Rio.
Rio bem alto e a bom som.
Rio tanto que me falta o ar.
Apesar disso, páro de rir por um momento para te contar uma história.
Era uma vez uma princesa... Não! Uma princesa não. Era uma menina. Uma menina com os seus... trinta anos. Uma grande de uma menina. Uma mulher. Uma grande de uma mulher. Um mulherão de mulher. Bastava entrar numa sala para todos mostrarem respeito, para todos calarem e ouvirem.
Bem, pelo menos era essa a mulher que ela era em menina e era essa a mulher que admirava e amava. Amava a mulher que sonhava ter uma vida cheia de luz, cheia de alegria e movimento e acção e emoção e era uma mulher apaixonada pela vida como nunca vi. E era apenas uma menina.
Lembro-me tão bem dessa menina...
O que lhe aconteceu?
É essa a história que tenho a contar.
Retomando: Era uma vez uma menina. Uma menina alegre e confiante. Todas as outras transpiravam suor, ela transpirava luz. Era um encanto. Por onde passasse era conhecida pelo seu sorriso e simpatia. Inteligente, bonita. Ela era perfeita.
Ok, perfeita não era. Ela tinha defeito terrivel. Um defeito verdadeiramente terrivel. Destroçava todos os corações da escola por não querer nenhum. Inclusive o meu. destroçou o meu coração. Ou destroçaria se algum dia lhe dissesse o quanto a amava e admirava.
Adorava fazer-lhe tranças no cabelo e ouvi-la falar fosse do que fosse, não importava, eu não estava realmente a ouvir. Só ouvia a paixão, a alegria na voz dela, o entusiasmo por tudo e por nada e por qualquer coisa.
Agora a vejo e uma coisa dentro de mim se dobra e redobra e contorce e dói muito ao ver que a alegria se desvaneceu... Que os lábios deixaram de ser uma moldura para um sorriso, que os olhos choram mesmo sem lágrimas e que a vida que outrora havia findou.
O que lhe aconteceu, afinal?
Casou.
Ela casou com um bom homem. Um homem que não a merece nem por sombras. E quando disse que era um bom homem estava eu de certo a mentir, como mentiu-lhe ele ao fazê-la acreditar que a trataria como uma princesa. Mas nessa história não há princesas. Mas havia uma menina e agora não há.
E vilão? Há vilão nessa história?
Bem, chamar de vilão a tão bom homem?! Ficaria até mal por essas palavras em minha boca. Não! Essa história não tem vilão! Tem um bom monstro, daqules doces que levamos para casa, damos banho, damos de comer, mas não deixam de ser monstros, é a sua natureza.
Mas bem, o monstro matou a menina. A princesa era apenas mentira. O princepe era afinal o monstro e o herói? Não tem herói a história? Quem vai salvar a menina? Ah! Pois... Tinha-me esquecido. A menina está morta.
Embora a menina esteja morta, afinal há sempre um herói. O herói sou eu. Aquele que não se declarou, que não teve coragem, que não lutou, aquele que foi padrinho no casamento, aquele que ofereceu tachos e panelas, aquele que fingiu-se feliz por achar que ela estaria em segurança.
Eu sou o herói que está em casa a escrever a história de encantar mais desencantada que desencantei dessa vida em vez de fazer alguma coisa para mudar o fim da história.
Eu sou o herói que a ama, que a faria feliz, que ressussitaria a menina, que traria uma princesa à história, que traria até pequeninas princesinhas para a história, mas que está em casa, no sofá, a escrever uma história sem qualquer rumo.
Eu sou esse herói... Sou um grande de um herói, ou seria, se me levatasse do sofá.
E porque não? Posso-me levantar do sofá, posso até, olha vê lá, posso ir deitar-me para cama. Uma cama vazia, fria, num quarto vazio e frio, na minha que é como o meu frigorifico: vazio e frio.
Ela não é fria. Nunca o foi. Nem mesmo agora que pouco resta do que havia. Ela é calorosa.
Ainda sinto um certa vontade de chorar ao lembrar que ela disse Sim quando o padre perguntou se ela queria acabar de vez com as hipoteses que eu tinha de a ter.
Ainda a amo. Mentia se dissesse que não. Ela é a menina pelo qual me apaixonei à tantos anos atrás. A imagem do seu sorriso permanece intacta e, no entanto, sinto saudades de o ver e ouvir e tocar o seu cabelo e fingir que ouvia as suas palavras.
Que estou a fazer?
Ela está infeliz, eu estou infeliz.
Ela queria filhos, queria uma carreira, queria uma vida preenchida e nem um cão tem. A vida dela é ele. Ela vive o que ele permite viver. E fá-lo porquê? Talvés por amor, mas que amor é esse que a fez tão infeliz? Me amasse a mim que a faria uma princesa, uma rainha, uma imperatriz ou nada disso, mas certamente feliz. Eu a faria feliz.
O telefonou tocou. Era ela. Me emociono só de ouvir a sua voz chorosa a chamar o meu nome e esperando um amigo. E aqui estou, o herói amigo...
Não! Dessa vez não! Não fui! Não sou! NÃO QUERO MAIS SER O AMIGO!
- Eu amo-te! Sempre te amei!
Um silêncio enorme fez-se do outro lado. Fui capaz de ouvir os seus pensamentos. Nada lhe ocorria para dizer. Assustei-a.
- Sónia... Eu sempre te amei.
Ouvi um soluço, cortou-me a respiração reparar o que se passava do outro lado, mas perguntei:
- Estás bem?
- Porque me estás a dizer isso agora?
Sim! O soluço não foi impressão minha. Ela tentava sufocar o som, mas sabia que chorava, não sabia era porquê.
- Não sei. Quis apenas dizer-te.
- Marco... Eu não sei o que dizer.
- Diz-me porque estás chorar.
- Nunca me disseste isso.
Senti na minha alma as lágrimas a lhe descerem do rosto.
- Pois não...
- Porquê só agora?
- Só agora as palavras sairam da minha boca. Só agora tive coragem.
- Agora que me pesa um anel no dedo?!
- Agora que estás infeliz e sei que mereces melhor e pela primeira vez sinto que sou bom o suficiente para ti.
- Sempre foste.
- Que queres dizer?
- Achas que me foste indiferente todos esses anos?
Emocionei-me ao ouvi-la dizer isso.
- Porque nunca me disseste nada? Farias-me tão feliz se o tivesses dito.
- Não disse talvés pelas mesmas razões que tu não disseste.
- Tu eras perfeita. Eras demais para um rapaz como eu.
- Não. Não era. Era perfeita para ti e tu para mim e nós, duas crianças, dois tolos, nunca tivemos coragem de o dizer.
Finalmente fui o herói.
Passaram-se anos desde comecei a escrever essa história e hoje, finalmente vou acabar de onde tinha ficado.
Já não estou no sofá, levantei-me e fui um verdadeira herói, da minha e da vida dela.
Era uma vez uma menina que cresceu e tornou-se mulher, que casou e foi infeliz, que foi salva por esse herói aqui. Essa menina vive com um herói que ama numa casinha com jardim e dois cães, tem um filho pequeno e trabalha com o marido, que sou eu.
Por isso, rio.
Rio alto e bom som.
Rio tanto que me falta o ar.
Dessa vez não páro de rir para contar uma história
Dessa vez, tenho motivos para rir: Sou feliz.
E continuo a rir a viver a minha história com ela do meu lado.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O Nosso Paraíso
Eu sou a Vida, a deusa das águas.
Só é possível comunicar comigo no topo da montanha mais alta, tão alta que ultrapassa o gelo do céu.
O topo dessa montanha é morno como a água de uma banheira, mas as minhas águas, as águas da cascata lá no topo que rolam montanha abaixo são frias, geladas, gélidas.
A montanha é morna, agradável, confortável, convidativa, mas quem ousa tocar nas minhas terras sem a minha permissão está a tocar na sua perdição, pois sou eu a dona da montanha, a deusa da água, sem mim não é possível sair com vida do meu pequeno paraíso.
Ao intruso que ousar invadir-me e roubar-me o alimento das árvores e dos solos terá o seu fim, afinal, são as minhas árvores e é o meu solo e sem a minha água, as minhas mãos a lhes tocar, secam e deixam à míngua quem contava com alimento que não lhe pertence.
O meu nome é Vida, porque, como é óbvio, sem mim todos morreriam.
A minha montanha é o paraíso, pois só desfruta dela quem é merecedor de beber da minha água e comer dos meus frutos, abrigar-se na sombra das minhas árvores, cheirar as minhas flores e desfrutar das sensações corporais e físicas da água gelada a banhar o corpo e aquecer-se-me a temperatura… Quem eu bem entender e só quem eu bem entender terá esse privilégio.
Todos os que ousaram tocar no meu solo, passar as barreiras do céu e chegar até mim, agora, são pedras no meu jardim.
No entanto, habita carne aqui em cima. Carne pura, carne valente, carne não de humano, mas de outra espécie. É Círio, o dragão do vulcão extinto. Não há vida no seu vulcão e eu o recebi no meu vulcão de água activa.
Círio vive na minha montanha, outros morrem nela.
Rego os meus solos para lhe dar de comer, lhe dar que cheirar, lhe dar onde se abrigar e é na minha água que Círio se vem banhar e eu dou-lhe de beber.
Eu sou a própria água, dou-me para que ele possa viver.
Círio nunca será um apóstolo ou um discípulo, Círio é a língua que serpenteia e cospe fogo para proteger o que a ele pertence, o que a mim pertence, o que a só nós pertence.
A Vida é dona de tudo e Círio é tanto de Vida como Vida é de Círio.
Dou-lhe a minha água e ele dá-me todo o seu fogo.
O vulcão se extinguiu mas ele não. Círio tem mais poder que todos os vulcões que possam acordar ou que fingem dormir, pois se dormem ou se fingem dormir é porque Círio existe para os derrotar e se de facto o vulcão que pertence a Círio não tem vida, Círio a tem.
Houve o dia de mais um intruso ultrapassar as barreiras do céu, pobre carne a sua, que a alma já a perdeu e juízo também. Tenho pena é da carne maltratada pelo fogo de Círio e pela fome de mim, Vida. Tenho dó é dos ossos sem mais carne que os segure. Apesar disso, fica bem mais uma pedra no meu jardim. Atirei-a.
Agora, com o paraíso duplamente protegido e triplicamente mais restrito, Círio aquece a minha água soprando delicada e abrasadoramente fogo sobre mim.
O paraíso não é meu.
O paraíso é nosso.
ly
Só é possível comunicar comigo no topo da montanha mais alta, tão alta que ultrapassa o gelo do céu.
O topo dessa montanha é morno como a água de uma banheira, mas as minhas águas, as águas da cascata lá no topo que rolam montanha abaixo são frias, geladas, gélidas.
A montanha é morna, agradável, confortável, convidativa, mas quem ousa tocar nas minhas terras sem a minha permissão está a tocar na sua perdição, pois sou eu a dona da montanha, a deusa da água, sem mim não é possível sair com vida do meu pequeno paraíso.
Ao intruso que ousar invadir-me e roubar-me o alimento das árvores e dos solos terá o seu fim, afinal, são as minhas árvores e é o meu solo e sem a minha água, as minhas mãos a lhes tocar, secam e deixam à míngua quem contava com alimento que não lhe pertence.
O meu nome é Vida, porque, como é óbvio, sem mim todos morreriam.
A minha montanha é o paraíso, pois só desfruta dela quem é merecedor de beber da minha água e comer dos meus frutos, abrigar-se na sombra das minhas árvores, cheirar as minhas flores e desfrutar das sensações corporais e físicas da água gelada a banhar o corpo e aquecer-se-me a temperatura… Quem eu bem entender e só quem eu bem entender terá esse privilégio.
Todos os que ousaram tocar no meu solo, passar as barreiras do céu e chegar até mim, agora, são pedras no meu jardim.
No entanto, habita carne aqui em cima. Carne pura, carne valente, carne não de humano, mas de outra espécie. É Círio, o dragão do vulcão extinto. Não há vida no seu vulcão e eu o recebi no meu vulcão de água activa.
Círio vive na minha montanha, outros morrem nela.
Rego os meus solos para lhe dar de comer, lhe dar que cheirar, lhe dar onde se abrigar e é na minha água que Círio se vem banhar e eu dou-lhe de beber.
Eu sou a própria água, dou-me para que ele possa viver.
Círio nunca será um apóstolo ou um discípulo, Círio é a língua que serpenteia e cospe fogo para proteger o que a ele pertence, o que a mim pertence, o que a só nós pertence.
A Vida é dona de tudo e Círio é tanto de Vida como Vida é de Círio.
Dou-lhe a minha água e ele dá-me todo o seu fogo.
O vulcão se extinguiu mas ele não. Círio tem mais poder que todos os vulcões que possam acordar ou que fingem dormir, pois se dormem ou se fingem dormir é porque Círio existe para os derrotar e se de facto o vulcão que pertence a Círio não tem vida, Círio a tem.
Houve o dia de mais um intruso ultrapassar as barreiras do céu, pobre carne a sua, que a alma já a perdeu e juízo também. Tenho pena é da carne maltratada pelo fogo de Círio e pela fome de mim, Vida. Tenho dó é dos ossos sem mais carne que os segure. Apesar disso, fica bem mais uma pedra no meu jardim. Atirei-a.
Agora, com o paraíso duplamente protegido e triplicamente mais restrito, Círio aquece a minha água soprando delicada e abrasadoramente fogo sobre mim.
O paraíso não é meu.
O paraíso é nosso.
ly
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