe, tive a família perfeita, fui a pessoa mais feliz á face do planeta e ninguém me pode tirar essas memórias.

- Exato.

- E pensar que à cinco anos atrás estivemos nessa mesma esplanada a sonhar com a possibilidade de virmos a ser uma família; Há sonhos que nunca vão passar de sonhos.

- Não digas nunca. Olha que a vida dá voltas...
Publicada por Unknown à(s) 15:47

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