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Eterna Mortal

As palavras escritas são eternas, os seus autores, por outro lado, são meros mortais. Sendo eu mortal e minhas palavras eternas, que eu seja "Eterna Mortal".

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A Negra Missão de Uma Porta

A lua cheia ilumina as sombras da negra noite e mergulha no reflexo de um lago sujo e cristalino. Este lago pertence à casa que habita por entre as árvores, por entre a escuridão, atrás do portão enferrujado que os miúdos passam a vida a saltar desafiados por amigos a passar uma hora na assombrosa mansão.

Essa noite Cristina e Filipe, amigos desde sempre, crianças de dez anos, saltaram o portão.

Filipa agarra a mão de Cristina e avança com a missão de ser o protector, o herói desse supostamente ingénuo, no entanto aterrador desafio.

Caminham por entre a escuridão com destino ao seu fim. Pisam as folhas, a terra, respiram daquele ar, arrepiam-se naquele frio, temem a ausência de olhos e a presença de olhares.

A escuridão sente-os, a mansão sorri para eles e abre passagem.
Invadem a mansão. Cristina solta-se de Filipe e encantada corre para os primeiros degraus da escada, olha o tecto e sorri.

- É bonito.

- Acho que devíamos ficar aqui, junto à porta. – Aconselhou Filipe em súplica.

- Estás com medo? – Sorriu e subiu mais uns degraus. – Anda.

- Eu não tenho medo.

- Então vem.

O vento empurrou a porta e Filipe precipitou-se para junto de Cristina.

- Então vamos. – Mandou subindo.

Um corredor iluminado de negro os aguarda com um sorriso maléfico nas sombras da sombra que é a própria mansão.

Eles saltaram o portão.

Eles entraram na mansão.

Filipe põe-se à frente de Cristina sendo-lhe escudo, protegendo-a de nada e pondo-se no maior dos riscos.

Algo chama-os, o som do próprio silêncio, sussurra por eles, desafio-os a entrar no quarto ao fundo. Passam por portas e portas e todas elas parecem dizer o mesmo. Todas parecem tocar-lhes e seduzi-los a entrar. Porém, o som da última porta, a cor viva que se perdeu no tempo, chama-os, lança-lhes um feitiço delicioso, um convite a entrar irrecusável.

Filipe hesita. Pondera. Cristina antecipou-se a alguma conclusão e abriu a porta, empurrou-a devagar, resistindo ao Não de Filipe e caindo na tentação da sua curiosidade.

A porta range ao ser abrir, acorda passados tantos anos a dormir na sua doce e negra missão de ser aberta. Mas nem tudo o que pode ser aberto foi feito para esse propósito, talvez o propósito de uma porta seja manter algo dentro e não entrar algo.

Cristina avança, Filipe passa-lhe á frente como um salvador e põe-se à frente da donzela em perigo.

Observam.

Paira um cheiro a pó, um cheiro a inexplicável que os deixa alerta.

Observam.

De que adianta observar se só se vê negro?

Negro coberto de pó.

Uma cama velha, brinquedos, uma alcatifa oval. Uma mesa-de-cabeceira em madeira, um candeeiro caído no chão por cima da bainha do lençol que caia da cama e permanecia estático por anos. Tudo estava parada à anos.

Eles saltaram o portão.

Eles entraram na mansão.

Eles abriram a porta.

Filipe vira-se.

Cristina!

Onde está Cristina?

Desapareceu…

Filipe grita por ela em pânico. Corre pelo corredor, desce a escada, agarra a porta da mansão e puxa. Tem a oportunidade de fugir, toca a liberdade e algo o agarra.

Filipe grita desesperado, esperneia. É levado para baixo, para bem baixo, para debaixo da mansão. Mais escuro que a escuridão. Uma escuridão tão forte e tão pesada que parecia ofuscar a tremula luz da vela.

Atado a uma cadeira, amordaçado e em pânico. O coração a saltar no peito, numa última tentativa de se salvar daquele corpo condenado.

Cristina!

Ao vê-la, viu o seu destino.

Eles saltarão o portão.

Eles entraram na mansão.

Eles abriram a porta.

Talvez o propósito de uma porta seja manter algo dentro e não entrar algo. Um facto é que quem entrou, não saiu.

A porta está novamente fechada.
Publicada por Unknown à(s) 12:39 1 comentários
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