Mãe de dois filhos: António Castro Amaral e Sofia Castro Amaral
Acusada do homicídio do marido
Confissão assinada:
Eu assassinei o meu marido.
Ele era um monstro e merecia morrer.
Fui forçada a casar com ele aos dezassete anos pelos meus pais. Eles queriam o melhor para mim e casar-me com um homem velho de muitas posses era uma garantia do meu futuro, sendo a minha família pobre.
Na idade ele disse a verdade, quanto a posses, só possui-me a mim.
Em tão tenra idade já estava cansada com um homem que me metia nojo e que me levou para longe da minha família.
Tinha de escrever cartas á minha mãe a mentir-lhe para ela não sentir culpa da minha má sorte.
Enquanto a minha mãe acendia velas ao céu a agradecer a sorte que eu tinha tido na vida, a sorte que lhe dizia que tinha. Em casa, o meu marido, o meu carrasco, ele tratava-me mal.
Eu era tão nova e tinha de ser desposada por ele. Parecia que ele se divertia com a minha ingenuidade, com o meu desejo de castidade. Chegava do trabalho mal pago e que ele odiava e agarrava-me pelo braço, atirava-me para a cama e com brutalidade e contra a minha vontade me desposava como todos os dias desde o dia em que me casei.
Todos os dias eu tentava pará-lo, tentava acabar com aquilo. Lutava pela minha dignidade.
Depois do António ter nascido parei de lutar. Mesmo durante a gravidez, já deixava que ele fizesse o que quisesse comigo. Lutar contra ele só seria um risco para o meu filho. E depois de nascido não queria que o meu filho visse alguma cena, soubesse como tinha sido feito ou simplesmente soubesse o sofrimento em que a mãe se encontrava.
Muito meu filho me viu chorar e eu dizia-lhe que eram magoas do passado, quando eram magoas tão vivas, um ódio que se me alimentava todos os dias.
Sofia nasceu e era uma bonequinha. Linda e sorridente. Tinha uma felicidade que eu invejava ter. Uma felicidade que eu em tempos tivera.
António às vezes até tinha ciúmes da irmã, mas ele sabia que eu o amava, e ficava feliz só por me ver a sorrir mais vezes. Sofia foi uma alegria muito grande na minha vida. Os meus dois filhos brincavam enquanto eu cozinhava para eles. Dava gosto cozinha para eles. Até arrumar o que eles desarrumavam tinha outro gosto. Os meus filhos são tudo para mim, a única coisa boa no meu casamento.
Foi quando a meio da noite ouvi gritos. Os gritos dos meus filhos em desespero e notei a ausência do traste a meu lado que o meu coração sufocou-me a garganta e precipitei-me até eles para os acudir.
Os meus olhos gritaram desespero e horror em lágrimas que não correram mas se suicidaram.
Ele estava a fazer a Sofia o que tantas vezes fez-me a mim. No choque fiquei parada a olhar incrédulo para o espectáculo de terror que não via. Tudo me parecia pesadelo. Não podia ser real. Ele não podia estar a fazer aquilo á minha filha.
António viu-me e correu até mim. Puxou-me pela blusa e deixei cair a cabeça caindo os meus olhos sobre ele.
- Mamã – chorava em soluços. – Ajuda! Por favor, mamã.
Os seus gritos de desespero acordaram-me. Caminhei até á cozinha, agarrei na faca que usei tantas para cozinhar para os meus filhos, voltei ao quarto e o pesadelo tornou-se realidade.
- António, sai!
Esfaqueio-o vezes sem conta. Mesmo depois de morto continuei a esfaqueá-lo. Tirei o seu cadáver de cima de Sofia e abracei-a com toda a força. O aperto do seu abraço, o tremer de suas mãos e de sua voz a chamar-me, o seu choro de menina. Tudo tão horrível, mas ela estava bem.
António ao fazer-se silêncio veio a abraço-nos também.
A preocupação dele com Sofia tocou-me. Ele acarinhou o cabelo da irmã e como se fosse seu guardião disse que estava tudo bem, que a amava e que a íamos proteger para sempre. Eles são quase da mesma idade, mas cresceu tanto o meu menino naquela noite.
Enquanto eu escavava o quintal, António cuidava de Sofia. Estava com ela deitada no seu peito a dar-lhe mimos. Ao vê-los assim só me apetecia abraçá-los, mas tinha de continuar a escavar.
Escavei bem fundo e o meu menino e a minha bonequinha ao verem-me arrastar o corpo morto em vez de se afastarem como pedi vieram ter comigo e ajudaram-me a puxar o corpo. Caiu-me uma lágrima pesada ao ver o que tinha feito, como estava a dar tanto peso nas almas das minhas crianças.
Depois de enterrado, António com uma sabedoria que eu desconhecia disse a Sofia que o que tínhamos feito tinha sido uma coisa má e que nunca na vida poderiam fazer coisa igual.
Já era de manhã e estávamos todos enfiados na banheira. Eu abraçada aos meus dois filhos. A lavar-lhes o sangue, a vergonha e a velha vida. Com as mãos que os salvei, os amava. Não guardo o mínimo arrependimento por o ter morto. Só lamento que os meus filhos tenham assistido. Limitei-me a salvar tudo o que tinha. O mundo agradece o meu acto de loucura, pois na minha loucura tomei o acto mais louvável da minha vida, pus fim á vida do meu carrasco.
Se é meu destino passar os dias na prisão agora que o seu corpo foi descoberto, então que seja, mas que prendam os meus filhos comigo, pois eles são cúmplices da minha dor.
Letícia Castro
terça-feira, 20 de julho de 2010
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