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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Beijos do Além


Casa modesta, antiga e sombria. Decorada com loiças frágeis e de tão pouco valor material. Um relógio partido em cima da mesa de café raramente usada e as janelas pintadas de gotas de chuva. Ecoava em toda a casa o som da chuva e do vento.

Acto único.

Cena 1

Sofia – (Sentada junto a uma janela olhando a chuva com um ar mais chuvoso que o tempo.) Como é incrível como os céus sentem o mesmo que eu. - Chove mais em minha alma do que na lama. Mas no meio de tanta chuva já me falta lágrimas para derramar sobre o já derramado pelo céu.

Cena 2

Filipa – (Irrompendo pela porta como um trovão de luz numa noite negra.) Chove a potes. Estou completamente molhada. Até podia encher um balde de água ao torcer o meu cabelo e dar de beber ao Gustavo. (Sorriu e estremeceu de frio.)

Sofia – Só mesmo tu para saíres com um tempo desses.

Filipa – Ou saia nessa chuva ou esperava pela próxima. - Esse Inverno anda tão chuvoso.

Sofia – É bem verdade. (Abraçou as próprias pernas.)

Filipa – Como é possível passares tanto tempo a sofrer?! Não resolve nada. Só perdes água do teu corpo.

Sofia – Água não me falta para derramar. E ao menos sou honesta no que sinto. Tu pelo contrario…

Filipa – Eu o quê? Ando a fingir que estou bem?! – Enganaste! Não finjo. Simplesmente acho desnecessário estar sempre a sentir o que todos esperam que sinta. A vida é muito curta para ser passada a ver a chuva. E tu devias de compreender isso.

Sofia – Não consigo ser como tu.

Filipa – Minha querida… (Beijou-lhe a testa.) Só vai parar de chover quando as tuas lágrimas secarem. E sabes que esse dia não tarda. Tudo vai acabar bem.

Sofia – O teu optimismo é tão irrealista como reconfortante. (Sorriu.)

Filipa – Que hei-de dizer? É essa a minha maldição.

Sofia – A minha maldição é ter-te na minha vida… sua amaldiçoada.
(Sorriram ambas as cúmplices.)

Filipa – Vou trocar de roupa. Volto já.

Cena 3

Sofia – Como ela tem razão. E só eu sei porque não lha dou. – Não consigo sorrir verdadeiramente sabendo o que sei e que ela devia saber. Mas como é bom vê-la sorrir e habito ver-me chorar. (Limpando uma lágrima denunciadora.) Não lhe posso contar. Isso era destruir o único Sol da minha vida. (A chuva intensificou-se e calou-lhe a voz muda.)

Cena 4

(Filipa entra um pouco alterada e com uma camisola bem quente, no entanto ainda com o cabelo húmido.)

Filipa – Sofia… Onde está o Gustavo?~

Sofia – Não sei. Deve estar lá fora a enterrar algum osso.

Filipa – Vou procurá-lo.

Sofia – Espera! Não vás!

Filipa – Porquê?

Sofia – (Recaindo na tristeza.) Filipa… (Troca de olhares.)

Filipa – Tu não o fizeste?!

Sofia – Fiz! Sabes como odiava aquele cão.

Filipa – (Furiosa.) Tu não o odiavas! Tu tinhas inveja dele! Inveja da felicidade que eu e ele temos e tu és incapaz de ter! Sua invejosa! Eu amava-o mais do que a ti às vezes. Ele era incapaz de ser tão egoísta como tu… ou tão triste e deprimente.

Sofia – (Muito calma, sempre no seu
mundo morto, triste, e calmo. Uma calma nostálgica e triste.) Sempre soube que pensavas isso. Agora disseste-o. Obrigada.

Filipa – Sofia… Como podes ser tão fria?

Sofia – Não sou fria. Soubesses tu o que eu sei e serias bem pior que eu. Lamento a tua perda.

Filipa – (Sorrindo.) Nunca serei triste como tu.

Sofia – Quem sabe se o teu destino é ser mais. (Olhou-a com ternura e a grande tristeza que habitava aquele olhar.)

Filipa – Conheço esse olhar. (Sentou-se junto dela.) O que se passa?

Sofia – (Entregou-lhe uma carta.) Lê.

(Filipa ao ver o remetente.)

Filipa – Quando a recebeste?

Sofia – À uns dias. Lê.

(Á medida que Filipa lia, tudo o resto naquela casa perdia a cor e um holofote de dor se acendeu sobre a sua cabeça fazendo cair de joelhos, cair em lágrimas. Sofia ajoelhou-se também e abraçou as lágrimas que invocou.)

Cena 5

(Desce as escadas um belo jovem, irmão de Filipa e amigo de Sofia.)

Carlos – Que se passa Filipa? (Levantou-lhe o rosto.)

Filipa – A última vez que a mãe segurou uma caneta foi para escrever essa carta. (Tentou recompor-se.) Carlos… Lê-a.

Carlos – “Meus filhos, ambos vós me enchem de desgosto. Tu meu filho, desistis-te de ter uma vida decente e vives como um vagabundo alojada na casa de tua irmã, essa que é o meu maior desgosto como mãe. – Criei-vos e amei-vos à minha maneira, mas sempre vos amei. Nunca esperei foi que se tornassem no lixo que são. (Parou para inspirar coragem.) – Minha filha, é por ti que renuncio parentesco. Não sou tua mãe. Já não. Talvez fosse em tempos, quando eras menina e a tua única vontade era ser alguém na vida, pois não eras ninguém tal como eu não sou. No entanto, como amas essa desgraçada com quem tu e teu irmão partilham tecto, um tecto vergonhoso, que ela te ame de volta, porque eu já não te amo. Beijos meus assassinos. É por vós que morro hoje.” – Meu Deus… (Aterrorizado) Ela matou-se. E por nossa culpa.

Sofia – Por vossa não. Dela. Ela é que não vos soube dar valor.

Carlos – E que valor temos nós. Ela tem razão. Somos uns desgraçados.

Filipa – Não digas isso. ela está morta, mas nós estamos vivos. A nossa vida vale mais que a sua morte. Ela teve uma morte de fracos. Os fracos é que se deixam derrotar e desistem de viver. Eu não derramo nem mais uma lágrima por umna mulher que em tempos foi minha mãe. Já não é mais.

Sofia – Não faças minhas palavras verdade. Não te tornes no gelo que vez em mim.

Filipa – Não é gelo é indiferença. Ela já não fazia parte de nossas vidas e não é com a sua morte que vai fazer.

Carlos – Filipa… E nosso pai? Ele agora está sozinho.

Filipa – Lembraste do que ele disse?

Carlos – Sim, mas foi à tanto tempo. As coisas agora são diferentes. Ele está só.

Filipa – E vai culpar-nos por isso. vai acusar-nos de matá-la. – Queres saber? Que morra ele também.

Sofia – Minha querida, não digas tais coisas. Amo a tua capacidade de perdão. Perdoas todos nesse mundo e és incapaz de tentar perdoar teu pai.

Filipa – Ele me insultou e me magoou. Que pai fala assim com uma filha e a quer de volta? (Para Carlos.) Ele não nos quer, irmão.

Carlos – Que seja ele a decidir isso.

Filipa – Recuso-me a ir.

Sofia – Então fica. Eu e Carlos vamos. Fico no carro que é melhor.

Carlos - Talvez entres. Mas vou amansar a fera. Vamos.

Cena 6

(Ao ver-se sozinha senta-se onde Sofia estava anteriormente. O dia começa a raiar e a luz a entrar. Filipa está com um ar tranquilo.)

Filipa – Por um lado alivia-me saber que fiz bem em não voltar mais á casa de minha infância. - Estou feliz por ter a felicidade que minha mãe nunca teve apesar de ter tudo. Era linda e elegante. Conseguia tudo o que queria, inclusive riqueza. Só não teve vida eterna porque desistiu de viver. - E eu sem nada do que ela teve, tenho tanto. - Tenho meu irmão, a lealdade de meus amigos e amor. Que importa se não é o amor que ela sonhou para mim? Não deixa de ser amor. Um amor que ela nunca teve apesar de meu pai a admirar. (Segurando uma boneca.) Nunca fui criança. Nem isso ela me deixou ser. – Considerou-se minha mãe?! Considerei-a minha dona. Agora que morreu sou dona de mim própria. Sou mulher feita e não criança, mas, ao menos serei verdadeiramente mulher e não a mulher que ela desejaria que eu fosse. – Esperava que chorasse sua morte?! Enganou-se. Nunca lhe daria tal gosto. E foi ingénua por o imaginar. – Chorei sua letra?! Sim! Chorei! Chorei ao reconhecer naquela letra a minha dona. Chorei por reconhecer o desprezo e a falta de sentimentos. Chorei porque ela nunca se deu ao trabalho de nos ver como seres individuais, seus filhos, em vez de apêndices. -Não fomos nós as apêndices que lhe matamos, foi ela por nos arrancar de si a sangue frio e deixar-se esvaziar em sangue. Está morta e bem morta. Finalmente morta. E morta para sempre.

Cena 7

(Entra Carlos e Sofia.)

Sofia – Dormiste bem?

Filipa – Não dormi. Estive a pensar. (Sorriu.) Não tenho mais que pensar.

Carlos – Enganaste-te a respeito do pai. Ele não me tratou mal, nem me acusou de assassino.

Sofia – Até chorei quando vi a cena.

Filipa – Que fez ele?

Carlos – O mesmo que te quer fazer a ti. (Abriu a porta.)

Cena 7

(O pai entra. Um velho fraco e triste ao mesmo tempo que alegre.)

Pai – Minha filha! Como estás bonita. (Emocionado.) Como fui idiota por te perder.

Filipa – (Emocionada e incrédula.) Que fazes aqui?

Pai – Vim ver-te. Não tive coragem antes. Tinha medo do teu rancor. Teu e de teu irmão. (Para Carlos.) Que alegria foi ver-te meu Carlos. (Para Filipa.) E tu minha filha? Perdoas-me?

(Filipa sem palavras ou pensamentos. Sem sentido ou direcção atirasse aos braços do pai num abraço emocionado de saudade, de espanto, de perdão e de amor.)

Filipa – Meu pai. Como tive saudades. Pensei que nunca mais me irias falar. Pensei que tinhas deixado de me amar. Como te amo e como lamento ter-te dado todo e qualquer desgosto.

Pai – Desgosto dei-te eu. Minha filha. O que te disse… Se me pudesses perdoar…

Filipa – (Apertando o abraço.) Perdoei-o mal o vi entrar pela porta de minha casa.

( Abraçaram-se com o último raio de sol a sair do horizonte, beijando de luz aquela falmília. )
Publicada por Unknown à(s) 06:19

1 comentário:

Anónimo disse...

este texto conteve varias desgraças mas na parte final acabou tudo muito bem adorei o texto va força Diogo

10 de abril de 2010 às 04:35

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