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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Boneca Erica

Uma casa de campo, velha e sombria, escondida por ervas e enterrada em mistério. Era esta a casa que Andreia havia comprado.

Ao entrar na casa ela ficou encantada, era realmente antiga e estava desfeita. Uma árvore crescia na sala iluminada pela luz do tecto aberto. Móveis desfeitos pelo tempo e uma moldura partida com uma fotografia de uma família. Havia algo de errado. Toda a família tinha um sorriso ligeiro, mas uma menina de cabelo negro e olhos pretos e pele muito branca estava com um ar zangado.

Andreia estranhou, mas ao ver um gato sorriu e pousou a foto. Continuou a ver a casa e para além do mau estado do quarto de jantar onde a árvore reinava, o resto da casa não estava assim tão mal.

Iria precisar de muito trabalho, mas Andreia sonhava com a ideia de ter uma casa em estilo antigo remendada por si. Ainda para mais uma casa de campo, longe do barulho, da cidade e do mundo.

Demorou longos meses ate a casa ficar pronta. No entanto, ela conseguiu com que tudo fosse feito muito mais depressa do que se esperava e ainda mais depressa instalou-se na casa.

A sua determinação era louvável e o seu recente esposo não podia estar mais orgulhoso.

Por meses foram muito felizes. A casa estava linda, sossegada. Uma calma de morte embalada em suspiros do vento deliciavam Andreia quando esta estendia a roupa.

O casal estava feliz e um bebe vinha a caminho.

Andreia passava todo o seu tempo em casa a preparar as coisas para a vinda da nova vida e acreditava que esta gravidez era a causa dos seus medos e preocupações.

Do nada ela sentia a presença de alguém ou um toque de algo. Coisas de grávida, certo?

Era terça e Andreia voltou da consulta, tinha visto o sexo do bebe pela primeira vez. Uma menina. Estava felicíssima e decidiu fazer um bolo. Mexia a massa a cantarolar com um sorriso deslumbrado quando deu um salto de susto ao ouvir algo a quebrar-se vindo da sala de jantar.

Sem hesitar foi ver o que o raio do gato tinha feito dessa vez.
A moldura de família dela e do esposo caída no chão. Levantou-a toda partida e pegou na foto. Limpou os vidros da foto e deu um grito de susto. Não podia acreditar. Não podia ser verdade. A miúda de cabelo preto estava na foto entre eles e estava zangada. A foto saltou-lhe das mãos com o susto e ela levou uma mão ao peito a outra `a barriga.

Ouviu a porta a bater e soltou mais um grito inevitável precipitou-se para as escadas e ouviu uma voz chamar o seu nome:

- Andreia. – Chamou uma voz que ela conhecia bem.

- Nuno! – Suspirou de alivio e correu ate os seus braços.

- Que se passa? – Perguntou-lhe apertando-a no abraço.

- Apanhei um susto tão grande. – Soltou um soluço e umas lágrimas.

- Que se passou? – Afastou-a olhando-a.

- A nossa foto caiu e há uma rapariga entre nos.

Claro que quando ele foi ver a foto já não havia rapariga alguma.

- Essa rapariga és tu. – Nuno segurou-lhe a face entre as mãos depois de ela voltar a olhar para a foto perplexa. – Tu não mudaste. Essa criança não vai mudar o que sinto por ti ou quem és.

- Sim. – Simulou um sorriso. – Tens toda a razão.

Andreia duvidava de si mesma. Era tão impossível que ela preferiu acreditar que tinha sido apenas a sua insegurança, uma insegurança que ela desconhecia e que lhe parecia ilógica, mas que ela preferia acreditar ser verdade.

Ao comerem o bolo ela contou as novidades sobre a bebe e ficaram ali deitados por séculos, abraçados ao presente com a mente no futuro idílico.

Andreia acordou nos braços de Nuno, ele dormia profundamente e Andreia sentiu-se atraída para o quarto de jantar. Entrou e viu a árvore a rasgar o tecto, a árvore que já não existia. A árvore estava morta e sombria, escurecida pelas trevas. A rapariga de cabelo preto saiu de trás da árvore. Andreia queria afastar-se, mas algo a prendia.

A miúda de cabelos pretos aproximou-se e Andreia não se conseguia afastar. Chegou bem perto dela e depois desviou o olhar para o tecto a um canto e aponto com o dedo. Andreia olhou, mas não via nada. Voltou a baixar o olhar e tudo estava de volta ao normal.

Foi ate ao quarto que ficava para lá da parede que pareceu que a rapariga estava a olhar e estava tudo normal. Um quarto pacífico. O quarto que seria para a sua filha brincar.

Toda essa agitação era má para a criança e a futura mãe sabia.
Apesar disso, Andreia sentiu-se intrigada. Já não estava assustada, mas intrigada com o olhar docemente cruel e ingénuo daquela estranha, daquela alucinação ou assombração.

No dia seguinte Andreia passou horas a olhar o tecto sem perceber do que estava `a procura.

Finalmente desistiu e foi alimentar a criança dentro de si. Ao afastar-se ouviu um voz a sussurrar: «Elisa» A voz continuava a chamar e Andreia procurou de onde vinha. Ouviu um riso a vir do quarto de brincar da bebe e ao entrar encontrou as paredes arranhadas ate ao cimento. «ELISA» era o que se via lá escrito.

- O que queres? – Perguntou Andreia.

Sentiu-se ridícula e ao não obter resposta virou as costas para se ir embora.

-Espera! Não me deixes. – Chamou a miúda atrás de si.

- O que queres de mim? – Exigiu saber.

A miúda olhou para a parede e repetiu.

- Elisa.

- Quem ´e essa Elisa?

- Elisa. – Apontou para a barriga de Andreia.

Andreia levou as mãos `a barriga num sobressalto e a rapariga desapareceu, tal como o nome na parede.

Nessa noite Andreia esperou que Nuno adormecesse, acedeu velas, sentou-se na sala de jantar e sussurrou «Elisa» várias vezes.

A miúda não aparecia mas as coisas estavam a cair dos sítios e as velas apagaram-se e toda a sala parecia saída de um filme de terror.

- Não podes ficar com a minha filha. Não a vais ter. – Tudo tremia e se agitava. – Não sei porque estás presa a esse mundo, mas o teu lugar não ´e aqui.

- O meu lugar ´e lá em cima. – Apontou a miúda fantasma para o canto.

- Sim. O teu lugar ´e lá em cima. – Andreia suspirou de alívio. – Podes ir para lá ter com a tua família.

- Eles não estão ali.

-Onde estão?

- Eu não sei. Eles deixaram-me ali em cima. – Voltou a apontar; aproximou-se de súbito de Andreia e sussurrou. – Tira-me dali.
Tudo voltou ao normal.

- Que se passa? – Perguntou Nuno rasgando o espaço.

- Nada, meu amor. Vamos dormir.

- Ouvi-te gritar.

- Um rato. – Mentiu.

- Um rato chamado Elisa?!

- Meu amor, deves ter tido um sonho.
Nuno não sabia no que acreditar, mas preferiu acreditar que se tratava de um sonho.

- Elisa vai ser o nome da nossa filha. – Disse Nuno na manha seguinte.

- Porque lhe queres dar um nome tão horrível? – Protestou Andreia.

- Porque sonhei com esse nome. Deve ter algum significado.

-Significa que sonhas-te com ele. Apenas isso.

- A menos que arranjes nome melhor fica esse.

Andreia não contestou. Tinha mais em que pensar no momento.

Estava a pensar no que a miúda tinha dito. “lá em cima.”

Andreia voltou para a sala de jantar com um escadote e uma serra. Serrou toda a madeira daquele canto no tecto e ficou espantada ao ver uma porta. Não conseguia alcançar a maçaneta, por isso voltou a descer, foi buscar uma vassoura e voltou a tentar. Conseguiu abrir a porta e rastejou para aquele sótão.

Que lugar sinistro. Pó, pó e mais pó. Umas quantas caixas fechadas, brinquedos velhos e assustadores espalhados e uma arca iluminada pela telha de vidro.

- Olá. – Disse a menina de cabelos pretos que brincava com uma boneca.

- Olá. – Retribuiu Andreia. – Os teus pais deixaram-te aqui?

- Sim. – A miúda continuava cabisbaixa, com o cabelo a esconder-lhe a face e a brincar com a boneca.

- Porque eles te deixaram aqui?

- Por isso. – Levantou a cabeça e a sua face estava toda cortada e ensanguentada. – Eu fiquei feia. E eles deixaram de gostar de mim.
Andreia sentou-se perto da menina fitando-a com compaixão.

- Quem te fez isso?

- Eu fiz.

- Porque o fizeste?
A menina entregou-lhe a boneca. Andreia olhou a boneca e viu que ela estava toda desfigurada.

- Alguém fez isso `a minha boneca. Quando mostrei `a minha mãe ela disse que não tinha importância, porque ela continuava a ser amada por mim. Mas a boneca sempre foi igual a mim, não queria que ela se sentisse diferente, quis que ela soubesse que eu a amava.

- Então puseste-te igual a ela?!

- Sim. Mas a minha mãe deixou de me amar.

- Isso não pode ser verdade.

- A minha mãe disse que não tinha importância quando lhe mostrei a boneca, mas quando ela me viu ela gritou e chorou. Assustou-se porque eu estava feia. Ela não me amou. Depois disso ela chorava sempre que me via. O meu pai olhava para mim com tristeza e os meus irmãos deixaram de brincar comigo. Quando havia visitas pediam-me para ficar aqui.

- Eles estavam apenas a proteger-te.

- Não. Eles deixaram de me amar. Por isso escondi-me para sempre.

- Aqui no sótão?!

- Fechei-me na arca. Comecei a ficar agoniada e custava-me a respirar. Tentei sair, mas não consegui. Adormeci abraçada `a Erica. – Abraçou a boneca.

- Erica e´ a tua boneca? – Os olhos de Andreia denunciavam emoção.

- Sim. E eu quero que fique com ela. Eu quero que ela volte a ser bonita, porque se ela for bonita eu voltarei a ser e os meus pais voltaram a me amar.

- Eu fico com ela. – Andreia segurou a boneca. – Vou tomar conta dela.

- Eu quero que a Erica brinque com ela, promete?!

- Prometo, que a Erica – Tocou a sua barriga. – Brincar `a com a Erica. – Olhou a boneca.

A menina levantou-se.

- Sofia e Erica. Eu e a minha boneca. Sempre seremos iguais.

Sofia desapareceu.

- Vou ficar por perto. – Sussurrou uma voz.

O corpo de Sofia estava dentro da Arca. A policia tratou dos restos da menina, e Andreia pus a bonita boneca junto aos outros brinquedos destinados `a sua filha, Erica.
Publicada por Unknown à(s) 12:29

5 comentários:

Verónica C. disse...

ihih... que história interessante +.+
Eu gostei muitooo (; No inicio parecia que essa historia ia ter um fim tragico xDD :$

* Lv'YOU Minha Moscatel xDD <3

3 de setembro de 2010 às 16:05
diogo disse...

bonita a historia continua ;D

5 de setembro de 2010 às 15:54
diogo disse...

bonita a historia continua ;D

5 de setembro de 2010 às 15:55
diogo disse...

bonita a historia continua ;D

5 de setembro de 2010 às 15:55
Bárbara disse...

Muito bonita a história!!!

5 de junho de 2011 às 14:38

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