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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

sábado, 30 de julho de 2011

Caça ao Tesouro

As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, a respiração estava entrecortada em dor e revolta. Sentia-se magoada, abandonada. Encontrava-se em desespero a correr por entre as árvores á procura do seu sítio especial.

Sentou-se no tronco caído, o seu tronco, era como um membro da família, um amigo ou um confidente, era especial para ela. Sentou-se e chorou tapando a cara com as mão em concha deitadas sobre os débeis joelhos cansados.

Um baú velho e estragado pelas chuvas estava a centímetros dos seus pés. Ela tirou da mala um papel e uma caneta e começou a escrever, a contar ao papel fruto das àrvores que a rodeavam o que lhe ia na alma, toda a dor, raiva e desilusão que a feriam por dentro. Parecia sangrar pelos olhos de tão vermelha que estava.

Apetecia-lhe vingar-se nas árvores, bater-lhes, abatê-las, queimá-las, no entanto, limitava-se a escrever. Os movimentos rápidos, ríspidos e profundamente vincados sobre o papel. Os suspiros e lágrimas não paravam a sua mão que remexia sobre a folha. Parecia que deixara a mão em modo automático e ela reproduzia o que lhe ia na alma.

De súbito deixou cair a caneta, a mão desmaiou, o papel caiu-lhe dos joelhos já habituados a servir de mesa. Sónia respirou fundo, fez um esforço tremendo para levantar a mão e com as duas limpou o rosto inundado. Levantou a folha de papel, dobrou-a, abriu o baú completamente recheado de desabafos e guardou mais um.

Passaram-se muitos anos e Sónia visitou aquele tronco caído muitas e muitas vezes até ao dia da sua morte. Morreu de um AVC aos cinquenta e quatro. E por razões que a defunta levou para o túmulo ela deixou uma carta como herança ao filho.

O marido ficou surpreso porque a mulher não lhe tinha escrito nada e ainda mais surpreso por ser tão estranha a carta dirigida ao filho. Afinal nada pode ser mais invulgar que mandar o filho numa busca ao tesouro, embora, de facto, todos sabiam que ela havia escondido os ouros da mãe algures.

O filho, Bruno, interpretou aquela pequena carta como um desafio, levou a carta no bolso do casaco e foi para casa ter com a esposa com quem se havia casados dois meses antes da inesperada morte da mãe.

A esposa, Rita, era uma mulher jovial, aventurosa, contudo, algo desastrada. Mas Bruno encantava-se com o seu jeito desastrado de tropeçar, derrubar... queimar o bolo de anos dele... Achava graça pois ela lidava com esse seu defeito com risos e gracejos.

Apesar disso, nada escapava ao radar de Rita, se ele lhe escondia algo ela sabia antes mesmo dele pensar em esconder. E nessa noite não foi diferente.

Bruno chegou e ela estava a pôr a mesa, ele entrou e ela queimou-se ao agarrar no bule de chá. Ele acudiu-a de imediato. Ela queixava-se de dor ao mesmo tempo que ria para não o preocupar.

- Fica com a mão aqui debaixo dá água. – Abriu a fonte. – Eu vou buscar a caixa de primeiros socorros.

Ele voltou e passou uma pomada na delicada mão de Rita.

- Que se passa? – Perguntou ela.

- O quê?

- Eu conheço essa rugazinha entre as tuas sobrancelhas. – Tocou-lhe com um dedo no local com carinho.

- A minha mãe deixou-me uma carta.

- Posso ler?

- Eu prefiro que seja uma coisa só minha.
Rita ficou quase ofendida por ele a excluir. Tirou a sua mão de entre as dele e envolveu-a ela mesmo na ligadura.

- Eu ajudo-te.

Ela consentiu estendendo-lhe novamente a mão.

- A carta fala sobre o quê?

Ele hesitou.

- Coisas de mãe.

- Bruno…

- Ela… - Suspirou. – Ela escreveu-me uma carta a pedir-me para procurar o tesouro dela.

- Tesouro?

- Sim. A minha mãe foi uma mulher invulgar, excêntrica. Ela escondeu as jóias que herdou da mãe dela em sabe-se lá onde.

- Interessante. Deixou pistas ou um mapa na carta?

- Não, apenas diz que tenho de ir ao “seu sítio especial”. Na carta diz que ela me levou lá em criança, mas não tenho memória disso.

- Convém lembrares-te. Tenho a certeza que ela queria que encontrasses. É a última coisa que podes fazer por ela.

As palavras de Rita repetiram-se na sua mente toda a noite. Mal dormira. Não só de curiosidade, como por conhecer a mulher que estava deitada do seu lado, na certeza que mal ele adormecesse ela ia procurar a carta.

Claro que ele acabou por adormecer. Acordou com a doce Rita com uns olhos super amorosos a olhar para ele e dizer um angelical: Bom dia!

- Bom dia, anjo.

- Fiz-te o pequeno-almoço. Anda para a mesa.

E de pequeno não tinha nada. Panquecas, bolo, sumo de laranja natural, iogurte com frutas.

- Rita, eu não vou comer isso tudo.

- Come o que quiseres, mas não comas demais porque a sobremesa é bem melhor. - Disse sorrindo-lhe com um olhar matreiro.

- Acho que vou passar de vez à sobremesa. – Beijou-a.

Quinze a vinte minutos depois ele começou a comer as panquecas e ela roubou-lhe o iogurte com frutas.

- Eu encontrei a carta.

- Eu já sabia. Não me fazes o pequeno-almoço desde do dia em que te pedi em casamento. Já sabia que havia coisa. – Chateado.

- Eu tinha de ler. Dizes-me algo tão fantástico como uma caça ao tesouro e queres me deixar de fora? Não dá bebé.

- Não venhas com bebé. Eu não te estava a deixar de fora. Nem sei se vou seguir o plano da minha mãe.

- Vais porque aqui diz. – Ela tira a carta debaixo da toalha. – “No teu livro preferido vais encontrar a resposta.”

- Tinhas a carta debaixo da toalha? Nós estivemos juntos em cima dessa toalha?

- Isso não importa.

- Mostra algum respeito pela minha mãe!

- Eu adorava a tua mãe. Por isso é que sei que não podes ignorar essa carta. Ela era fascinante, adorava compreender a mente dela. Por favor, vamos fazer isso.

- Okay. – Consentiu com um suspiro.

- Boa. Adoro-te. – Beijou-o e depois beijou a carta entusiasmada pela aventura.

- Agora dá cá isso. – Tirou-lhe a carta. – Vai-te vestir rápido porque temos de trabalhar.

- Hoje levas-me? – Perguntou num tom neutro.

- Levo. Eu já vi o que fizeste ao teu carro. – Riu-se apesar dos custos que lhe ia causar.

Na hora de almoço dele, bruno esquivou-se e foi até á casa dos pais. O pai não estava por pura sorte, até porque ele não queria falar sobre isso com o pai que estava desolado por ter perdido a mulher que amou toda a vida.

Entrou no seu quarto de solteiro e foi á estante dos livros. Não estava lá. Então lembrou-se que tinha posto as suas coisas de miúdo no sótão e foi á procura da caixa.

Demorou bastante tempo mas encontrou. Infelizmente o pai chegou a casa e ouviu barulhos no sótão, disparou a arma várias vezes pensando ser um ladrão e Bruno acabou por saltar pela janela do sótão.

Mais tarde ligou à Rita a dizer-lhe que não a podia ir buscar porque estava no hospital. Deslocou o ombro quando se agarrou à árvore para atenuar a queda. Talvez se tivesse magoado menos se tivesse simplesmente caído sobre os arbustos.

Rita apanhou um táxi para o hospital contra a vontade do marido e voltaram os dois juntos para casa. Ela toda preocupada, a ajeitá-lo na cama com almofadas. A intenção era boa, mas ela estava a magoá-lo, por fim ele disse:

- Traz-me um chá, se faz favor.

E lá ele empurrou as almofadas e pôs-se razoavelmente confortável. Quando ela voltou ele simplesmente pousou o chá na mesa de cabeceira e estendeu o braço são para que ela se deitasse colada a ele. Ela percebeu a mensagem. Quando ela estava prestes a dormir ele decidiu contar-lhe:

- Trouxe o livro.

- Onde está? – Levantou-se de súbito.

Ele riu-se antes de responder.

- Deixei no sofá por baixo do meu casaco quando entramos.

Ela correu a buscá-lo.

- Vamos lê-lo.

- Estou cansado.

- Por favor.

- Meu sonho, eu quero dormir e sonhar contigo numa praia, vestido apenas…

- Pára. Dispenso saber pormenores desses teus sonhos.

- Esquisitinha. Mas continuas a ser a minha fofinha.

- Oh. Obrigada. Agora vamos ler. – Enroscou-se a ele.

Ele deixou-a ler enquanto tentava adormecer. Não foi difícil consegui-lo, a voz dela a ler-lhe uma história fazia lembrar-lhe os tempos de criança em que a mãe lhe lia aquele livro.

De manhã quando Bruno acordou, Rita estava uma pedra, dormia profundamente sobre o seu ombro saudável com o livro aberto caído sobre ela.
Ele levantou-se com cuidado, fechou o livro e pôs-lho sobre a mesa de cabeceira. Ela acordou quando ele saiu da cama.

- Bom dia!

- Bom dia, anjo! Estavas adorável a dormir.

- Linda. – Disse com ironia. – Vou arranjar-me.

- Passaste a noite a ler?

- Sim. – Respondeu enquanto se vestia. – Não encontrei nada até agora.

- Talvez a minha mãe só quisesse que eu recuperasse essa parte da minha infância e o sítio especial seja a infância.

- Amor, o que estás a dizer não faz grande sentido. Se ela escondeu jóias tens de as encontrar.

- Só estás a pensar no dinheiro. Eu preferia que a minha mãe me tivesse deixado algo mais profunda que isso.

- Não percebes? Eu estou fascinada pela aventura. Estou curiosa sobre o que vai acontecer. – Parou de se vestir e fitou-o nos olhos.

- Eu preferia que tivesses mais interessada no facto de eu ter perdido a minha mãe.

Ela calçou as botas.

- Não me pareces muito perturbado.

- Que queres dizer com isso? É a minha mãe, só se tem uma na vida e eu adorava a minha.

- Desculpa, doce. Olha, vamos esquecer essa caça ao tesouro por completo até te sentires preparado.
Ele agarrou no livro e disse:

- Isso é uma coisa minha. Deixa tratar disso sozinho.

Ela ficou a remoer de raiva.

- Okay. – Saiu do quarto.

Há noite era visível o clima de tensão. Ela no balcão da cozinha a navegar na Internet e ele sentado no sofá a ler o livro e tirar notas e mais notas á medida que ia lendo.

Um sentimento desagradável percorria as veias de Rita. Estava furiosa e magoada. Ninguém o podia ajudar mais que ela. Para além disso, nunca antes ele a tinha excluído de algo. Partilhavam tudo. Eram a sua principal característica como casal.

Passaram dois dias e o clima era o mesmo. Andavam a deitar-se a horas diferentes e evitavam tocar um no outro durante toda a noite. Achavam que o outro estava a exagerar na reacção.

Há uma mania muito má em culpar o outro pelos males da relação, quando na verdade, a culpa costuma ser dos dois. Ele estava de luto e queria aquele restinho da mãe só para ele e ela sentia que o marido a estava a dar um empurrão e isso magoava-a.

Claro que na cabeça dele ela estava a ser infantil e na cabeça dela ele estava a ser insensível. O cliché do costume. Por alguma razão as pessoas não conseguem ver os passos que deram, só vêm os passos em falso que o parceiro deu. Seria mais útil deixarem a culpa de lado e concentrarem-se no que interessa.

Foi o que aconteceu na terceira noite.

Rita estava completamente convicta de que a culpa de estarem tão afastados era de Bruno. No entanto, estava com saudades de dormir abraçada a ele e de ouvir um bom dia suave e carinhoso em vez de seco se existisse, por isso, aproximou-se de Bruno com uma caneca de chá.

- Não quero, obrigada.

Ela pousou a chávena mesmo assim e sentou-se ao lado dele.
Bruno agarrou nas folhas e levantou-se.

- Espera! – Segurou-o pelo braço. – Desculpa.

- Achas que uma palavra resolve tudo?

- É uma palavra mágica. – Olhou para ele com esperança.

- Rita, eu não quero partilhar isso contigo.

- Okay. Eu não me importo. – Claro que se importava, mas queria o marido de volta. – Podes fazer o que estás a fazer quando quiseres, mas por favor, - Olhou-o com uma doce tristeza nos olhos. – Vamos parar com isso.

- Isso o quê?

- Essa linha de tensão entre nós.
Ele sentou-se e pousou os papéis na mesa.

- Rita, eu não acredito que ela morreu. – Finalmente saíram as palavras que lhe torturavam o coração.

- Eu lamento muito Bruno. – Aproximou-se dele e sem ter de dizer nada ele deixou cair a sua cabeça no peito dela.

Ficaram assim abraçados pelo que pareceu a eternidade e depois ela convenceu-o a ir para a cama. E nada sela melhor um tratado de paz num casal como uma noite de amor.

Pela manhã, a irmã que ele não vê à anos bate-lhe á porta como se fugisse de um incêndio. Abriram-lhe a porta com admiração.

- Olá irmãozinho. Estás com bom aspecto, ela anda a tomar bem conta de ti, não é? Bem gira. – Olha-a de cima a baixo.

Rita faz o mesmo. Olha aquela criatura de cima a baixo. Roupas extravagantes e cabelo rebelde, radical e algo ridículo. A mascar uma pastilha que a deixava com a boca azul. Rita não simpatizou com a nova parente.

- Que fazes aqui?

- Recebi a carta da mãe. Bom saber que ela não sofreu na hora de bater a bota, não achas?

- O que diz na tua carta?

- Muita coisa. Uma delas é que eu devia procurar-te porque tens a primeira pista. Já agora, eu tenho a segunda.

- Qual é?

- Dá-me o livro que já te mostro.

Ele entregou-lhe o livro e ela com um canivete que tinha no bolso assustou Rita por acidente e cortou descolou a folha de contra capa de propósito.

- Olha só.

E ali estava o mapa desenhado à mão com uma precisão inacreditável. Ele sabia que a mãe tinha tido aulas de desenho, mas não fazia ideia de que era tão boa. Ficou apaixonado pela firmeza e suavidade de cada traço, algo difícil de descrever.

- A tua mãe viu muitos filmes em vida.

- Na verdade ela contava-nos uma história sobre dois irmãos que encontraram num livro um mapa e foram juntos em busca de um tesouro. Como era a história?

- Eu lembro-me da história, por isso é que sabia onde estava o mapa.

- Não foi a pista que a mãe te deu?

- Irmãozinho, na minha carta devia falar o mesmo que a tua, apenas no livro. Eu lembrei-me de quando a mãe nos lia a história mudava. Era a mesma história, mas crescia cada vez que ela nos lia.

- Bem, eu não me lembro disso.

- Eras uma formiga.

- Do que te lembras?

- Ela falava num sítio mágico onde quem lá entrasse abandonava tudo o que era mau, ficava puro. Mas para isso era preciso tocar na árvore mais velha.

- Ou seja, é provável que seja uma mata ou bosque.

- Ou um jardim. Lembrei-me que ela nos levava a um jardim.

- Não bate certo com o mapa.

Rita interrompeu o diálogo para olhar o mapa.

- Tem de ser algum sitio perto de vossa casa.

- Porque dizes isso? – Perguntou Bruno.

- Olha isso aqui?

- Uma cama! – Afirmou.

- É claro. Começa no sitio onde ela nos contava a história. Temos de ir lá. – Disse a irmã.

- Não. Não quero que o pai se envolva. Ele ficou de rastos por a mãe nos ter escrito e não ter deixado nada de valor sentimental para ele.

- Eu distraio-o. – Ofereceu-se Rita numa tentativa de entrar na caça.

- Sim. É uma boa ideia. – Concordou a irmã.

Rita começou a sentir alguma simpatia por ela.

- Eu não sei se é boa ideia. – Hesitou Bruno.

- Bruno, pára com isso. Ela trata do pai.

- Cecília, tu não dás ordens. Pára de tentar.

- Seja como for. Vamos. – Ordenou Cecília.

- Hoje é sexta-feira. Nós temos de trabalhar. – Disse Rita.

- Tu, talvez, mas eu estou de baixa por causa do ombro.

Rita ficou furiosa. Contrariada lá foi trabalhar.

Há noite o marido não estava em casa.

Ela preocupada ligou-lhe vezes sem conta até por fim ver o bilhete no
frigorifico: “Sai, Volto mais tarde.”

Que invulgar. Nunca antes ela tinha chegado a casa sem ele a esperar. Não gostou nem um pouco da situação. Estava curiosa e algo irritada por mais uma vez ela estar a ser excluída.

Ele chegou tarde. Duas da manhã. Ela acordada, já tinha ligado para o hospital e até para a polícia.

- Onde estavas?

- Estive com a minha irmã.

- Tu estás bêbedo.

- Só um bocadinho.

Ela não quis ouvir mais nada. Foi para a cama.
Por essa altura uma questão se exaltava na mente: “O que nos está a acontecer?”.

Era óbvio que ele estava diferente. A morte da mãe o afectara mais do que ele imaginava. Pequenas coisas na mulher o faziam lembrar a mãe e ele afastava-a.

Porém, na manhã seguinte, já sóbrio, Bruno acordou e Rita estava a comer com uma cara de exaustão, própria de quem dormiu pouco e mal.

- Desculpa-me.

- Não me voltes a fazer isso. Fiquei preocupada.

- Não via a minha irmã há muito tempo.

Ela não quis dizer nada. Sentou-se no colo dele abraçando-o e beijou-o suavemente.

- Estava com saudades disso. – Disse ele.

- Eu também.

Seguiu-se um daqueles momentos em que ninguém diz nada mas estão a dizer tanta coisa nesse silêncio. Algo como “amo-te”, “quem me dera que esse momento nunca mais acabasse”, “estás tão linda como no dia em que te conheci”. Tudo sem a necessidade de usar palavras.

Um olhou o relógio e era uma maneira quase rude de dizer “desculpa arruinar esse momento, mas temos de ir trabalhar.”, mas não foi. Em vez disso depois de olhar o relógio ambos sorriram porque era sábado e tinham tempo para voltar para a cama.

Depois disso ficaram a falar, a sussurrar entre as paredes do quarto o que iam fazer naquele dia.

Rita foi buscar o mapa e pôs-se a analisar.

- Sabes, esse símbolo não me é estranho. – Aprontou para a figura.

- É a marca de um carro.

- Faz sentido. – Riu.

- O que significa?

- Não faço ideia.

- Isso não é resposta que se dê.

- Eu não sei. Depois tento perceber. Agora põe isso de lado vamos dormir um bocadinho.

- Estás de ressaca?

- Não fazes ideia de como a minha cabeça está.

Ela sorriu e deixou-o dormir enquanto pensava sobre o mapa.
Na semana que se seguiu não falaram uma única vez sobre o assunto, nem mesmo quando Cecília parava lá em casa e tentava falar sobre isso. Eles simplesmente não queria pensar no assunto por uns tempos.

Contudo, no sábado seguinte depois de Rita acordar um pouco mais tarde que o habitual, Bruno estava de roda dos seus papéis e notas. Coisas de que se lembrava ou coisas que lhe pareciam relevantes.

Rita decidiu espreitar. Ele não a impediu. Estava perdido sem saber que direcção seguir. Ele queria muito satisfazer a última vontade da mãe e sabia que a mãe o tinha desafiado a ele e à irmã por alguma razão, uma boa razão.
Sempre fora uma mulher que pensava em cada passo que dava. Educara os filhos com exemplos reais e a deixá-los cometer erros para depois os corrigir e ensinar o que estava certo e o que estava errado e por vezes admitia que era ela quem estava errada.

Ele recordava de todos os pormenores característicos da mãe. Inclusive como ficou chocada quando ele anunciou o casamento, mais por medo de ver o filho crescer tão depressa que por desgostar da nora. Na verdade, simpatizava bastante com ela, fazia-a lembrar-se de si em nova.

Rita ao olhar para aqueles papéis viu um certo desespero, nunca tinha visto Bruno assim antes. Ele anotou coisas como o que a mãe fazia para comer aos fins-de-semana, o que disse numa ou outra conversa casual. Quase suava a obsessão, mas ambos sabiam que era pura saudade.

- Bruno, não vejo nada aqui de útil.

- Tem de ter alguma coisa. Eu tenho de me lembrar de alguma coisa. Tenho de me lembrar. – Manifestava verbalmente o seu desespero.

- Se calhar era boa ideia ligares á Cecília. Ela é mais velha, tem mais memória da vossa infância. Tu eras pequeno demais.

- Não! Eu tenho de descobrir isso antes dela.

- Tenho a certeza que a vossa mãe não queria que competissem.

- Mas eu quero!

- Porquê?

- Porque sim.

- Bruno, fala comigo.

Ele suspirou.

- Eu vou ligar-lhe.

- Mas não ias competir?

- Eu… Olha… Doce, eu não sei o que estou a fazer. Só quero acabar com isso.

Ela não disse mais nada. Apesar disso, pressentia que quando acabasse ele ia sentir-se algo desiludido por não ter mais nada que mantivesse a mãe viva. Afinal, de certa forma, era isso que ele estava a fazer. A pensar nela constantemente, a repetir as suas palavras e tentar copiar a sua maneira de pensar.

Ele lá ligou á irmã e talvez se venha a arrepender disso pois ela é extremamente inteligente ao contrário do que o seu aspecto possa dizer e essa caça ao tesouro ia acabar em breve e em breve ele ia perceber o propósito de tudo isso.

Foram até casa de Cecília e a sua casa estava bem a propósito da sua imagem. Parecia uma casa de bruxas ou amaldiçoada. Os olhos de ambos pareciam procurar um caldeirão e um livro gordo e velho.

Sentaram-se no sofá duro como tudo e iniciaram a conversa.

- Estou a ficar doido. Temos de perceber o que ela nos quis dizer.

- Será que algum de vocês me poderia deixar ler a carta?
Cecília respondeu “claro” enquanto Bruno mostrava-se hesitante.
A carta de Cecília foi entregue a Rita:

“Querida Cecília,

Não tenho muito a te dizer pois toda a vida disse-te o quanto tenho orgulho em ti. És incrivelmente inteligente e confio na tua inteligência para encontrares o meu tesouro.

É o que pretendo que faças por mim. Encontra o tesouro. É maior do que pensas e peço-te que o faças por mim e não pelo dinheiro. Escondi-o no meu sítio especial. Encontrarás o que precisas para o descobrir no teu livro preferido.

Despeço-me dizendo-te apenas que foi um prazer ser tua mãe e fazer parte da tua vida até este momento em que tive de partir. Não é um momento para tristezas, pois toda a gente tem o seu dia e o meu já foi.

Com muito amor
Mãe.”
- Realmente ela não deu muitas pistas…

- Foi o que disse. – Resmungou Bruno.

- És capaz de parar com isso? – Disse Rita.

- Não te pedi para vires.

- Outra vez isso?

- Hei, meninos, o infantário acabou. Não é ela a mulher que amas? – Nem esperou pela resposta. – Partilhas a cama não vejo porque não possas partilhar uma coisa em que de facto precisas dela.

Ele não se atreveu a contestar.

- Voltando ao que interessa. No livro só encontrei o mapa. – Disse Cecília.

- Bem, eu posso ter encontrado qualquer coisa. – Informou Rita.

- O quê?

- Bem, pode ser que esteja errada, mas no livro tem um homem que conduz um carro antigo, ele é simpático e fica de olhos nas crianças enquanto brincam. Reparei que o símbolo do carro é parecido ao do mapa.
Bruno abriu o livro e confirmou.

- Sim, tens razão.

- Volta a me descrever o dono do carro. – Pediu Cecília com um olhar desconfiado.

- Ele vigia as crianças, toma conta delas e segundo o que percebi ele era um soldado ou algo do género. É um homem…

- Espera ai, eu já percebi! – Exclamou Cecília.

-Percebeste o quê? – Perguntou bruno.

- Soldado, carro antigo, vigia as crianças e sabes que mais, ele também é um homem bondoso e corajoso. Quem é que a mãe descrevia assim?

- O pai, é claro. Como não vi isso antes?
Então finalmente falaram com o pai. Mostraram-lhe a carta e ele ficou emocionado ao ouvir na sua mente a voz de Sónia, a sua amada.

- O sítio especial dela. Ela mencionava-o muitas vezes nas cartas que me enviava quando estava no serviço militar longe de casa.

- Algum dia disse onde ficava?

- Queria eu. Era o segredo dela. Nunca lá ia quando eu estava de licença. Nesses períodos estávamos sempre juntos. Estar afastados nos obrigava a nos redescobrir e reconquistar de todas as vezes. Passei toda a vida a redescobrir a vossa mãe e de todas as vezes tinha uma agradável surpresa.

- Pai, no livro fala de um ex-soldado com um carro antigo e a descrição da psicológica dessa personagem encaixa com a descrição que a mãe fazia de si. – Explicou Cecília. – Não há nada que nos possa dizer que nos possa ajudar?

- Desculpem, mas não faço ideia. Ela sempre fez disso um enorme segredo. Eu até que gostava disso, dava-lhe mistério, tornava-a fascinante.
- Ninguém a conheceu melhor que o senhor. Olhe para esse mapa. – Pediu Rita.

- Onde vocês encontraram isso?

- No livro. Porquê?

- Eu conheço esse sítio aqui. Apontou para um portão. É na nossa antiga casa.

A partir dai o caminho ficou mais fácil. Encontraram o portão, passaram pelo ferro-velho que fazia sentido com o sinal de um carro, passaram por um cruzamento e foram parar a um pequeno mato.

Perderam-se em vinte segundos, deve ser um recorde. Cecília estava irritada, Bruno desiludido e Rita com frio e fome. Okay, todos tinham frio e fome.

Continuaram a andar dessa vez á procura de uma saída, de som de carros ou de agia, alguma coisa que os ajudasse a sair dali ou pelo menos a sobreviver.

Já estava arrependidos de se meter nessa aventura e zangados uns com os outros porque a fome tem esse efeito nas pessoas, deixa-as irritadas. E para melhorar tudo o ombro de Bruno estava a doer e Rita tropeçou num tronco e magoou-se no tornozelo.

Ficaram ali sentados a pensar no que iam fazer a seguir. Falaram, gritaram, culparam-se uns aos outros. O habitual. Depois acalmaram-se e conversaram toda a noite. Estava escuro e frio, mas estava todos juntinhos e os risos dava alguma luz ao lugar.

De manhã quando acordaram Cecília já estava acordada, estava com um papel na mão, estava a lê-lo e estava emocionada.

- O que é isso? – Perguntou Bruno.

- São cartas. Montes e montes de cartas da nossa mãe.

- O que dizem?

- São cartas que ela escrevia quando o pai tinha de voltar ao trabalho militar, cartas em que ela conta o como era difícil ser-se mulher de um soldado. Quando ela ouviu na rádio sobre dezenas de mortes ela imaginava que o pai podia ser um entre aquelas dezenas de soldados mortos, apenas mais um corpo vitima da guerra.

- É esse o tesouro? – Perguntou Rita num tom neutro.

- Sim. E naquele pequeno baú também tem jóias, tudo em ouro e parece-me que tem algumas pedras preciosas, não são muito grandes, mas são jóias clássicas, valem, de certeza, imenso. Mas essas cartas… O pai tem de as ver.

- E saber o quanto a mãe sofreu por ele?

- Saber o quanto o amava.

- Não!

- Deixemos que seja ele a decidir. Além disso, ainda não descobrimos como sair daqui.

Felizmente o pai deles sabia que estavam na mata e calculou que estivessem perdidos, mandando assim uma equipa de resgate.

Foram encontrados e explicaram aquele ex-soldado, viúvo, o que continha no baú. O velho ficou chocado, emocionado, em alegria ou tristeza, quem sabe, nem ele sabia ao certo.

Abriu a caixa e quase sentia o perfume da mulher. O perfume não estava lá, era a lembrança que lhe parecia tão viva que o nariz lhe cheirava a presença.

Tocou com os dedos sobre as páginas e páginas de cartas. Apenas para sentir a profundidade das letras, a intensidade da escrita. Encostou uma carta junto ao peito e conteve uma lágrima de saudade.
Olhou as jóias e sorriu ao de leve.

- Aqui está o tesouro que ela escondeu toda a vida. Mesmo quando estava a
passar maus bocados comigo fora e a comida já faltava, ela nunca mexeu num só broche da mãe, nem um brinco. Está aqui tudo. Bem que ela podia ter vendido isso e ter tido uma vida melhor, mas ela bonita como era também podia ter casado com um homem que lhe desse melhor vida e aqui está a prova de que me escolheu a mim. – Mostrou a aliança no dedo.

- Então, pai, - Perguntou Bruno. – Vai ler as cartas?

- Não. A tua mãe sempre foi uma mistério para mim, quero que continue assim. Façam com isso o que voz apetecer. Só há uma coisa que quero daqui. – Agarrou num gancho de cabelo. – A vossa mãe usava isso no dia em que nos conhecemos. É a única coisa que preciso dela.

Não podia o homem ter feito melhor escolha.

Três meses depois um livro foi publicado: “A Mulher Do Soldado” em que foram publicadas as cartas de uma esposa que vivia em agonia receando perder o seu marido e do pai dos seus filhos.

Quanto às jóias, ninguém sabe do paradeiro. Mas de certo que estará num sítio especial.
Publicada por Unknown à(s) 13:07 0 comentários
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