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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Sair da Cama

Sair da cama.

O primeiro desafio do dia. Sair do quente, do confortável, do agradável, do prazer do aconchego bom que a cama oferece na manhã fria. Pois o relógio não pára.

Há que enfrentar o frio, despir a roupa  quente, a roupa confortável, abandonar o prazer do aconchego que o pijama oferece na manhã fria. Pois o relógio obriga.

Há que comer, pentear, os lábios pintar. Procurar os sapatos que ficam bem com a blusa escolhida para o dia. Ter de se contentar com os sapatos que ficam mais ou menos com a blusa porque os outros não aparecem.

Há que sair fechando a porta consigo.

Ouvir o som ríspido que emite: Não há volta!

A caminho do trabalho a mente a mil o coração a contar as batidas, os pulmões a forçar o ar, os olhos a perguntar ao coração: Porquê?

Olha os pedaços!

Uma pequena pausa para descansar, reflectir, tirar um momento para ganhar forças. Uma pausa para cair em lágrimas e amargura. Um momento para parar. Parar o falso sorriso, a falsa motivação, a falsa esperança, a falsa personagem de contos de fadas.

Não sou princesa! Não sou donzela! Não sou boneca! Sou apenas uma mulher com a alma em pedaços a tentar juntar os pedaços. Pedaços grandes, pedaços pequenos, pedaços perdidos, pedaços achados. Pedaços impossíveis de colar no lugar.

Pedaços de mim.

Quebrados…

Se alguém me sacudir talvez se consiga ouvir o chocalhar de todos os pedaços quebradinhos cá dentro. Uma alma em pedaços. Um futuro escrito num espelho martelado à cabeçada.
Há que sair da cama.

Pois a manhã é cruel. Pois o relógio não pára. Mesmo sem pilha, mesmo sem ponteiros, mesmo sem rodas, mesmo sem horas.  O relógio não pára!

Estranhos fingem não ver alguém.

Por entre a água, os cabelos, o gorro do casaco e os óculos, estou eu. Mesmo atrás das lágrimas mais grossas que a chuva de inverno se encontra uma jovem mulher em pedaços que estranhos fingem não ver. Apenas vêm a sombra de alguém a andar por entre a chuva.

Esse alguém sou eu.

Não há chuva que me possa molhar.Tempestades que me possa parar. Passo por entre as gotas, os trovões, os relâmpagos com apenas o rosto encharcado.

Quem me segura a mão?

O caminho não é longo. Perdi-me.

Quem me guia?

Sim, sou daqui. Mas perdi-me. Tenho sempre de pedir indicações. Porque estou sempre perdida. A andar na direcção errada a onde quero chegar. Sem saber onde estou, para onde vou ou o que faço aqui.

Perdida.

Sem rumo.

Com o futuro escrito num espelho martelado à cabeçada.

Chega a noite!

Há que deitar. Último desafio do dia.

Há que dormir. Há que descansar. Do dia exaustivo cheio de nada. Descansar para ganhar forças das forças esgotadas ao sair da cama. Pois o relógio não pára e num segundo são quatro da manhã.
Publicada por Unknown à(s) 11:57

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