A lua cheia ilumina as sombras da negra noite e mergulha no reflexo de um lago sujo e cristalino. Este lago pertence à casa que habita por entre as árvores, por entre a escuridão, atrás do portão enferrujado que os miúdos passam a vida a saltar desafiados por amigos a passar uma hora na assombrosa mansão.
Essa noite Cristina e Filipe, amigos desde sempre, crianças de dez anos, saltaram o portão.
Filipa agarra a mão de Cristina e avança com a missão de ser o protector, o herói desse supostamente ingénuo, no entanto aterrador desafio.
Caminham por entre a escuridão com destino ao seu fim. Pisam as folhas, a terra, respiram daquele ar, arrepiam-se naquele frio, temem a ausência de olhos e a presença de olhares.
A escuridão sente-os, a mansão sorri para eles e abre passagem.
Invadem a mansão. Cristina solta-se de Filipe e encantada corre para os primeiros degraus da escada, olha o tecto e sorri.
- É bonito.
- Acho que devíamos ficar aqui, junto à porta. – Aconselhou Filipe em súplica.
- Estás com medo? – Sorriu e subiu mais uns degraus. – Anda.
- Eu não tenho medo.
- Então vem.
O vento empurrou a porta e Filipe precipitou-se para junto de Cristina.
- Então vamos. – Mandou subindo.
Um corredor iluminado de negro os aguarda com um sorriso maléfico nas sombras da sombra que é a própria mansão.
Eles saltaram o portão.
Eles entraram na mansão.
Filipe põe-se à frente de Cristina sendo-lhe escudo, protegendo-a de nada e pondo-se no maior dos riscos.
Algo chama-os, o som do próprio silêncio, sussurra por eles, desafio-os a entrar no quarto ao fundo. Passam por portas e portas e todas elas parecem dizer o mesmo. Todas parecem tocar-lhes e seduzi-los a entrar. Porém, o som da última porta, a cor viva que se perdeu no tempo, chama-os, lança-lhes um feitiço delicioso, um convite a entrar irrecusável.
Filipe hesita. Pondera. Cristina antecipou-se a alguma conclusão e abriu a porta, empurrou-a devagar, resistindo ao Não de Filipe e caindo na tentação da sua curiosidade.
A porta range ao ser abrir, acorda passados tantos anos a dormir na sua doce e negra missão de ser aberta. Mas nem tudo o que pode ser aberto foi feito para esse propósito, talvez o propósito de uma porta seja manter algo dentro e não entrar algo.
Cristina avança, Filipe passa-lhe á frente como um salvador e põe-se à frente da donzela em perigo.
Observam.
Paira um cheiro a pó, um cheiro a inexplicável que os deixa alerta.
Observam.
De que adianta observar se só se vê negro?
Negro coberto de pó.
Uma cama velha, brinquedos, uma alcatifa oval. Uma mesa-de-cabeceira em madeira, um candeeiro caído no chão por cima da bainha do lençol que caia da cama e permanecia estático por anos. Tudo estava parada à anos.
Eles saltaram o portão.
Eles entraram na mansão.
Eles abriram a porta.
Filipe vira-se.
Cristina!
Onde está Cristina?
Desapareceu…
Filipe grita por ela em pânico. Corre pelo corredor, desce a escada, agarra a porta da mansão e puxa. Tem a oportunidade de fugir, toca a liberdade e algo o agarra.
Filipe grita desesperado, esperneia. É levado para baixo, para bem baixo, para debaixo da mansão. Mais escuro que a escuridão. Uma escuridão tão forte e tão pesada que parecia ofuscar a tremula luz da vela.
Atado a uma cadeira, amordaçado e em pânico. O coração a saltar no peito, numa última tentativa de se salvar daquele corpo condenado.
Cristina!
Ao vê-la, viu o seu destino.
Eles saltarão o portão.
Eles entraram na mansão.
Eles abriram a porta.
Talvez o propósito de uma porta seja manter algo dentro e não entrar algo. Um facto é que quem entrou, não saiu.
A porta está novamente fechada.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
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1 comentário:
Historia bem fixe
Continua ;D
By: Alexandre
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