Quando amamos alguém no início basta que essa pessoa nos
mande um sms, nos olhe nos olhos, basta-nos o seu sorriso, basta-nos o cheiro
do seu cabelo, basta-nos um “Bom dia!”.
No início magia é tudo.
A magia nos basta!
No início amor é tudo.
Amor nos basta!
Nada errado com gostar de magia, correto?
Depois a fase da lua-de-mel, a fase da descoberta. A fase em
que é fofo que ele espirre e é adorável que ela acorde despenteada. Essa fase
por vezes dura bastante tempo.
Quando a lua-de-mel acaba as coisas ainda são boas.
Tornam-se os melhores amigos. Habituam-se a ter com quem contar. Habituam-se à
rotina e não querem que nada mude.
No entanto, passado algum tempo… Ah! Passado algum tempo…
Vem a fase da negociação.
A fase em que “Fofinho, podias lavar o teu prato para a
próxima vez?” “Querida, ficavas tão sexy se usasses mais vezes aquelas calças
de ganga.”
A fase em que “Eu não quero ver esse filme. És sempre tu que
escolhes o filme.”
Ah! A fase que “Eu não gosto que faças isso. Eu quero que
isso mude!”
Ah! A fase do “Eu quero!”
Eis o problema com o amor.
Quando se vê o mesmo truque de magia vezes e vezes sem conta
deixa de nos fascinar. Deixa de ter o mesmo impacto. Deixa de nos bastar. Deixa
de ser o suficiente.
Eis o problema com o amor.
Ele agora acorda e já não tem tempo para tomar o
pequeno-almoço e se esquece de dar um beijo à saída.
Ela se esquece que ele gosta das calças de gaga apertadas e
passa a usar as calças de ginástica para sair.
Mas afinal, qual o problema de ver o mesmo truque de magia
vezes e vezes sem conta se o mágico é o mesmo? O mesmo que conseguiu causar tão
forte impacto com um simples sorriso, um simples “Bom dia!”
Que raio de problema de sério é esse que por ele não dar um
beijo à saída ou ela usar calças de ginástica o amor se perde?
Não! O amor não se gasta.
A magia, sim. A magia muda! O fascínio muda! A rotina muda! Porque na vida tudo muda!
Eis o problema do amor.
Queremos demais!
Sonhamos demais!
Sonhamos demais!
Exigimos demais!
Lutamos demais!
Não amamos com amor. Amamos com condições. Amamos com exigências. Amamos com
receios. Amamos com egoísmo. Amamos com medo. Medo da mudança! Medo de perder!
Medo de ser e de não ser! Medo que magoe! Medo que o encanto acabe! Medo que o
amor acabe! Medo de ser traídos! Medo de doer! Medo de não ser igual ao que
era! Medo da fantasia que desenhamos em papel de conto de fadas não se realize!
Medo!
Amamos com medo!
Amamos com egoísmo!
Amamos com exigências!
Amamos com insegurança!
Amamos com condições!
Amamos com paixão!
Amamos com ciúme!
Amamos sem amor…
Somos eternas crianças em corpo de adultos perdidos em busca
de felicidade em todas as coisas erradas.
Nunca deixamos de ser as crianças pequeninas que ao receber
um gatinho em casa o sufocam em atenção e ficamos muito ofendidos se o gatinho
pula para o colo do nosso irmão. Ficamos muito felizes se o gatinho ronrona nos
nossos pés e muito chateados se o gatinho nos arranha por o estarmos a apertar
demais nos nossos braços.
Quando vamos crescer?
Quando vamos aprender a amar o gatinho mesmo que ele faça
xixi na nossa cama e durma em cima do portátil?
Quando vamos a aprender que o gatinho tem a sua vontade
própria e que é impossível ser dono de um gato? Porque o gato é dono de si
mesmo. Somos seus companheiros. Não seus donos.
Quando vamos aprender que o gato não é um gato?
Penso que seja por isso que tenhamos irmãos. Uma forma da
natureza nos ensinar a amar. Amar de forma incondicional.
Somos capazes de fazer listas extensas, listas grossas,
listas detalhadas, listas que dariam bíblias de todos os defeitos dos nossos
irmãos. Sabemos o quão imperfeitos são. Sabemos o quanto limitados são. Sabemos
que apesar de tudo isso os amamos e os vamos amar para sempre. Mesmo quando
eles nos digam “Eu odeio-te!” não deixamos de os amar. Não deixamos de ser seus
irmãos.
Quando vamos aprender que o gato não é um gato?
Somos capazes de amar os nossos pais apesar de todas as
vezes que nos desiludiram, nos magoaram, nos ofenderam, nos envergonharam, nos
obrigaram a comer aquela porcaria de lixo a que eles chamam de couves de bruxelas.
Ierk!
Quando vamos aprender que o gato não é um gato?
É uma pessoa. É família. É aquela pessoa por quem te apaixonaste
e não aprendeste a amar. Não amor verdadeiro. Não amor incondicional. Amaste
com paixão. No entanto, amaste sem amor.
Amor não se gasta!
Amor é simples! Tão simples como respirar. Apenas queremos o
bem da pessoa amada.
Paixão é tão difícil! Tão difícil como o tempo congelar!
Apenas queremos que essa pessoa nos dê tudo para o nosso bem.
Eis o problema com o amor!
O verdadeiro problema com o amor!
É que não sabemos amar!
Nós amamos.
Contundo,
Amamos com medo!
Amamos com egoísmo!
Amamos com exigências!
Amamos com insegurança!
Amamos com condições!
Amamos com paixão!
Amamos com ciúme!
Nós amamos!
Contudo,
Amamos sem amor…
Agora que cresci vejo como pequeninos. Como somos crianças.
Como somos pequeninas crianças perdidas e assustadas em corpos de adultos a
procurar felicidade em todas as coisas erradas.
Quando vamos crescer?
Como vamos crescer?
Será que vamos crescer?
Eis o problema com o amor!
Somos crianças!
Crianças apaixonadas com a ideia de amor. Com ideia errada
que temos de amor das histórias que poetas pequeninos e infelizes
nos escreveram.
É preciso que uma dessas crianças diga: Eis o problema do amor!
Não sabemos amar!