Eu sou a Vida, a deusa das águas.
Só é possível comunicar comigo no topo da montanha mais alta, tão alta que ultrapassa o gelo do céu.
O topo dessa montanha é morno como a água de uma banheira, mas as minhas águas, as águas da cascata lá no topo que rolam montanha abaixo são frias, geladas, gélidas.
A montanha é morna, agradável, confortável, convidativa, mas quem ousa tocar nas minhas terras sem a minha permissão está a tocar na sua perdição, pois sou eu a dona da montanha, a deusa da água, sem mim não é possível sair com vida do meu pequeno paraíso.
Ao intruso que ousar invadir-me e roubar-me o alimento das árvores e dos solos terá o seu fim, afinal, são as minhas árvores e é o meu solo e sem a minha água, as minhas mãos a lhes tocar, secam e deixam à míngua quem contava com alimento que não lhe pertence.
O meu nome é Vida, porque, como é óbvio, sem mim todos morreriam.
A minha montanha é o paraíso, pois só desfruta dela quem é merecedor de beber da minha água e comer dos meus frutos, abrigar-se na sombra das minhas árvores, cheirar as minhas flores e desfrutar das sensações corporais e físicas da água gelada a banhar o corpo e aquecer-se-me a temperatura… Quem eu bem entender e só quem eu bem entender terá esse privilégio.
Todos os que ousaram tocar no meu solo, passar as barreiras do céu e chegar até mim, agora, são pedras no meu jardim.
No entanto, habita carne aqui em cima. Carne pura, carne valente, carne não de humano, mas de outra espécie. É Círio, o dragão do vulcão extinto. Não há vida no seu vulcão e eu o recebi no meu vulcão de água activa.
Círio vive na minha montanha, outros morrem nela.
Rego os meus solos para lhe dar de comer, lhe dar que cheirar, lhe dar onde se abrigar e é na minha água que Círio se vem banhar e eu dou-lhe de beber.
Eu sou a própria água, dou-me para que ele possa viver.
Círio nunca será um apóstolo ou um discípulo, Círio é a língua que serpenteia e cospe fogo para proteger o que a ele pertence, o que a mim pertence, o que a só nós pertence.
A Vida é dona de tudo e Círio é tanto de Vida como Vida é de Círio.
Dou-lhe a minha água e ele dá-me todo o seu fogo.
O vulcão se extinguiu mas ele não. Círio tem mais poder que todos os vulcões que possam acordar ou que fingem dormir, pois se dormem ou se fingem dormir é porque Círio existe para os derrotar e se de facto o vulcão que pertence a Círio não tem vida, Círio a tem.
Houve o dia de mais um intruso ultrapassar as barreiras do céu, pobre carne a sua, que a alma já a perdeu e juízo também. Tenho pena é da carne maltratada pelo fogo de Círio e pela fome de mim, Vida. Tenho dó é dos ossos sem mais carne que os segure. Apesar disso, fica bem mais uma pedra no meu jardim. Atirei-a.
Agora, com o paraíso duplamente protegido e triplicamente mais restrito, Círio aquece a minha água soprando delicada e abrasadoramente fogo sobre mim.
O paraíso não é meu.
O paraíso é nosso.
ly
sexta-feira, 27 de maio de 2011
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1 comentário:
Lindo o texto... continua ;D Diogo Moniz
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