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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

sábado, 20 de agosto de 2011

O Dia Que Nos Espera

Todos os anos comemoro o meu aniversário.

Sempre o fiz.

Dantes fazia enormes festas em que iam todos os meus amigos. Com os anos as festas foram ficando mais pequenas, porque tinha menos amigos para convidar. Até que agora não vejo porque razão continuo a por mais velas no bolo com menos pessoas para partilhá-lo e partilhar mais um ano.

A idade é matreira.

Mal damos por isso mas chega um dia em que já não estamos tão entusiasmados com o futuro, que já não procuramos a felicidade ou um grande amor, que já não temos sonhos que esperamos que se realizem. Chega a uma altura em que percebemos que já vivemos tudo, que nosso tempo já passou.

Nunca pensei que fosse assim que o meu avó se sentisse. Quase vazio. Mas ao mesmo tempo tenho tanto que agradecer. Vejo os meus netos. Jovens admiráveis, inteligentes. Vejo os meus filhos, cada um mais diferente do outro com as suas vidas e as suas escolhas de vida que noutros tempos não aceitaria.

Tenho de agradecer por os poder ver.

Ah! E já vivi tanto. Já vivi o grande amor que todos procuram viver e nem todos conseguem. Já realizei os meus sonhos. Já criei os meus filhos. Trabalhei toda a vida. Tive uma boa vida, no fim de contas.

Mas ninguém quer realmente que a sua vida acabe. Ninguém quer completar todas as metas da sua vida e ficar sem nada. É que agora que fiz tudo não tenho nada. Não há nada que me atice lume.

O que é suposto eu fazer? Esperar pela morte?!

Chega uma altura da nossa vida que a maioria das pessoas que conhecemos morreram. É uma altura triste…

Sabes aquela altura em que os teus amigos começam a ter namoradas? Ou a altura em que os teus amigos começam a casar, ter filhos ou vão para a universidade? Seja como for, as coisas mudam.

Bem, asseguro-te que isso é pior.

Todos os meus amigos já morreram. A minha mulher já morreu. Até o mais filho mais velho morreu, a morte o levou mais cedo. São partes de mim que são arrancadas. Arrancaram-me os braços, o coração, as pernas, a alegria e levaram tudo com eles para a terra.

Agora tenho de andar sem pernas e manter-me vivo sem coração. Tenho de estar nesse mundo sozinho. Afinal, os meus netos não substituem aqueles que perdi.

Como se não bastasse, o meu médico tirou-me o açúcar e o sal. Ora, é suposto eu aceitar que me tirem o sal depois da vida já me ter tirando tanto?

Claro que fico rabugento, claro que me irrito e grito com quem for que me dê mais uma sopa insonsa ou que me tirem o bife da frente.

Nem ver televisão é como antes. Agora só se vê investigações de homicídios e medicina ou então desenhos animados que vendem mochilas de Hannat Montana para salvar o planeta ou alguma coisa parva do género. Claro que se pode sempre optar por ver publicidade, ajuda um velho como eu a adormecer e aos jovens a ficar com os bolsos vazios.

Mas apesar da diferença dos tempos uma coisa é sempre a mesma. Quando se chega a velho, como eu, não sabemos se havemos de ficar gratos por ter vivido tanto ou se ficamos revoltados por já não termos razões para estar vivos.

Não que queira que me tirem os dias que me resta, mas a essa altura da minha vida, em que o passado está tão longe e o futuro não me sorri, quando acordo pergunto-me: Porque estou aqui?

Todas as manhãs volto a acordar e todas as noites continuo sem resposta. Mas não faz mal que não consiga encontrar uma resposta, desde que consiga voltar a perguntar amanhã.

Publicada por Unknown à(s) 10:38

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