Sair
da cama.
O
primeiro desafio do dia. Sair do quente, do confortável, do agradável, do
prazer do aconchego bom que a cama oferece na manhã fria. Pois o relógio não
pára.
Há
que enfrentar o frio, despir a roupa
quente, a roupa confortável, abandonar o prazer do aconchego que o pijama
oferece na manhã fria. Pois o relógio obriga.
Há
que comer, pentear, os lábios pintar. Procurar os sapatos que ficam bem com a
blusa escolhida para o dia. Ter de se contentar com os sapatos que ficam mais
ou menos com a blusa porque os outros não aparecem.
Há
que sair fechando a porta consigo.
Ouvir
o som ríspido que emite: Não há volta!
A
caminho do trabalho a mente a mil o coração a contar as batidas, os pulmões a
forçar o ar, os olhos a perguntar ao coração: Porquê?
Olha
os pedaços!
Uma
pequena pausa para descansar, reflectir, tirar um momento para ganhar forças.
Uma pausa para cair em lágrimas e amargura. Um momento para parar. Parar o
falso sorriso, a falsa motivação, a falsa esperança, a falsa personagem de
contos de fadas.
Não
sou princesa! Não sou donzela! Não sou boneca! Sou apenas uma mulher com a alma
em pedaços a tentar juntar os pedaços. Pedaços grandes, pedaços pequenos,
pedaços perdidos, pedaços achados. Pedaços impossíveis de colar no lugar.
Pedaços
de mim.
Quebrados…
Se
alguém me sacudir talvez se consiga ouvir o chocalhar de todos os pedaços
quebradinhos cá dentro. Uma alma em pedaços. Um futuro escrito num espelho
martelado à cabeçada.
Há
que sair da cama.
Pois
a manhã é cruel. Pois o relógio não pára. Mesmo sem pilha, mesmo sem ponteiros,
mesmo sem rodas, mesmo sem horas. O
relógio não pára!
Estranhos
fingem não ver alguém.
Por
entre a água, os cabelos, o gorro do casaco e os óculos, estou eu. Mesmo atrás
das lágrimas mais grossas que a chuva de inverno se encontra uma jovem mulher
em pedaços que estranhos fingem não ver. Apenas vêm a sombra de alguém a andar
por entre a chuva.
Esse
alguém sou eu.
Não
há chuva que me possa molhar.Tempestades que me possa parar. Passo por entre as
gotas, os trovões, os relâmpagos com apenas o rosto encharcado.
Quem
me segura a mão?
O
caminho não é longo. Perdi-me.
Quem me
guia?
Sim,
sou daqui. Mas perdi-me. Tenho sempre de pedir indicações. Porque estou sempre
perdida. A andar na direcção errada a onde quero chegar. Sem saber onde estou,
para onde vou ou o que faço aqui.
Perdida.
Sem
rumo.
Com o
futuro escrito num espelho martelado à cabeçada.
Chega
a noite!
Há
que deitar. Último desafio do dia.
Há
que dormir. Há que descansar. Do dia exaustivo cheio de nada. Descansar para
ganhar forças das forças esgotadas ao sair da cama. Pois o relógio não pára e
num segundo são quatro da manhã.
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